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Dimenstein foi "pioneiro no campo social e investiu em educação inovadora"

Gilberto Dimenstein concede entrevista ao UOL em sua casa, na Vila Madelena, São Paulo - UOL
Gilberto Dimenstein concede entrevista ao UOL em sua casa, na Vila Madelena, São Paulo Imagem: UOL

De Ecoa, em São Paulo

30/05/2020 04h00

Projetos para uma educação inclusiva. Ideias para uma cidade mais humana. Uso da tecnologia e da comunicação para gerar acesso. Essas foram algumas das contribuições lembradas por quem conviveu com o escritor e jornalista Gilberto Dimenstein, que morreu ontem (29) em São Paulo, aos 63 anos, em decorrência de um câncer.

Ao longo de pouco mais de seis décadas, ele construiu um legado para além de sua atuação notória como repórter na imprensa tradicional. Nascido na capital paulista, filho de um pernambucano de origem polonesa e de uma paraense de ascendência marroquina, Dimenstein passou por diversos veículos de comunicação, venceu dois prêmios Esso de Jornalismo e um prêmio Jabuti de Literatura.

Seus projetos das últimas décadas, no entanto, tinham mais a ver com empreendedorismo social e educação inovadora, sem deixar de lado a comunicação e a preocupação com direitos humanos. No fim dos anos 1990, criou a Cidade Escola Aprendiz, projeto de educação que gerou o Portal Aprendiz. A ideia de cidades como salas de aula, locais de aprendizado, estava no cerne de ambas as iniciativas. Em 2008, criou o site Catraca Livre, com propósito de divulgar eventos culturais e serviços gratuitos.

Para Paula Patrone, coordenadora executiva institucional da Cidade Escola Aprendiz, "Gilberto foi um sonhador". Para entender o que a atuação do escritor e jornalista deixa como ensinamento, ouvimos Patrone e mais pessoas que conviveram ou trabalharam com Dimenstein: o urbanista Nabil Bonduki; o ex-Secretário de Cultura de São Paulo Ale Youssef; o pesquisador e ex-secretário da Educação Alexandre Schneider; a jornalista e autora do projeto Cidades para Pessoas Natália Garcia; o apresentador e jornalista Marcelo Tas; e o colunista da Folha de S. Paulo Marcelo Leite.

Cidade mais humana

"Dimenstein era meu vizinho. A gente se conheceu em 1986, em uma reunião com editorialistas da Folha de S. Paulo, quando ele ainda vivia em Brasília. Depois, mudou-se para a Vila Madalena, onde eu também moro. Seu papel ao longo dos anos foi apontar iniciativas para tornar a cidade mais humana. Começou como jornalista, depois tornou-se ativista dos direitos humanos, da educação e especialmente de uma cidade educadora. Ele defendia a ideia de aproveitar espaços comuns para educar, além da educação formal, e também para agir no processo de formação das pessoas em relação ao uso da cidade.

Dimenstein foi fundamental na revitalização do Beco do Aprendiz, na Vila Madalena, próximo ao Beco do Batman. Ali revitalizou uma praça de maneira comunitária, investindo nos grafites e arte de rua. Ele era bastante apegado ao bairro, por onde costumava andar a pé, e até dizia que ele também deveria olhar mais para as periferias. Com a criação da plataforma Catraca Livre, criou uma mídia independente para dar destaque a ações de acesso à cidade que não eram muito visíveis. No nosso último encontro, pouco antes da quarentena, ele já estava debilitado pela doença, mas otimista em relação ao país."

Nabil Bonduki, arquiteto, urbanista, ex-secretário de cultura de São Paulo durante a prefeitura de Fernando Haddad (PT-SP) e vereador por dois mandatos; é um dos principais articuladores do Plano Diretor da cidade, em 2014

Pioneirismo

"O Gilberto foi pioneiro em tudo. Fez sucesso cedo como jornalista e, sem deixar de sê-lo, desenvolveu experiências inovadoras nas áreas de defesa dos direitos da criança, na educação, desenvolvimento comunitário e na comunicação. Quando os movimentos pelos direitos da criança engatinhavam, criou com outros colegas uma agência de jornalistas de todo o Brasil (a Andi - Agência Nacional pelos Direitos da Infância) para defender os direitos da infância, formando jornalistas no tema e dando visibilidade à violação de direitos no Brasil.

