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Laerte: "O futuro das produções artísticas LGBTQI+ está nas periferias"

A cartunista Laerte Coutinho afirma que tem procurado referências em novos artistas LGBTQI+  - Divulgação
A cartunista Laerte Coutinho afirma que tem procurado referências em novos artistas LGBTQI+ Imagem: Divulgação

Paloma Vasconcelos

Colaboração para Ecoa

29/02/2020 04h00

Você se sente representado nos filmes, quadrinhos e desenhos? Para a população LGBTQI+ dificilmente a resposta será positiva. Apesar de muitos personagens de quadrinhos famosos serem LGBTQI+, a saída do armário ainda é tímida. Os Vingadores, uma das sagas mais pop do universo nerd, por exemplo, traz um personagem de gênero fluído - ou seja, já foi apresentado como sendo do gênero feminino e do masculino -, é pansexual - se atrai por pessoas de todos os gêneros, mas esta informação está apenas nos quadrinhos. Estamos falando de Loki, irmão de Thor.

A Mística, vilã de X-Men já foi apresentada como uma personagem bisexual. A Arlequina, apesar de ser comumente associada como "a namorada do Coringa", também já teve um relacionamento com outra mulher. Esses são alguns exemplos de histórias podem ser encontradas nos quadrinhos.

Mas o que fica gravado em nossas mentes são os casos que ganham repercussão. Como o que aconteceu com um quadrinho da Marvel que trazia dois homens se beijando. Em setembro de 2019, Marcelo Crivella (PRB), prefeito do Rio de Janeiro achou que a HQ "Vingadores - A Cruzada das Crianças" não deveria estar na Bienal do Rio e postou um vídeo nas redes sociais pedindo que os organizadores do evento recolhessem o material.

A desculpa usada pelo prefeito foi a de que o conteúdo apresentado, no caso o beijo, era impróprio para menores. Para o professor Waldomiro Vergueiro, responsável pelo grupo de pesquisa Observatório dos Quadrinhos, da Escola de Comunicações e Artes, da USP (Universidade de São Paulo) discorda que este tipo de quadrinho possa influenciar ou causar algum prejuízo a crianças e adolescentes.

"Isso é uma ideia antiga. Não é a leitura de uma história que vai influenciar, mas a sociedade mais conservadora vai buscar alguns elementos que sejam os bodes expiatórios para críticas," aponta.

Apesar disso, artistas LGBTQI+ continuam a produzir para não deixar o conteúdo ser colocado no armário de novo. A resistência está nas ruas, nos jornais, nas redes sociais e nos eventos de cultura pop e nerd. E não é só de super-heróis e vilões que se constrói esse universo.

Laerte - Ramón Vasconcelos/Divulgação/TV Globo - Ramón Vasconcelos/Divulgação/TV Globo
A cartunista Laerte Coutinho começou a desenhar na década de 1970
Imagem: Ramón Vasconcelos/Divulgação/TV Globo

Produção LGBTQI+ sempre foi resistência

Apesar de já ter um nome conhecido, a cartunista Laerte Coutinho, 68, que começou a desenhar na década de 1970, sempre precisou — e ainda precisa — resistir a diversos ataques que sofre por ser LGBTQI+ transmitir críticas por meio de sua arte.

Para a cartunista, existem ondas de opressão e censura, e cada época tem sua singularidade. Quando começou a trabalhar com arte, o país vivia uma ditadura civil e militar. Hoje, afirma Laerte, vive uma ditadura racista e fascista com o governo de Jair Bolsonaro (sem partido).

"O governo do Bolsonaro é um processo. Ele é um sujeito autoritário e isso não tem nada de benéfico para o processo artístico brasileiro. De alguma forma nós sempre tivemos alguma encrenca para enfrentar. A atual é especialmente grave porque diz respeito ao futuro da democracia no nosso país." diz. Apesar disso, ela afirma ainda que há espaços de lutas no universo nerd, no mundo dos quadrinhos e nas produções artísticas

Laerte brinca que, quando começou, nem xerox existia, era necessário pegar o desenho, colocar em uma pasta e levar em redações jornalísticas para tentar publicá-lo. Hoje, porém, a materialidade da profissão ultrapassou as possibilidades dos sonhos da cartunista. Por isso, ela tem procurado beber na fonte de novas e novos quadrinistas.

