Topo

À frente da Amigos do Bem, Alcione atende 130 povoados no sertão nordestino

Empresária Alcione Albanesi fundou a instituição Amigos do Bem em 2002 - Divulgação/Amigos do Bem
Empresária Alcione Albanesi fundou a instituição Amigos do Bem em 2002 Imagem: Divulgação/Amigos do Bem

Claudia Varella

Colaboração para Ecoa

25/02/2020 04h00

"Miséria mesmo só existe no sertão". Esta frase foi dita em 1993 por uma mãe nordestina de uma das crianças atendidas nas 11 creches comandadas por Guiomar de Oliveira Albanesi, em São Paulo. A frase, ouvida pela empresária Alcione Albanesi, filha de Guiomar, despertou curiosidade. No Natal do mesmo ano, Alcione viajou junto com 20 amigos para o sertão nordestino, levando alimentos, roupas, brinquedos, colchões e cadeiras de rodas, além de atendimento médico e odontológico.

O grupo foi de avião até Recife (PE), e a carga, em caminhões. Percorrendo centenas de quilômetros na região conhecida como "polígono da seca", os voluntários encontraram pelo caminho dezenas de povoados vivendo na miséria.

"Quis fazer um Natal diferente e descobri uma 'África brasileira', com povoados inteiros vivendo em casas de taipa, sem água, luz ou qualquer recurso. A miséria ali é gritante, secular. Se não houver a intervenção humana, não será possível reverter essa realidade. Esta viagem mudou a minha forma de ver e sentir o mundo", declarou Alcione, presidente e fundadora da instituição Amigos do Bem.

A ação social não parou mais. Durante dez anos, o grupo cada vez maior de voluntários viajava até o sertão nordestino, entre o Natal e o Ano-Novo, para entregar as doações recolhidas em São Paulo e fazer atendimentos médicos, além de mapear as regiões mais carentes do sertão. Em 2002, a iniciativa tornou-se oficialmente a instituição não governamental Amigos do Bem.

"Não queríamos ser apenas o 'papai Noel' deles uma vez por ano, sendo que a situação de miséria continuava. Então, decidimos criar um projeto de transformação, com atendimento contínuo. Era preciso promover a inclusão social e romper o ciclo de miséria na região", disse Alcione.

De 1993 até hoje, mais de 1,5 milhão de pessoas foram atendidas pela instituição, por meio de projetos de educação, trabalho e renda, acesso à saúde, água e moradia. No total, foram construídas 123 cisternas, 35 poços artesianos e 450 casas de alvenaria. Hoje, 75 mil pessoas são atendidas todos os meses, em 130 povoados do sertão de Alagoas, Pernambuco e Ceará.

Educação e trabalho são os principais pilares

A ONG desenvolve o seu projeto baseado em dois pilares principais: educação e trabalho.

Segundo Alcione, a instituição comprou terrenos nesses estados para construir quatro Cidades do Bem, com casas de alvenaria para as famílias, saneamento básico, padaria, horta comunitária, centros de saúde e Centros de Transformação. Vivem nestas quatro Cidades do Bem, localizadas nos municípios de Buíque e Inajá (PE), São José da Tapera (AL) e Mauriti (CE), cerca de 3.000 pessoas.

Nos Centros de Transformação, cerca de 10 mil crianças e jovens participam de atividades educativas e culturais - Divulgação/Amigos do Bem - Divulgação/Amigos do Bem
Nos Centros de Transformação, cerca de 10 mil crianças e jovens participam de atividades educativas e culturais
Imagem: Divulgação/Amigos do Bem

Nos povoados mais distantes das quatro Cidades do Bem, a instituição também constrói casas de alvenaria, cisternas e poços artesianos aos moradores. As casas são entregues mobiliadas, e há atendimentos médicos e odontológicos realizados nos Centros de Saúde ou nas próprias comunidades.

Nos Centros de Transformação, cerca de 10 mil crianças e jovens participam de atividades educativas e culturais, como reforço escolar, aulas de dança, música, teatro, esportes e capoeira e cursos profissionalizantes de culinária, cabeleireiro, informática e manicure. São servidas 180 mil refeições por mês para as crianças. Ônibus escolares do projeto buscam e levam as crianças de regiões afastadas.

Ainda no campo da educação, Alcione diz que a instituição já ofereceu 450 bolsas de estudo em faculdades para jovens desses povoados. "Depois de formados, muitos deles atuam no projeto e hoje são multiplicadores."