O Aprendiz foi uma das primeiras organizações sociais do país a articular projetos educacionais inovadores em parceria com escolas e redes públicas brasileiras. Ajudou a formar e apoiou organizações e lideranças comunitárias, para que fossem agentes de transformação local, enquanto procurava fazer no seu bairro aquilo que pregava como cidadão e empreendedor social.

A defesa de uma cidade organizada para as pessoas, do uso do espaço público pela comunidade, das manifestações culturais urbanas e da arte de rua e o uso da bicicleta na cidade tiveram nele um defensor e motivador quando ainda eram algo marginal. São Paulo não seria a mesma sem seu ativismo.

Gilberto foi um pioneiro generoso, abrindo caminhos próprios e apoiando tantos outros que, espalhados pelo Brasil, carregam em si o seu legado virtuoso."

Alexandre Schneider, pesquisador da FGV, consultor e ex-secretário da Educação (governo Kassab e Doria)

Sonhou cidade mais justa

O Gilberto foi um sonhador. Ele sonhou no final dos anos 90 que um bairro inteiro podia tornar-se educador. Ele sonhou que as crianças, os educadores, os artistas poderiam transformar praças, becos e ruas em lugares de encontro. E serem lugares e invenção e criatividade. O Gilberto sonhou que a cidade poderia ser mais justa, acolhedora e solidária.

E em 1997 ele criou a Cidade Escola Aprendiz, e desde esse ano foi fazendo muitas ações e projetos que foram materializando esse sonho. No final da década de 90, juntou jovens das escolas públicas e privadas e criou uma plataforma chamada Portal Aprendiz, em um momento que ainda não se falava tanto de internet. Essa era uma plataforma para dar visibilidade ao que era potente na cidade, a dar luz para o que estava acontecendo, para conectar as pessoas, para conectar as iniciativas.

O Gilberto tinha essa característica de ser uma figura extremamente criativa, inovadora, com grande frescor. Ele era muito inquieto, e era uma inquietude que sempre estava procurando fazer o novo, fazer o diferente. Ele não queria fazer um projeto só pelo projeto, ele sempre estava buscando uma inovação, e sempre com muita paixão.

O Gilberto tinha muito essa característica de um visionário mesmo. Além dele ser extremamente criativo e construir formas muito criativas de como a gente poderia elaborar um projeto social, implementar uma prática, uma ação, ele também tinha uma capacidade de se antecipar ao que viria acontecer, de se antecipar quais seriam as agendas importantes a serem enfrentadas do ponto de vista social. Ele formou muitas lideranças no Brasil todo, mas ele esteve desde o início no bairro educador Heliópolis que hoje é uma referência de como uma comunidade se articula junto com a escola para promover o desenvolvimento integral das crianças e jovens. Essas é uma experiência referência que com certeza foi muito inspirada nas ideias e nas práticas do Gilberto.

Paula Patrone, coordenadora executiva institucional da Cidade Escola Aprendiz

Grande amante de São Paulo

"Eu conheci o Gilberto em 1999, quando era assessor especial do Ministro da Justiça Luiz Carlos Dias e ele foi entrevistá-lo. Passamos uma tarde juntos. Desde então, ficamos próximos. Tivemos uma boa sinergia e ideias que bateram muito fortemente naquele momento. Naquela época, ele era o grande colunista que pautava todas as manhãs do mundo político e de quem pensava política na coluna de tendências e debates. De fato, ele tem uma importância que extrapola o jornalismo.

Foi um jornalista cidadão, um ativista pelo direito à cidade. Foi um grande entusiasta de projetos como a Semana Jovem, o Agosto Negro, primeiro festival de hip-hop no Brasil, e de ações de valorização da cultura urbana, como o grafite e o skate.

