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Como projeto levou prática do skate a 600 crianças com deficiência

Daniel, Renan e Stevan praticam skate em aula do SkateAnima - Joao Mattos/Divulgação
Daniel, Renan e Stevan praticam skate em aula do SkateAnima Imagem: Joao Mattos/Divulgação

Debora Komukai

Colaboração para Ecoa

08/02/2020 04h00

Naiumy do Reis, 16, tem gênio forte e é cheia de sonhos. Ela é estudante do segundo ano do ensino médio no Colégio Estadual Padre Reus, em Porto Alegre (RS). Como qualquer adolescente, ela ama ir a shows (é fã do Projota), festas com os amigos e é apaixonada pelo Sport Club Internacional. Um amor que talvez só seja superado quando o assunto é skate.

Aos 21 anos, sua mãe, a pedagoga Roberta Reis, descobriu estar grávida da Naiumy. Como qualquer jovem, ela ficou assustada. O mundo virou ainda mais de cabeça para baixo ao descobrir que a filha era portadora de esquizencefalia (uma má formação no cérebro). Se engana quem acredita que a paralisia cerebral da Naiumy a dominou. Em 2015, durante uma consulta rotineira com o fisioterapeuta Stevan de Melo, a menina pediu que o profissional a ajudasse a suprir um sonho antigo: aprender a andar de skate.

Stevan de Melo é fisioterapeuta neurofuncional há 13 anos e skatista há 32. Ao ouvir o desejo da paciente, na época com 12 anos, sentiu-se desafiado. "Quando ela me fez esse pedido eu até pensei se tinha mesmo entendido certo. Ela não só queria andar de skate, mas de pé, e não sentada. Eu saí com aquilo na cabeça, fui com esse desafio para casa."

Da teoria à prática

Não demorou muito tempo até Stevan encontrar uma solução. Já sabendo do perfil da jovem, o fisioterapeuta entendeu que ela iria precisar de uma contenção. A forma encontrada foi o uso de uma faixa elástica terapêutica, material utilizado nas próprias sessões de fisioterapia para impedir o movimento de tesoura que as pernas da Naiumy fazem e impedir que o skate escapasse. Ao pensar em como iria apoiar a menina para ficar em cima do skate, ele achou uma possibilidade com o próprio andador que ela usava em terapia para treino de marcha. No final, conseguiu adaptar o aparelho para a adolescente, enfim, subir pela primeira vez em um shape.

"Eu a levei, então, para a rampa de acesso da instituição. Ela abriu um sorriso enorme. Veio como um insight para mim e eu pensei: 'Preciso levar essa felicidade para outras crianças'", lembra Stevan. A partir desse momento nasceu o SkateAnima. O projeto foi criado em Porto Alegre e realiza adaptações que proporcionam que crianças e adolescentes com necessidades especiais desenvolvam habilidades motoras e psicológicas por meio da prática do skate.

Sem saber do plano da dupla, Roberta se surpreendeu ao ver a filha em cima de um skate. "Lógico que eu fiquei com medo. Mas, quando ela começou a andar e abriu um sorriso, eu vi que o olhar dela brilhava. Eu notei que, por mais que eu tentasse impor uma barreira, que não era o caso, eu não iria conseguir".

Naiumy do Reis, 16, ao lado do Mineirinho  - Arquivo Pessoal
Naiumy do Reis, 16, ao lado do Mineirinho
Imagem: Arquivo Pessoal
"Até mesmo porque quando Naiumy coloca algo na cabeça ela vai atrás", ressalta Roberta. Além do skate, a jovem também joga futebol adaptado e sonha em ser desenvolvedora de videogames assim que terminar o colégio. Tal força de vontade levou a menina para longe. Em janeiro de 2020, Naiumy, Stevan, o terapeuta Daniel e o amigo de esporte Renan viajaram de avião sozinhos de Porto Alegre para a Grande São Paulo para passar cinco dias em um acampamento de skate organizado pelo skatista profissional Sandro Dias, a convite do próprio atleta.

Estar cercada de mais 50 crianças e adolescentes, todos unidos pela mesma adrenalina, impulsionou a menina a ir ainda mais longe. Durante os dias consecutivos andando de skate com Naiumy, os profissionais notaram o progresso da jovem. "Ela foi evoluindo com o skate. Hoje ela não precisa mais das adaptações que a prendem ao andador. Então se vê que há espaço para progredir. Quando a gente mantém a constância, mesmo com um quadro motor comprometido, ela consegue evoluir. Então a única adaptação que fica hoje é o andador", explica o terapeuta e coordenador do SkateAnima Daniel Paniagua.

