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Como Gerando Falcões, Trampo Justo e Co.esão realizam o milagre do emprego

A unidade da Rede Gerando Falcões na Vila Prudente busca proporcionar qualificação profissional para moradores da comunidade; 470 jovens e adultos já foram treinados pela entidade - Divulgação
A unidade da Rede Gerando Falcões na Vila Prudente busca proporcionar qualificação profissional para moradores da comunidade; 470 jovens e adultos já foram treinados pela entidade Imagem: Divulgação

Fred Di Giacomo

Colaboração para Ecoa

02/01/2020 14h14

O rosto de menino não entrega que em 1º de janeiro, logo no começo do ano, ele completou 29 anos, batendo na trave dos 30. Não importa. Atrás do sorriso fácil de quem fala ajeitando os óculos, Cesar Gouveia esconde uma vida agitada de quem "já viu, viveu, mais que muito homem de hoje". Cria da favela da Vila Prudente, zona leste de São Paulo, Cesar é o coração por trás do "Vozes das Periferias", que começou como um blog em 2013, depois virou jornal impresso e agora é parceiro da Rede Gerando Falcões, ONG fundada por seu amigo Eduardo Lyra.

A Unidade da Rede Gerando Falcões na Vila Prudente, liderada por Cesar, busca proporcionar qualificação profissional para jovens e adultos da comunidade com foco na inserção no mercado de trabalho. Entre os 470 jovens treinados pela Gerando Falcões-Vila Prudente estão moradores de outras três favelas dos arredores: Morro do Peú, Haiti e Ilha das Cobras. "Mano, empregamos mais de 70 jovens até aqui. Temos um banco de dados de pessoas que enviamos para entrevista em nossos parceiros e somos sempre avisados de toda a contratação. Não são todos da Vila Prudente, mas a maioria", afirma.

Ativista, comunicador e jornalista, Cesar já teve passagem pelo programa "Conversa com Bial", da TV Globo, e hoje lidera uma das unidades da Gerando Falcões, rede que neste ano terá impacto sobre 50 mil pessoas ao redor do Brasil. "Ano que vem pretendemos tocar mais cursos voltados à comunicação e, com as alunas e alunos formados, nós criaremos uma agência de comunicação feita por jovens da favela e para a favela, tornando a unidade da Vila Prudente referência de comunicação para a Rede Gerando Falcões", explica.

A Gerando Falcões tem como foco criar empregos e renda para famílias. É tarefa graúda em um 2019 no qual o desemprego bate na porta de 12 milhões de brasileiros e 41% dos cidadãos com alguma ocupação trabalham na informalidade, sem carteira de trabalho. São os "empreendedores da crise. "2019 foi um ano duro para todo o terceiro setor. Todas organizações sofreram em maior ou menor grau. Mas também foi um ano de superação, pois todo o trabalho se manteve de pé, atendemos mais pessoas e conseguimos empregar mais que o dobro em relação a 2018", afirma.

Afroempreendedorismo

Se a informalidade foi a tendência no Brasil de 2019, como preparar os "empreendedores da crise" para enfrentar o mercado acirrado, especialmente um em que as capas de revistas que destacam os empreendedores do ano, como a IstoÉ Dinheiro e Exame, são monopolizadas por homens brancos? Como empreende a população negra que representa 54,9% da força de trabalho do país nessa situação?

Dados do IBGE divulgados em novembro de 2019 revelam que os negros são 64,2% dos trabalhadores desocupados e 66,1% dos subutilizados, mas ocupam apenas 30% dos cargos de chefia. No entanto, pequenas empresas e autônomos respondem pela maior parte dos empregos no mundo.

A EDUCAFRO, ONG que começou seus trabalhos focada em cursinhos pré-vestibular para afro-brasileiros, procurou atacar esse desafio em três frentes. "Uma das grandes causas da EDUCAFRO, em 2019, foi constatar que, apesar de sermos 55,8% do povo do Brasil, na área de TI não chegamos a 2%. Por isso fundamos a EDUCAFROTech", afirma Frei David Santos, diretor executivo da EDUCAFRO, referindo-se ao projeto de formação em tecnologia voltada para a comunidade negra, que em sua primeira edição formou 32 pessoas. "Essa proposta está ousando ser revolucionária. Coloca o negro no mercado que paga melhor", completa.

