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Como diretoras brasileiras abriram caminho para Petra Costa chegar ao Oscar

Petra Costa durante as filmagens do documentário Democracia em Vertigem - Diego Bresani/Divulgação
Petra Costa durante as filmagens do documentário Democracia em Vertigem Imagem: Diego Bresani/Divulgação

Paula Rodrigues

De Ecoa

09/02/2020 04h00

Neste domingo à noite, se você ligar a TV para assistir à cerimônia do Oscar, pode ter certeza que verá um homem ganhando na categoria de Melhor Diretor. E isso não é um chute. Acontece que todos os indicados deste ano são homens. Assim como foi em 2019.

A verdade é que, nas 92 edições da premiação, apenas cinco mulheres foram indicadas nessa categoria. Então, a cerimônia que em 2016 já tinha sido chamada de #OscarSoWhite (Oscar Muito Branco, em tradução para o português) nas redes sociais por causa da ausência de pessoas negras na lista de indicados, em 2020 ganhou outro apelido: #OscarSoMale (Oscar Muito Masculino).

Em contrapartida, uma categoria chamou atenção exatamente por ser a exceção. Em Melhor Documentário, quatro dos cinco filmes indicados foram dirigidos ou codirigidos por mulheres. Inclusive uma brasileira. Se você ficou longe das redes sociais nos últimos dias, provavelmente não viu o barulho que a indicação de "Democracia Em Vertigem", da cineasta Petra Costa, causou. Várias opiniões, sejam elas críticas ou elogios, surgiram.

A que mais repercutiu recentemente foi a do jornalista Pedro Bial, quando afirmou ter rido o filme inteiro, criticando principalmente a narração de Petra que, para ele, é "miada, insuportável, onde ela [Petra Costa] fica choramingando o filme inteiro". Tenha você gostado ou não, o filme — que conta acontecimentos políticos brasileiros desde a ditadura militar até o impeachment de Dilma Rousseff, em agosto de 2016 — foi o primeiro documentário brasileiro a ser indicado para o Oscar.

"Para mim, o aspecto mais importante desse filme é a narração para falar a versão dela da história. Nós estamos em um momento político em que a toda hora nos é oferecido uma 'verdade absoluta' que devemos acreditar sem questionar. E o que ela faz no filme é apresentar a verdade dela dando a possibilidade de você discordar."

Essa é a da fala de Karla Holanda, cineasta desde 1992 e, atualmente, professora e chefe do Departamento de Cinema e Vídeo da UFF (Universidade Federal Fluminense).

Ela conta que um dos primeiros documentários brasileiros dirigido por uma mulher foi "A Entrevista"(1966), de Helena Solberg. A obra é uma coleção de entrevistas de 70 mulheres de classe média que tinham entre 19 e 27 anos. Era uma forma de tentar entender de que forma essas mulheres se relacionavam com o momento conturbado do Brasil à época.

A vontade de produzir esse documentário surgiu anos antes. Quando Helena ainda estava na faculdade, ela fez amizade com Cacá Diegues, Arnaldo Jabor, Celso Guimarães, entre outros, uma turma que viria a ser precursora do Cinema Novo, nos anos 1960.

Pautados principalmente pela luta contra o golpe militar de 1964, carregavam o famoso lema "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça" para produzir obras cinematográficas sobre a realidade social brasileira. Era uma clara oposição ao cinema tradicional dos anos 50, que eles julgavam alienar a população. Helena Solberg foi a primeira mulher a participar do movimento.

"Os filmes desses homens documentaristas traziam um debate novo à indústria cinematográfica, que era o falar sobre as desigualdades brasileiras. Então, você vai encontrar muitas produções sobre a fome, a seca no nordeste, a migração nordestina, o analfabetismo..." conta Karla.

Como mulheres revolucionaram o gênero

No ensaio "Mulheres e Ficção", publicado em 1929, a escritora Virginia Woolf discorre sobre os temas abordados por homens e mulheres na literatura da época. O texto fala sobre como mulheres escreveram muitas obras de ficção, como romances, porque eram excluídas e proibidas de viver certas experiências só por serem mulheres. Por isso, só sobrava imaginar cenários, enquanto homens podiam experimentar novas abordagens literárias a partir da possibilidade de viver e descobrir outros mundos.

Essa é descrição perfeita do que acontece com documentários também. Não estamos tirando a qualidade das produções feitas por homens, apenas apontando que essas obras documentais partiam de indignações legítimas de problemas sociais que eles não viveram. Tinha muita empatia mesmo. Acontece que esse direito de viver novas coisas não era direcionado às mulheres."

Karla Holanda, cineasta e chefe do Departamento de Cinema e Vídeo da UFF (Universidade Federal Fluminense

Especialmente a partir dos anos 1970, com a luta feminista por equidade ganhando força no país, a produção de documentário dirigido por mulheres foi pautada por temáticas que abordavam a situação da mulher em uma sociedade patriarcal, em que o papel imposto para elas era o de cuidadora — tanto da casa quanto dos filhos.