O futuro das produções artísticas LGBTQI+ está na juventude das periferias," ela diz, apontando que eventos como a Pericacon, evento inspirado na Comic Con que, em 2019, reuniu artistas periféricos do mundo nerd e cerca de quatro mil pessoas para a Fábrica de Cultura do Capão Redondo, na Zona Sul de São Paulo.

São eventos que revelam um movimento muito positivo no país, ampliando com força a voz da galera que está nas beiradas do sistema. Para fazer valer direito e voz de cada um."

Laerte Coutinho, cartunista

Poc Con - Axia Produtora/Gabriela Barros - Axia Produtora/Gabriela Barros
Em São Paulo, primeira feira de quadrinhos LGBTQI+ foi realizada em 2019
Imagem: Axia Produtora/Gabriela Barros

Uma feira de quadrinhos só para LGBTs

Se você não entende nada do mundo nerd, provavelmente não deve ter ouvido falar sobre a Comic Con, maior evento de cultura pop do mundo que acontece anualmente desde 1970 em San Diego, nos Estados Unidos, e em outros países como Canadá, Portugal, Índia e Brasil, que ganhou sua primeira edição em 2014.

O encontro reúne diversos elementos de vertentes da cultura pop: mesas com artistas de séries de televisão ou pessoas realizando cosplay de algum personagem dos quadrinhos, por exemplo. A Comic Con é um fenômeno tão grande que acabou servindo de inspiração para outros eventos em solo brasileiro que possuem o mesmo intuito: falar de cultura nerd, mas com o intuito de promover a diversidade entre o público e os artistas.

Esse é o caso da Poc Con, feira LGBTQI+ de quadrinhos e artes gráficas, que surgiu em 2019. O nome é uma brincadeira que junta as palavras "poc", gíria usada para se referir à uma pessoa gay, e "Comic Con", o evento de cultura pop.

Mário César - Reprodução/Ricardo Inov - Reprodução/Ricardo Inov
Rafael Bastos e Mário César criaram, em 2019, a Poc Con, feira de cultura nerd LGBTQI+
Imagem: Reprodução/Ricardo Inov

"Estou no meio de quadrinhos desde 2006 e comecei a notar que nos últimos anos estavam surgindo muitos novos autores de quadrinhos abertamente LGBTQI+. Aí comecei a pensar em juntar todo mundo em um lugar só," conta o quadrinista Mário César, 37, um dos cofundadores e organizadores da Poc Con. O projeto saiu do papel quando ele conheceu o ilustrador e designer gráfico Rafael Bastos Reis, 29. Juntos realizaram em junho de 2019 a primeira edição do evento em São Paulo.

Mário também é chargista e cartunista e já venceu o Troféu HQ Mix — considerado o Oscar dos quadrinhos brasileiros — três vezes. Em 2018, faturou o prêmio de melhor web quadrinhos com o seu trabalho "Bendita Cura", que aborda questões como as terapias de reversão sexual para tentar conquistar a suposta "cura gay".

Bendita Cura - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Capa da obra "Bendita Cura", finalista na categoria Histórias em Quadrinhos do prêmio Jabuti de 2019
Imagem: Arquivo Pessoal
Ele avalia que a produção de autores LGBTQI+ está cada vez maior e melhor. "Muitos dos novos autores que mais tem me chamado atenção atualmente são autores de minorias como LGBTs, mulheres ou negros que antes eram mais raros no nosso mercado," conta lembrando que alguns desses autores estavam na primeira Poc Con.

Para ele, esses novos artistas têm trazido um frescor cenário de quadrinhos, contado histórias que antes não eram abordadas, trazendo mais representatividade e diversidade para a produção nacional.

Mário também foi finalista na categoria Histórias em Quadrinhos do prêmio Jabuti de 2019. Ele conta que quase todos os finalistas traziam questões sociais, como um gibi feito por pessoas negras para falar de racismo e o seu trabalho, o "Bendita Cura".

