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ONGs trabalham por mobilidade e no combate a holocausto urbano

A ONG Educafro tem foco na preparação de jovens negros para o vestibular - Zalika
A ONG Educafro tem foco na preparação de jovens negros para o vestibular Imagem: Zalika

Fred di Giacomo

Colaboração para Ecoa

31/12/2019 04h00

"Minha vontade de fazer a diferença se deu com a morte da menina Agatha", explica Irapuã Santana, membro da ONG Educafro, nascido no Rio de Janeiro e, hoje, procurador do município de Mauá. "Precisamos parar com essa política genocida que tritura vidas de jovens negros sem que ninguém faça algo", completa.

Irapuã, que se beneficiou das cotas raciais para entrar em direito na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, é a prova de que as tragédias e conflitos sociais que têm marcado o cotidiano brasileiro podem nos paralisar e deprimir, mas também nos fazer agir.

"Foi daí que surgiu a ideia de demonstrar que essa política é falida e inapta", continua o autor da denúncia efetuada pela ONG Educafro contra o Brasil na ONU (Organização das Nações Unidas) e na CIDH (Corte Interamericana de Direitos Humanos), afirmando que a política de segurança pública nacional gera um genocídio da população negra.

Irapuã Santana, que se beneficiou das cotas raciais, é, hoje, procurador do município de Mauá - Rafael Iglesias
Irapuã Santana, que se beneficiou das cotas raciais, é, hoje, procurador do município de Mauá
Imagem: Rafael Iglesias
Esse genocídio se comprova pelos dados divulgados em 2019 pelo Atlas da Violência. Os negros representam 55,8% da população brasileira, mas são 75,4% dos assassinados pela polícia. Um jovem negro tem quase três vezes mais chance de ser assassinado no Brasil do que um jovem branco. Os negros e negras também são as principais vítimas de homicídio (75%) e feminicídio (61%) no Brasil.

Esses dados ganham rosto, CPF e família quando fazemos uma retrospectiva de 2019 e recordamos das mortes da menina Ághata Félix, de apenas 8 anos, do músico Evaldo Rosa, fuzilado com 80 tiros pelo exército, e dos nove garotos mortos no Massacre de Paraisópolis pela PM. São milhares de vidas de cidadãos brasileiros negros inocentes tiradas pelo estado só este ano.

"Em 2019 a Educafro, com essa denúncia, demonstrou à ONU que a morte de 50.000 negros, apenas no ano de 2017, não pode ser tratado como algo normal do equivocado sistema de combate ao crime implantado no Brasil. Apontamos que essa política genocida mói vidas negras — sem dó nem piedade — como o sistema escravocrata tratava esse povo negro", afirma Frei David Santos, diretor executivo da Educafro.

A ONG Educafro tem foco na preparação de jovens negros para o vestibular. Seu trabalho, junto ao de diversas iniciativas similares, parece dar resultados. No mesmo ano em que o Brasil se chocou com a violência contra seus cidadãos negros, foi anunciado que pela primeira vez na história do país a maioria dos estudantes nas universidades públicas era composta de afro-brasileiros. Irapuã Santana, que se orgulha de ter sido cotista, foi um desses universitários. Ele agora sonha com uma possível condenação da ONU à política de estímulo à violência incentivada por políticos brasileiros. "Creio que a ONU ou a CIDH condenando o estado brasileiro e determinando que haja uma reformulação nesse enfrentamento tem o potencial para que novos massacres não ocorram", afirma.

Negros nos noticiários?

"Amanhã vai acontecer um encontro internacional com lideranças negras de 18 Estados brasileiros e 5 países em uma ocupação no centro de São Paulo. Não vi na Folha, no Estadão ou nos Facebooks. Isso é porque, na lógica racista que nos governa, vale mais divulgar quando um negro faz algo errado do que quando centenas de negros lutam por um mundo finalmente justo."

A filósofa Suely Carneiro esteve presente no 1º Encontro Internacional da Coalizão Negra por Direitos, em novembro passado - Zalika
A filósofa Suely Carneiro esteve presente no 1º Encontro Internacional da Coalizão Negra por Direitos, em novembro passado
Imagem: Zalika
O trecho acima faz parte de um texto postado pelo educador e ativista Douglas Belchior em suas redes sociais. Douglas é uma das principais lideranças da UNEafro, cursinho popular surgido há dez anos de uma dissidência da Educafro. Ambas instituições fazem parte da Coalizão que organizou nos dias 28 e 29 de novembro o 1º Encontro Internacional da Coalizão Negra por Direitos.

O evento reuniu, em seus dois dias, importantes lideranças negras de 18 estados do Brasil, além de Estados Unidos, Equador, África do Sul e Colômbia. Estavam em seus debates nomes como a filósofa Suely Carneiro, do Geledés — Instituto da Mulher Negra, e a escritora, jornalista e ativista da UNEAfro Bianca Santana.

"O encontro foi importante para reafirmar o legado de resistência, luta, produção de saberes e de vida da população negra. Temos propostas para este país e o encontro nos permitiu lembrar a força de quando trabalhamos em conjunto. Em 2020, vamos agir coletivamente para enfrentar o racismo e o genocídio da população negra. E seguiremos honrando nossa ancestralidade, lutando por direitos, pela vida e pelo bem viver de todas e todos", resumiu Bianca.