"Eu tinha 7 anos e olhava para meus irmãos menores, no chão, tendo que repartir o pouco de comida que tinha em casa. Hoje, sou a primeira pessoa da minha família a cursar uma faculdade", disse Bruna Melo Carvalho, 26, educadora do Centro de Transformação do povoado de Torrões (AL). Ela se formou em pedagogia com a bolsa de estudos da instituição.

Em Catimbau, no município de Buíque, a Amigos do Bem mantém uma fábrica de beneficiamento de castanha, onde são empregadas 200 mulheres  - Divulgação/Amigos do Bem - Divulgação/Amigos do Bem
Em Catimbau, a Amigos do Bem mantém uma fábrica de beneficiamento de castanha, onde são empregadas 200 mulheres
Imagem: Divulgação/Amigos do Bem
Para gerar trabalho e renda para as famílias, a Amigos do Bem mantém duas plantações de pimenta (PE e AL) e duas de caju (PE e CE). Em Catimbau, no município de Buíque, há uma fábrica de beneficiamento de castanha, onde são empregadas 200 mulheres. A segunda fábrica será inaugurada em março, em Mauriti (CE).

A instituição construiu também uma fábrica de doces e mel em Catimbau, para a produção de cocadas, doces de leite, geleias, compotas e conservas de pimenta. O mel in natura é produzido por meio da flor do caju.

Nos povoados de Catimbau, Mauriti e Torrões, a ONG mantém cinco oficinas de costura para as mulheres das comunidades. Elas produzem ecobags de patchwork. Nas quatro Cidades do Bem, o artesanato é desenvolvido de acordo com a matéria-prima local e com a aptidão da comunidade.

No total, a Amigos do Bem gera emprego para mil pessoas nas 15 unidades produtivas, entre plantações, fábricas, oficinas, Centros de Transformação e postos administrativos.

Cinco oficinas de costura para as mulheres das comunidades de Catimbau, Mauriti e Torrões são mantidas pela ONG - Divulgação/Amigos do Bem - Divulgação/Amigos do Bem
Cinco oficinas de costura para as mulheres das comunidades de Catimbau, Mauriti e Torrões são mantidas pela ONG
Imagem: Divulgação/Amigos do Bem
"Toda a renda obtida com a venda desses produtos é revertida para os nossos projetos educacionais e de transformação de vidas", declara Alcione. Segundo ela, os produtos são vendidos nas principais redes de supermercados, como Pão de Açúcar, Extra e Carrefour.

Alcione afirma que o projeto da Amigos do Bem não conta com qualquer verba pública. "Não recebemos ajuda de nenhuma esfera de governo, seja municipal, estadual ou federal. Todos os nossos recursos vêm de doações de pessoas físicas e jurídicas e da venda dos produtos. Temos um grande desafio para manter um projeto como este", afirma a fundadora da instituição, que prefere não revelar quanto custa o projeto mensalmente nem o montante de doações mensais.

Número de voluntários chega a 9.200 pessoas

A Amigos do Bem mantém um batalhão de 9.200 voluntários ativos em São Paulo. Eles são divididos em 135 equipes de trabalho com diferentes atividades, como arrecadação e distribuição mensal de alimento, triagem de doações, restauração de brinquedos e acompanhamento dos diversos projetos no sertão, entre outras.

Voluntários da área da saúde, como médicos, dentistas e oftalmologistas, viajam todos os meses para o sertão para atender a população —foram cerca de 109 mil atendimentos em 2019. Alcione diz que eles visitam os povoados mais afastados para acompanhar de perto as famílias cadastradas na instituição. Há a distribuição gratuita de medicamentos e óculos de grau.

"Nosso projeto tem grandes dimensões e requer uma logística desafiadora. Por isso, são necessários muitos recursos para manter esse trabalho", conta Alcione, que cita o lema da instituição: "Se não posso fazer tudo que devo, devo, ao menos, fazer tudo o que posso."

Ela diz que aprendeu a fazer o bem com sua mãe Guiomar, 93, até hoje à frente das creches na zona sul de São Paulo. Mas também deu essa lição aos quatro filhos. Richard, Sérgio e as gêmeas Caroline e Juliene participam da Amigos do Bem desde o seu início. Alcione levou os filhos já na primeira viagem, em 1993.

"Minha mãe nunca precisou impor nada. Crescemos vendo e participando desse projeto, e hoje somos voluntários e responsáveis por diferentes áreas em toda essa logística. Trabalhamos com amor porque sabemos da importância desta causa. Estamos transformando a região mais carente do nosso país", conclui a filha Caroline, 32.