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Professores contam como é o ensino em uma aldeia indígena no Pantanal

Crianças dançam durante ação social promovida por empresa na aldeia Passarinho - Marcos Camargo/Jeep Brasil
Crianças dançam durante ação social promovida por empresa na aldeia Passarinho Imagem: Marcos Camargo/Jeep Brasil

Paula Calçade

De Ecoa, em Miranda (MS)

13/12/2019 04h00

O município de Miranda, a 200 km de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, concentra quase 1% da população indígena no Brasil. A cidade tem 6.475 indígenas entre seus moradores, de um total de 896.917 em todo o país, segundo o último Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O estado de MS, no entanto, ostenta o ranking de segundo lugar em número de mortes de indígenas no país, com 38 homicídios em 2018. Além da violência, a perda da cultura e a da língua materna são obstáculos vividos em diversas aldeias.

Para enfrentar essa realidade, os povos indígenas têm direito a uma educação escolar específica, intercultural e bilíngue, conforme define a legislação nacional na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Mas como essa educação funciona na prática?

Três professores do Pantanal sul mato-grossense contam como conciliam o ensino tradicional à recuperação histórica de seus povos na escola indígena Polo Pilad Rebuá, na aldeia Passarinho, em Miranda. No dia a dia, eles aplicam atividades que estimulam o conhecimento de figuras indígenas históricas, a expressão artística tradicional da aldeia e a alfabetização na língua terana.

Jucira de Almeida, professora de História

"Estudei o ensino fundamental e médio nessa escola indígena. Em 2008, passei no vestibular da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul no curso de Letras e, no ano de 2015, fui selecionada para cursar a Licenciatura Intercultural Indígena na área de Linguagem e Educação Intercultural na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, e concluí o curso em abril deste ano.

Sempre quis retribuir de alguma forma tudo o que a minha comunidade me deu. Sei que podemos conquistar espaços fora da aldeia, além de ocupar os lugares dentro da nossa comunidade, porque apenas nós conhecemos as nossas particularidades culturais.

Nas aulas de História, busco passar pela presença dos indígenas na formação do Brasil. Houve a escravidão do trabalho e muitos morreram durante conflitos e contraindo doenças, mas quero quebrar estereótipos, revelando que diferentes povos lutaram para não perder território, língua e cultura.

Um exemplo de atividade que aplicamos é a semana de palestras com os anciãos da aldeia, que são os detentores das nossas histórias e saberes tradicionais, como as plantas medicinais. Quero seguir fortalecendo nossa identidade cultural e reviver a memória de nossos antepassados na escola."

Professora Jucira de Almeida, de história, ao lado do professor de artes Whilan Albino - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Professora Jucira de Almeida, de história, ao lado do professor de artes Whilan Albino
Imagem: Arquivo Pessoal

Whilan Albino, professor de Artes

"Me formei em Campo Grande e, hoje, sou professor onde sempre estudei. Tenho muito orgulho! A nossa missão é transmitir os saberes indígenas e também garantir a aprendizagem universal, que está na Base Nacional Comum Curricular. Para resgatar a nossa cultura, estão inseridos no currículo a língua, a dança, a pintura e apresentações culturais, como a dança do bate pau (dança dos homens), a dança da ema (dança das mulheres) e o grafismo (pintura corporal), tradicionais da aldeia Passarinho.

Ao longo do ano letivo, também realizamos atividades com recursos naturais presentes aqui, como sementes, palhas e penas para confecção de brincos, colares, pulseiras e cocar."

Edemir Pires, professor de Língua Terana

Edemir Pires, professor de Língua Terana - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Edemir Pires, professor de Língua Terana
Imagem: Arquivo Pessoal

"Sou professor na escola há 12 anos e falo terana, nossa língua materna. Ministro aulas de alfabetização e ajudei, junto a outras 15 aldeias, a aprovar na Secretaria de Educação nosso livro das aulas de oralidade e escrita, que acontecem duas vezes por semana em todas as turmas. Acredito que a língua fortalece a identidade de um povo.

Também sou professor de alfabetização dos pais dos alunos e de jovens e adultos no geral, porque muitos nunca aprenderam a nossa língua. Um dos aspectos a que podemos atribuir essa perda foi a proximidade com a cidade e a imposição do português para se comunicarem em várias ocasiões, como trabalhar e vender mercadorias, e até mesmo pelo preconceito.

Coleção de literatura terana - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Coleção de literatura terana
Imagem: Arquivo pessoal
Mas hoje a gestão da escola está engajada para mudar esse cenário. Já temos uma coleção de livros de literatura em terana, produzidos por professores indígenas, com contos e personagens de nossa aldeia e de outros falantes da língua. É um ganho muito grande para fortalecer e resgatar nossa cultura."