Como a maioria dos adolescentes, Naiumy busca liberdade. Um fator que vem aumentando ainda mais após o skate. "A Nay amadureceu muito até mesmo dentro das atividades diárias. Ela vem buscando essa autonomia na vida e eu acredito que o skate trouxe isso para ela. Ela me diz que quando anda de skate tem uma sensação de liberdade e que ela sente que pode fazer tudo", conta Roberta.

De frente com Tony Hawk

Cabelo com gel, roupa de estilo e sorriso no rosto. É assim que o jovem Renan Prasido recebe quem conversa com ele. Ao lado da mãe, Gisele Prasido, o jovem de 17 anos relembra o dia que conheceu o seu maior ídolo, o skatista americano Tony Hawk. Encontro merecido após Renan ser filmado andando de skate e executando algumas manobras ao lado de amigos como o atleta profissional Cezar Dal Pozzolo, que também é apoiador do projeto. Vídeo no qual foi compartilhado pelo próprio Tony. "Hoje em dia a gente vai no shopping aqui da região e tem gente que para o Renan e pedi para tirar foto", diz Gisele.

Natural de Gravataí (RS), Renan começou a andar de skate quando tinha sete anos. Devido à paralisia cerebral, a rotina do estudante é ocupada entre os estudos, natação, fisioterapia e o skate. Paixão que se alinhou ainda mais com o garoto ao entrar no projeto do SkateAnima. "A autoestima do Renan sempre foi boa. Mas, essa oportunidade de fazê-lo participar disso tudo e ganhar esse reconhecimento no esporte é o que está mais ajudando o Renan", explica Gisele.

Sentada ao lado de Renan, a mãe ri ao lembrar do dia que Stevan e Daniel foram pedir a autorização dela para levar Renan para o acampamento de skate. "Ele nunca tinha ficado tão longe assim de mim. Os dois (Stevan e Daniel) foram muito corajosos de planejar tudo isso. Eu não teria essa coragem", conta Gisele.

Um susto

Entre uma conversa e outra, Roberta relembra do dia que o susto foi maior. "Eu vi a Naiumy caindo da rampa. Fiquei apavorada. E daí eu escutei o Stevan dizendo para ela 'Na, agora você não vai mais querer andar de skate, né', e ela respondeu 'nem tu acredita nisso'. Dei risada. A partir daí eu vi que para ela não é uma queda que faria ela desistir. Ela está muito mais segura. Agora ela sabe que pode ir além. O skate é uma injeção de ânimo em todos os aspectos para ela", conta.

Segundo o acompanhamento do fisioterapeuta, o skate é um fator muito motivador para a Naiumy então ela se supera. "Tem uma emoção envolvida, diferente da fisioterapia, que é um exercício comum para todo mundo. Então tem um valor do sentimento que dá mais espaço para ela evoluir".

Seiscentas crianças já aprenderam a andar de skate por meio do projeto  - Divulgação
Seiscentas crianças já aprenderam a andar de skate por meio do projeto
Imagem: Divulgação

Com três tipos de atividades, workshops, aulas em grupo em parceria com instituições e sessões individuais, o SkateAnima calcula já ter impactado uma média de 600 crianças. "Além de andar de skate, como parte das aulas também ensinamos para as crianças como montar um skate. Pensando na parte pedagógica também ensinamos o significado das peças e como colocar uma rodinha, um rolamento e isso também trabalha as habilidades motoras deles", explica Stevan, que também ressalta que cada aluno é um indivíduo único e o tratamento também necessita ser assim.

O grupo enxuto, orientado por Stevan, Daniel e com auxílio de Katiúcia Franco, se desdobra com as tarefas do trabalho formal para conseguirem tempo para se dedicarem ao projeto. Atualmente, já visitaram mais de sete regiões brasileiras, e quando pensam em um sonho grande a resposta é fácil: "Conseguir ensinar a metodologia do projeto para outras pessoas e mostrar como é possível realizar essas atividades, além de integrar mais pessoas ao time".

"Realmente o esporte é transformador. Tem um poder que nenhum remédio, fisioterapeuta e nem eu como mãe poderia dar para ela. Foi essa felicidade que o skate deu para ela", relata Roberta.

Iniciativas que inspiram