Ele me deu muita força e enxergou longe na hora que iniciamos o movimento pela luta pelo Carnaval de rua de São Paulo e via o Baixo Augusta como uma ação de desbravar o Centro de São Paulo, numa referência da ação cultural que ela já tinha Vila Madalena. Dimenstein ficou bastante feliz quando o Carnaval de rua se consolidou na cidade. Quando assumi a secretaria municipal de cultura, também foi um entusiasmado defensor. Nós apoiamos os projetos em que ele estava envolvido, como a Orquestra de Heliópolis, fora as histórias em parceria com o Catraca Livre. A última vez juntos foi uma manhã, de feriado, no dia 25 de janeiro deste ano, onde inauguramos a placa da memória paulistana no Beco do Batman. E foi fixado no muro da sede do Catraca Livre. Foi um momento bastante singelo: percebemos que nossa história estava toda ali.

Temos que entendê-lo como um grande ativista pelo direito da cidade e um grande amante de São Paulo. Uma das pessoas que mais amou e trouxe referência, do ponto de vista de valores intrínsecos de São Paulo, que sempre precisam ser lembrados. A nossa chama vanguardista, das vocações da cidade para a cultura, para a arte, para a diversidade. Certamente, ele teve e sempre terá seu papel. Da minha parte, fico sem um grande amigo, uma pessoa que me inspirou. A experiência que ele teve vai sempre nos inspirar e fortalecer para as lutas que virão."

Alê Yousseff, fundador do Acadêmicos do Baixo Augusta e ex-secretário de Cultura da cidade de São Paulo

Admiração inabalável

"Gilberto tem uma importância enorme. Ele transformou um bairro em uma escola de aprendizado. Eu fui um parceiro de primeira hora do Projeto Aprendiz. Nesse empreitada, ele pôde concretizar sua ideia de transformação urbana como educação do cidadão. Fui colega dele na redação da Folha de S. Paulo na década de 1980, mas a gente se aproximou mesmo nessa época do Projeto Aprendiz. Foi ele o responsável pelo primeiro livro que publiquei, "É rindo que se aprende", que foi um depoimento de um dia inteiro, do café da manhã até o jantar, que se transformou em uma referência para se entender e debater o mundo digital.

Foi um presente muito raro a gente poder ter se reconciliado no final, antes de ele partir. Já doente, ele escreveu no Twitter pedindo desculpas publicamente para mim por uma discussão que tivemos nas redes sociais no ano passado. O atrito tinha surgido por uma crítica ao Glenn Greenwald [jornalista norte-americano radicado no Brasil], e o Gilberto respondeu de uma forma muito agressiva. Foi tão agressiva que eu fui até ver se não era um perfil fake ou robô. Bem depois, quando ele escreveu se desculpando, foi um dia marcante na minha vida. As pessoas não paravam de ligar para falar, comentar. E eu também liguei para ele para agradecer o gesto. Foi um texto bem dramático, mas acho que isso fez ele partir mais leve.

Nós dois aprendemos que a polarização é uma armadilha que nos leva a cegueira. De uns 10 anos pra cá venho trabalhando em projetos de educação que tentam entender e fugir desse processo que é prejudicial para todos. Esse nosso reencontro foi muito delicado quando ele vivia seus capítulos finais. Minha admiração por ele é inabalável."

Marcelo Tas, jornalista e apresentador

Coragem em abraçar o social

"Eu conheci o Gilberto Dimenstein como leitor, depois como colega na redação da Folha. A série de reportagens sobre prostituição infantil na Amazônia, que depois virou o livro "Meninas da Noite", foi marcante no jornalismo de cunho social. É um clássico do jornalismo. Foi importante ver esse outro Brasil ser reportado nas páginas do jornal. Ele despertou muita admiração nas pessoas de minha geração.