"Nós temos uma tradição, se é que podemos chamar assim, de mulheres documentaristas que optam pela subjetividade ao contar histórias. Quando a Helena faz 'A Entrevista', ela está buscando as narrativas daquelas mulheres, mas também existe uma busca para compreender ela mesma," diz.

A especialista cita mais alguns exemplos, como em "Os Dias Com Ele" (2013), de Maria Clara Escobar, ou "Que Bom Te Ver Viva" (1989), de Lúcia Murat. Ambos os documentários tratam sobre tortura na época da ditadura militar brasileira do ponto de vista de experiências próprias. No caso de Lúcia, a ideia de produzir esse documentário veio por meio de sessões de psicanálise, enquanto tratava as consequências de ter sido presa e torturada entre 1971 e 1974.

"Foi a realidade que eu vivi que me levou a querer fazer todos os meus filmes. São processos de busca e encontro," conta a diretora. Ela afirma que se achava a pessoa mais genial do mundo por ter a ideia de misturar a própria história com a do Brasil, até começar a frequentar festivais e perceber que essa era uma tendência em filmes dirigidos por mulheres.

"O José Carlos Avellar, que foi um dos maiores críticos brasileiros de cinema, realizou uma mostra no IMS [Instituto Moreira Salles] para discutir como o documentário brasileiro naquele momento estava usando situações particulares para tratar assuntos de interesse do país. Agora lembrando disso, percebo que a grande maioria dos filmes eram de diretoras mulheres. Que curioso!"

Mais documentaristas do que diretoras de ficção

Uma pesquisa do Centro de Estudo das Mulheres na Televisão e no Cinema, da Universidade de San Diego, nos Estados Unidos, mostrou que, apesar de ainda existir uma grande disparidade entre homens e mulheres em cargos de chefia, a área de documentário possui mais mulheres como diretoras do que em outros gêneros. 35% das obras documentais produzidas entre 2015 e 2016 foram dirigidas por mulheres. O número cai para 19% nas produções de ficção.

Para Karla Holanda, existem dois motivos por trás disso. Um bom e outro ruim. "Quando a indústria cinematográfica começa a ser mais rentável, especialmente nos anos 20 em Hollywood, os homens passaram a ocupar os espaços que as mulheres tinham em grandes produções. E a área de documentário, se comparada a outras, era e é onde circula menos dinheiro. Ou seja, onde tem menos lucro, as mulheres puderam ganhar espaço. É sintomático", afirma.

A parte boa é que, ainda segundo Karla, esse pode ser um indício de que as mulheres estão mais em sintonia com a realidade da sociedade, conseguindo, assim, se comunicar de maneira mais eficaz enquanto criam conexões mais profundas com quem assiste.

Essa ideia vai de encontro com a visão que Lúcia Murat tem do cenário atual do gênero, especialmente quando o assunto é os indicados ao Oscar de Melhor Documentário. Assim como ela, muitos críticos apostam que o vencedor será "For Sama" — filme sobre a guerra civil no país retratada por meio de registros diários que a jornalista e diretora síria Waad Al Kateab grava para Sama, a filha dela. "Também partindo de uma experiência pessoal, assim como 'Democracia Em Vertigem'," relembra a documentarista brasileira.

Outro documentário brasileiro quase indicado ao Oscar

Antes de 'Democracia Em Vertigem' chegar ao Oscar, outro documentário brasileiro bateu na trave. Em 2019, o Ministério da Cultura pré-selecionou "O Caso do Homem Errado" (2017) para concorrer na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. E adivinha? Quem dirigiu foi uma mulher. Na obra, Camila Moraes contou a história de Júlio César de Melo, um operário que foi morto por policiais militares nos anos 1980 em Porto Alegre. O homem foi confundido com um assaltante por causa da cor da pele.

"O documentário usa essa trágica história para falar de um assunto que se repete até hoje, que é o genocídio da juventude negra. Eu queria contar essa história porque é a nossa vida que está em jogo. Como mulher negra, eu corro o risco de morrer pela cor da minha pele, as pessoas da minha família e do meu convívio também. O audiovisual foi a ferramenta que encontrei para levantar esse debate," diz a documentarista.


Vale lembrar que a primeira mulher negra a dirigir, em 1984, um filme longa-metragem e, três anos depois, um documentário, foi Adélia Sampaio. Camila também é pioneira: foi a primeira negra brasileira a ter a chance de ser indicada ao Oscar.

"O ponto é que as mulheres no geral estão fazendo produções muito reflexivas atualmente, e estão circulando por outros caminhos fora de grandes festivais, porque eles raramente abrem as portas para nós. Por isso, temos que comemorar sim uma indicação como a da Petra [Costa]."

O mesmo sentimento em relação à indicação de 'Democracia Em Vertigem' é expressado por todas ouvidas para esta reportagem.

Apesar de todas as críticas que alguns vêm tecendo sobre a Petra, temos que assumir que essa é uma grande vitória. Isso é o fruto de todos esses anos de luta que eu e várias outras documentaristas travamos para contar nossas histórias do nosso ponto de vista, sem que outras pessoas falem por nós."
Lúcia Murat, cineasta

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