"E isso não só no universo nerd, mas em todas as áreas artísticas como música, cinema, televisão, teatro... Na música mesmo quem tem trazido novidade e frescor são músicos LGBTQI+: Pabllo Vittar, Liniker, Linn da Quebrada, Glória Groove, Johhny Hooker e Ludmilla, por exemplo," relembra.

A diferença entre as produções de pessoas LGBTs e pessoas heterocisnormativas (que vivenciam o gênero do nascimento e se relacionam com pessoas do gênero), afirma Mário, é que quem é LGBTQI+ costuma se incluir nos personagens.

Retratamos de forma mais natural porque botamos nos nossos gibis muito das nossas experiências pessoais. Temos uma proximidade e um aprofundamento maior na questão da representatividade por conta disso. Também vejo uma diversidade maior nos temas abordados e estilos, tem terror, humor, drama, super-herói, infantil, adulto, erótico, mangá..."

Mário César, quadrinista e cofundador da Poc Con

Representatividade realmente importa

Outro "filho" da Comic Con é o Perifacon. Para a produtora cultural Andreza Delgado, 24, uma das organizadoras do evento de cultura pop periférica, falar em LGBTQI+ no universo nerd é falar em representatividade. Ela conta que essa representatividade não deve estar só em artistas independentes como também em meios tradicionais de forma mais visível.

"Estamos falando de um universo em que as pessoas ignoram que muitos personagens sempre foram LGBTs. Eu penso muito do Loki nos quadrinhos. Ele foi apresentado para o público no filme do Thor, mas ele é outro cara que é pansexual [quando uma pessoa sente atração sexual e romântica independente do sexo] e, em determinados momentos, se transforma em Lady Loki, uma mulher. As pessoas ignoram todo esse contexto. Se o Thor tivesse dado um beijo em outro homem as pessoas iam morrer." diz.

A produtora cultural lembra a importância de eventos periféricos e LGBTQI+ para construir novas narrativas. Relembra que durante o Perifacon decidiram criar um beco de artistas só com novas produções periféricas, negras, de pessoas lésbicas, gays, trans, etc.

"Isso é muito importante, porque se escreve uma contra narrativa do que é hétero, cisgênero e branco. As pessoas têm se movimentado e, por isso, toda a estrutura das grandes produções tem ouvido. Não se pode mais dizer que não somos mais consumidores."

Perifacon - Divulgação - Divulgação
Primeira feira de cultura nerd periférica reuniu quatro mil pessoas no Capão Redondo, zona sul de São Paulo
Imagem: Divulgação

O mesmo é apontado pelo especialista em quadrinhos Waldomiro Vergueiro. Para ele, não mencionar a comunidade LGBTQI+ nos quadrinhos é perder vendas.

"Há 30 anos não se falava da comunidade LGBTQI+ nas histórias e isso era aceito, hoje em dia já não, pois há uma participação muito maior dessa comunidade na sociedade e eles querem se ver retratados nos quadrinhos. Se os quadrinhos permanecerem com visões ultrapassadas, os leitores perdem interesse. Por isso a participação da comunidade LGBTQI+ é cada vez maior," afirma.

Waldomiro conta que as produções LGBTQI+ começaram em quadrinhos independentes, conhecidos como graphic novel, que são mais autorais, e que depois passaram para as histórias industriais. Mas não é de hoje que esse movimento vem crescendo. Desde o começo dos anos 2000, pelo menos, essas produções têm ganhado força. O quadrinho censurado na Bienal do Rio, conta o professor especialista, é dessa leva.

Perifacon - André Lucas/UOL - André Lucas/UOL
Especialista lembra que personagens de quadrinhos possuem grande influência e acabam migrando para outras mídias
Imagem: André Lucas/UOL
Ele lembra que hoje, pelo menos quem anda em uma grande metrópole, não consegue fugir do universo dos quadrinhos. Seja uma pessoa vestindo uma camiseta de super herói, um outdoor anunciando um novo filme? Em algum momento as referências nerd vão aparecer pelo seu caminho. A influência é muito grande e a produção artística em quadrinhos acaba afetando todos os outros elementos da comunicação de massa explica.

"O que surge nos quadrinhos, passa para televisão, depois continua em um filme de longa-metragem, depois vai parar no videogame e os personagens que lá surgem influenciam a produção de quadrinhos, que influenciam a moda," completa Waldomiro.

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