Além do seu primeiro grande encontro internacional que terminou com a festa Kizomba, organizada pela UNEAfro, a Coalizão Negra por Direitos foi convidada para enviar membros em visita ao Parlamento Europeu em dezembro de 2019 e também organizou protesto contra o Massacre de Paraisópolis dia 04 de dezembro em frente à Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. "Esperamos que a ONU e a CIDH tomem medidas, de modo a recolocar o país no patamar de civilidade, que venha a cumprir seu dever como nação séria e pare de dizimar sua população negra" conclui Frei David.

O encontro entre lideranças negras, em novembro, terminou com a festa Kizomba, organizada pela UNEAfro - Alma Preta
O encontro entre lideranças negras, em novembro, terminou com a festa Kizomba, organizada pela UNEAfro
Imagem: Alma Preta

Anjos do trânsito

A primeira lei nacional sobre bicicletas no Brasil foi sancionada em outubro de 2018 com intenção de avançar na pauta de mobilidade urbana e tornar a vida dos ciclistas mais segura e o trânsito do país menos caótico.

O PBB (Programa Bicicleta Brasil) foi aprovado graças a um grande trabalho coordenado pela UCB (União dos Ciclistas do Brasil). O PBB prevê aumentar a construção de ciclovias, ciclofaixas e faixas compartilhadas; a implantação de aluguéis de bicicletas a baixo custo em terminais de transporte coletivo, centros comerciais e locais de grande fluxo; a construção de bicicletários nos terminais de transporte; a instalação de paraciclos ao longo das vias e estacionamentos apropriados; e a realização de campanhas de incentivo ao uso da bicicleta. O desafio, agora, é regulá-lo para que suas medidas sejam postas em prática.

"Lançamos o Manual de Incidência Legislativa em outubro e realizamos a "1ª oficina do Programa Bicicleta Brasil" para iniciar a elaboração da primeira Estratégia Nacional pela Bicicleta. A oficina reuniu representantes da sociedade civil, governo, academia e iniciativa privada em Brasília, em outubro. Nos próximos 12 meses estaremos trabalhando na construção da estratégia", afirma Ana Carboni, de Niterói (RJ), que faz parte do Bike Anjo e assume nesta semana a presidência da UCB.

A Bike Anjo é um projeto que reúne 7.500 voluntários em mais de 770 cidades em 36 países. A proposta é ensinar adultos e crianças a pedalar, além de conectar voluntários para acompanhar ciclistas iniciantes e reticentes em seus trajetos pelas cidades. A organização assina, junto a UCB, o Acordo de Cooperação Técnica (ACT) com a Secretaria Nacional de Mobilidade.

O Programa Bicicleta Brasil, coordenado pela UCB (União dos Ciclistas do Brasil), prevê aumentar a construção de ciclovias no país e a realização de campanhas de promoção da bicicleta - Divulgação
O Programa Bicicleta Brasil, coordenado pela UCB (União dos Ciclistas do Brasil), prevê aumentar a construção de ciclovias no país e a realização de campanhas de promoção da bicicleta
Imagem: Divulgação

Empreendedorismo de quebrada

Rocinha (RJ), Rio das Pedras (RJ), Heliópolis (SP), Paraisópolis (SP), Cidade de Deus (AM), Baixadas da Condor (PA), Baixadas da Estrada Nova Jurunas (PA), Casa Amarela (PE), Coroadinho (MA) e Sol Nascente (DF). Dez favelas, sete estados, três regiões do país. Sim, dez favelas, mas não são quaisquer favelas. São as comunidades mais ricas do país, que agora estão unidas no G10 Favelas.

O G10 foi fundado no Slum Summit, evento realizado em novembro deste ano, lotando os 720 lugares do Ginásio de Paraisópolis. A ideia da fundação do grupo surgiu de um estudo realizado pela Outdoor Social, em 2018, que afirmava que as 10 comunidades, juntas, teriam um potencial de consumo, em 2019, de R$ 7,7 bilhões.

Em parceria com o Canal Transformadores e o eSolidar, o G10 Favelas anunciou a criação do Fundo para Desenvolvimento do Empreendedorismo de Impacto Social e Negócios sediados em Favelas e para o Auxílio de pessoas em situação de Alta Vulnerabilidade, que, segundo Daniel Cavaretti, fundador do G10 e do Canal Transformadores, "pretende captar recursos, prioritariamente na Europa e nos Estados Unidos, por meio de uma ferramenta que utiliza a tecnologia blockchain, com o intuito de promover o empreendedorismo e o desenvolvimento das Favelas Brasileiras". A meta do fundo é levantar R$ 2 milhões.

Um dos principais líderes do G10 Favelas é Gilson Rodrigues, presidente da União de Moradores de Paraisópolis, que tem participado de reuniões com representantes do governo do Estado de São Paulo e da Prefeitura da cidade para pensar ações que evitem cenas como o Massacre de Paraisópolis, que vitimou nove jovens da comunidade no dia 1º de dezembro. "Essas iniciativas buscam desenvolver essas regiões urbanas para que situações como as do último sábado [Massacre de Paraisópolis] não voltem a ocorrer", diz Daniel Cavaretti.

Ecoa