Janaína Assumpção está à frente da Co.esão, iniciativa que busca fomentar ações afirmativas dentro da indústria publicitária - Co.esão
Janaína Assumpção está à frente da Co.esão, iniciativa que busca fomentar ações afirmativas dentro da indústria publicitária
Imagem: Co.esão
Em parceria com a Co.esão, iniciativa criada pela publicitária Janaína Assumpção e por Dilma Souza Campos, CEO da agência Outra Praia, a EDUCAFRO desenvolveu, em 2019, o Programa Empreender, que selecionou dez projetos de afroempreendedores, pagou a cada participante R$ 1.000,00 para impulsionar o seu negócio e ofereceu a eles mentoria com 10 profissionais negros de destaque no mercado publicitário. A mentoria teve a duração de três meses, e desse processo nasceram empresas como a Oluchi Arquitetura, das arquitetas Beatriz Mesquita e Ellen Camila dos Santos, que receberam orientação de Rodrigo Fernandes, CEO da Badu Consultoria.

"A Co.esão existe com objetivo de fomentar ações afirmativas dentro da indústria publicitária e toda sua cadeia", explica a cofundadora do projeto, Janaína Assumpção, que também é head de comunicação na Outra Praia. "Diversidade vai além de abrir as portas. É também abrir o bolso e investir em empreendedorismo negro. Até porque essas pessoas não têm a mesma facilidade para auxílio em crédito financeiro nos bancos como um branco teria", diz Frei David, que completa: "nossa última causa no ano foi a provocação para que a iniciativa privada contrate negros. Vamos despertar as empresas que têm sites bonitos sobre a inclusão e na prática quase nada avança. É o caso do Itaú, que acaba de contratar uma multidão de trainees, com o belo discurso de inclusão, mas com um resultado final pífio. Queremos ajudar essas empresas a acertarem", afirma.

Trampo Justo

Em 2019, o 509-E, um dos mais importantes grupos de rap do Brasil, saiu com a turnê "Vivos", em um reencontro que comemorava seus 20 anos de fundação. O clássico do hip hop nacional foi formado pelos rappers Afro-X e Dexter, amigos de infância acostumados a jogar bola nos campinhos de terra do morro Calux, favela de São Bernardo do Campo. Mas não foi no Calux que o 509-E surgiu. O grupo nasceu de um reencontro dos velhos amigos no presídio do Carandiru.

Depois de cometer sete assaltos, Dexter foi preso em 1998. Após 13 anos de reclusão, o músico foi salvo pela paixão que se tornou profissão. "Consegui sair do sistema por meio do rap. E quantos não têm o rap como apoio? Quantos não têm uma oportunidade? A minha aconteceu na Penitenciária José Parada Neto, em Guarulhos, quando já estava cumprindo o semiaberto. Um juiz me notou numa multidão de homens que contrariavam a lei. Ele viu um cara disposto a mudar e colaborar com a mudança de outras pessoas também. O nome desse juiz é Jayme Garcia dos Santos Júnior, da Vara das Execuções Criminais da cidade. Meu advogado foi pedir autorização para um show em Brasília e, mesmo com o Ministério Público sendo contra, o doutor Jayme concedeu a minha ida. Ele demonstrou confiança e me chamou para uma conversa. Algo inédito. Geralmente os juízes não pedem audiência com um preso, a não ser que ele seja muito importante, que muita coisa esteja na mão dele. Durante a conversa, doutor Jayme me disse: 'Tenho certeza de que você vai voltar do show. O senhor ama o trabalho que faz e é nisso que acredito'. Eu só sabia chorar", lembra o rapper.

Dexter é padrinho da ONG Responsa que atua na capacitação e integração de egressos no mercado de trabalho - Lucas Lima/UOL
Dexter é padrinho da ONG Responsa que atua na capacitação e integração de egressos no mercado de trabalho
Imagem: Lucas Lima/UOL

Consciente da importância que essa oportunidade teve em sua vida, Dexter tenta multiplicá-la. Foi nomeado padrinho da ONG Responsa, focada na capacitação e integração de egressos no mercado de trabalho. Não é só. Em dupla com o juiz Ibere Dias, o autor de "Oitavo Anjo" e fã de Malcom X, batalha também no projeto Trampo Justo. Seu alvo? Jovens moradores de abrigo que procuram uma oportunidade de ingressar no mercado de trabalho.

"Quando recebo o convite do juiz Ibere para conversar com adolescentes que não são infratores, que em sua maioria são crias de acolhimento, sinto mais força ainda para continuar. Significa que o meu trabalho não serve só para quem passou ou para quem está dentro do sistema carcerário. A história da minha vida se amplia, é para quem entrou não entrar mais. E para quem não entrou nem se arriscar", afirma Dexter.

Lançado em fevereiro deste ano, o "feat" entre rapper e juiz é hit. Já empregou 54 pessoas.

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