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Há 30 anos, ele lota uma carreta e percorre 4,6 mil km levando doações

Deusivaldo Rosa dos Santos percorre cerca de 4.600 km entregando doações - Divulgação/Amigos do Jequiti
Deusivaldo Rosa dos Santos percorre cerca de 4.600 km entregando doações Imagem: Divulgação/Amigos do Jequiti

Elcio Padovez

De Ecoa

11/12/2019 04h00

Todo ano, o empresário Deusivaldo Rosa dos Santos, 60, pega a estrada na época do Natal para cumprir uma missão que escolheu para si. Morador de Olímpia, no interior de São Paulo, Deusi, como é conhecido, roda cerca de 4.600 km e cruza o Vale do Jequitinhonha, localizado entre os estados de Minas Gerais e Bahia, para levar doações arrecadadas ao longo do ano. São cestas básicas, roupas, brinquedos e eletrodomésticos que são esperados ansiosamente por famílias de uma das regiões mais empobrecidas do Brasil.

Pelo caminho, Deusi já presenciou cenas difíceis, como a secura constante da terra, miséria, proliferação de doenças como a de Chagas, cidades sem esgoto e até pessoas que viviam alojadas em uma vala.

A iniciativa, apelidada de Amigos do Jequiti, acontece há 30 anos. O ano de 1989 foi o primeiro em que Deusi, junto de um primo, lotou um caminhão baú de doações e viajou por estradas de terra para fazer as entregas. A relação dele com o Vale do Jequitinhonha, no entanto, é ainda mais antiga. "Eu nasci em Águas Vermelhas, no norte de Minas Gerais, e, com pouco tempo de vida, meus pais se mudaram para Brumado, na Bahia, onde passamos fome e necessidades. Quando eu tinha de oito para nove anos, vim com eles para Olímpia para buscarmos uma vida melhor", relembra.

Crianças recebem brinquedos do projeto Amigos do Jequiti nos anos 90 - Arquivo Pessoal
Crianças recebem brinquedos do projeto Amigos do Jequiti nos anos 90
Imagem: Arquivo Pessoal

Antes de conseguir ter um negócio próprio — uma loja de móveis e uma tapeçaria — ele trabalhou como vendedor de laranjas, carpinteiro e vários outros bicos no interior de São Paulo. Até o fim dos anos 1980, Deusi quase não pensava na região onde passou parte da infância, até que, em uma noite, ao assistir ao programa "Comando da Madrugada", apresentado pelo jornalista Goulart de Andrade na TV Bandeirantes, as imagens de miséria e falta de esperança no Vale do Jequitinhonha o revoltaram. Olhou para a ex-esposa Vera, chorou e decidiu: precisava fazer alguma coisa por aqueles irmãos.

Deusi durante a entrega de doações - Elcio Padovez
Deusi durante a entrega de doações
Imagem: Elcio Padovez
"O que eu faço é de coração e preciso da ajuda de muita gente para poder juntar as doações. Não tem caráter político e nem quero que o projeto tenha esse fim. Este ano, espero ultrapassar as 54 toneladas que distribuí em 2018. E sempre existe a preocupação de juntar uma turma para ir comigo. Para esta viagem, que começa no próximo dia 18, tenho garantidos um caminhão e uma carreta para levar as doações. Espero ir com mais três pessoas e está bom assim. Menos gente com mais vontade é melhor do que muita gente que não está afim."

E Deusi é figura certa em todas as viagens, independentemente dos problemas. Pai de três filhos (Naiara, 39, Samira, 37, e Rodrigo, 29), ele passou somente uma vez o Natal com Rodrigo, o caçula, quando os dois viajaram à região. Em março de 2016, Deusi sofreu um grave acidente de carro e teve traumatismo craniano. Além de ter sobrevivido, não apresentou sequelas e isso só aumentou sua fé. "Deus foi muito generoso comigo e me motiva a seguir em frente. O que me faz ir lá não tem uma só explicação, mas esta força divina está entre uma delas", acredita.

Ele chegou, é Natal

A cada viagem que o empresário faz ao Jequitinhonha, Deusi costuma parar nos mesmos lugares. Entre as muitas paradas pelas 25 cidades, mais vilarejos e distritos que cruza, uma é mais do que obrigatória. Na divisa dos municípios de Itinga e Itaobim, o som da parada do caminhão faz uma voz anunciar sua chegada. Lá do alto do barranco, dona Donira grita: "Deusivaldo chegou, é Deusi vindo!".

Mesmo cega, octogenária e com o rosto tomado por um câncer, Dona Donira sabe quando vai receber o amigo em casa e aguarda o ano inteiro pela visita do seu "Papai Noel".

Caminhão de doações do projeto Amigos do Jequiti - Elcio Padovez
Caminhão de doações do projeto Amigos do Jequiti
Imagem: Elcio Padovez
"A Dona Donira foi uma das primeiras pessoas que ajudei. Em 1989, dei uma boneca que ela nunca esqueceu e possui até hoje. Também instalei as calhas na casa para recolher água da chuva e um latão de 200 litros. E não só ela, mas as outras pessoas esperam que eu passe na época do Natal. Se eu faço um caminho diferente ou passo antes da época, eles reclamam no ano seguinte da ausência. Não posso falhar e penso em cada pessoa que ganhou uma roupa, na alegria dela. Eu não vou lá doar nada. Vou é receber carinho e gratidão. Esta viagem todos os anos faz parte da minha. Este é o meu verdadeiro Natal".

Deusivaldo Rosa dos Santos está com 60 anos e não pensa em parar tão cedo sua missão e de plantar mais sementes de solidariedade. Anualmente, o projeto ajuda cerca de 1.200 famílias. Essa estimativa, feita por Deusi, leva em conta a doação de cestas básicas que cada família recebe.

Como ajudar o Amigos do Jequiti

O projeto aceita doações durante todo o ano. Podem ser doadas cestas básicas, roupas, brinquedos, eletrodomésticos, sombrinhas e chinelos. Os pontos físicos de doação em Olímpia (SP) ficam na Rua General Osório, número 38. Deusi também recebe doações por Correios ou entregas. Basta ligar para o número (17) 99712-9924 para combinar.

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