Foi legal essa transição que ele fez. O jornalismo tem uma certa limitação, e é até natural que alguns jornalistas busquem o terceiro setor para poder atuar. Ele fundou entidade de defesa dos direitos das crianças. Permaneci como jornalista ambiental sem me aproximar da militância. Acho importante isso também, para manter o espírito crítico e a independência, porque o terceiro setor não é feito só de santos. O Gilberto teve a coragem de dar esse pulo, de mudar de lado. Talvez por isso tivemos algumas discordâncias sobre o papel do jornalista. De qualquer forma, tenho uma grande admiração por seu trabalho e por sua coragem de abraçar o empreendedorismo social."

Marcelo Leite, colunista de temas ambientais da Folha

Outra maneira de olhar para a cidade

"Meu primeiro contato com o trabalho do Gilberto Dimenstein foi aos 15 anos. Eu estudava em um colégio de elite em São Paulo que tinha convênio com a ONG Cidade Escola Aprendiz, que ele fundou (em 1997).

Com esse convênio, nós, alunos, fazíamos um trabalho voluntário para um projeto da ONG chamado "Old Net". A gente dava aula de informática - naquela época essa palavra ainda existia - em asilos para pessoas bem velhinhas. Essa experiência mudou minha concepção de mundo. Primeiro por que, antes disso, eu tinha uma vida muito classe média alta, de casa para a escola, não andava muito na rua, era uma vida muito protegida da rua e da cidade. Quando comecei a fazer esse trabalho voluntário, passei a me deslocar e conhecer outros lugares da cidade. Essa experiência me abriu para valores humanos mesmo, de solidariedade e de compaixão. Eu via a diferença que a nossa presença fazia na vida daqueles velhinhos, que muitas vezes passavam o dia sem nada para fazer, sem ninguém para visitá-los. E nós estávamos ali, ensinando, mostrando cuidado e dando atenção. E isso é muito interessante por que, se você for pensar, os idosos tinham muito a nos ensinar em relação à experiência de vida. Era uma troca.

Sinto que Gilberto previu muito bem o que acontece hoje: esse intercâmbio geracional, em que uma geração sabe muito sobre tecnologia e uma geração mais velha que tem outras experiências. E isso poderia entrar em conflito. Hoje, por exemplo, muitos jovens chegam em empresas dominando tecnologia, processos, mas muitas vezes não aceitam autoridades, não respeitam as pessoas que estão ali há mais tempo, que tem outras vivências, outros saberes.

O que também acho importante é esse conceito que o Gilberto levou para a cidade de São Paulo de bairro-escola. Ele falava muito sobre isso na Vila Madalena, de olhar para cidade com uma plataforma de conhecimento e de interações. E ele foi uma das primeiras pessoas a chamar atenção pra isso, em uma época em que ainda vivíamos resquícios dos anos 80 e 90 - décadas em que os portões subiram, os muros aumentaram e a segurança virou um tema prioritário.

É justamente nesse momento que ele propõe levar às salas de aula para o ambiente urbano, onde os conflitos, a realidade acontecem. E o Gilberto questionava exatamente isso: vamos ali no mundo ver como é de verdade? A gente fala de saneamento básico, vamos ali ver as ruas, os esgotos, os rios... Como a cidade se movimenta, se mostra, com relação a isso? Esse pensamento de lidar com problemas reais só existe quando a gente está vulnerável na rua. E isso eu acho que o Gilberto fazia de mais primoroso, de abrir os olhos e falar: os problemas não são uma abstração teórica que a gente lê nos livros, os problemas estão acontecendo na rua o tempo inteiro. E a gente tem que se vulnerabilizar para estar em contato com eles.

Isso interferiu em muitas coisas e principalmente na forma de cobrir cidades no jornalismo. Por que cidades é uma editoria que durante muito tempo só ficou olhando para trânsito, clima e enchente. E não é só isso. Cobrir cidades é muito mais profundo, tem a ver com os movimentos que estão acontecendo na rua, tem a ver com as oportunidades que estão acontecendo. E eu sinto que ele mexeu muito nesse lado também, impulsionando reportagens que hoje não só noticiam fatos, mas que mostram o por quê, por exemplo, as enchentes ainda acontecem de forma devastadora em nossas cidades, nossos estados."

Natália Garcia, jornalista, escritora e idealizadora do projeto Cidade para Pessoas

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