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Um acidente grave fez com que ele se tornasse voluntário em hospital do SUS

Hugo Prazeres virou voluntário após sofrer acidente  - Arquivo Pessoal
Hugo Prazeres virou voluntário após sofrer acidente Imagem: Arquivo Pessoal

Antoniele Luciano

de Ecoa

05/12/2019 04h00

Sobreviver a um acidente que tinha tudo para ser fatal mudou a percepção do curitibano Hugo Prazeres, de 45 anos, sobre a própria vida e o levou a se dedicar a uma causa que até então passava despercebida por ele, o voluntariado.

Neste Dia Internacional do Voluntário (5), Hugo é um dos mais de 7 milhões de brasileiros que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), doam um pouco de seu tempo para o trabalho em entidades, organizações não-governamentais (ONGs) e outras instituições. A escolha do vendedor foi o hospital onde ele permaneceu internado por 28 dias.

Foi ao sair de moto do colégio onde fazia o curso técnico em edificações que Hugo foi atingido por um carro a 70 quilômetros por hora. O motorista usava o celular no momento do acidente, ocorrido em novembro de 2015. "Só me lembro de uma luz alta vindo na minha direção. Eu tive fratura exposta na perna direita. Fiquei 28 dias internado, usei fixador na perna por 30 meses e fiz várias cirurgias, umas oito", recorda.

Os dias na cama do Hospital do Trabalhador, referência em traumatologia, em Curitiba (PR), o fizeram reparar que havia por perto pessoas que não eram médicas ou enfermeiras mas que se preocupavam com os pacientes tanto quanto os profissionais. Era gente ajudando na hora das refeições, lendo uma história ou apenas fazendo companhia em um daqueles dias que demoram para passar.

Quando se deu conta, Hugo já tinha sido inspirado por voluntários antigos. "Naquela época, já havia pessoas fazendo coisas semelhantes ao que faço hoje. Você não tem ideia do que é pegar um copo de água para alguém que está com sede, atender alguém que precisa de um 'olá' seu ou de uma palavra de consolo", diz.

No Hospital do Trabalhador, o trabalho é de até 18 horas por semana - Venilton Küchler/SESA
No Hospital do Trabalhador, o trabalho é de até 18 horas por semana
Imagem: Venilton Küchler/SESA
Foram quase quatro anos, entre diversos tratamentos, até que o curitibano conseguisse se juntar ao time de voluntariado do hospital. Hoje, mesmo sem estar 100% recuperado -- ele não consegue esticar completamente a perna fraturada no acidente --, faz parte da equipe que presta apoio no Hospital do Trabalhador. O grupo se reveza em atividades como a distribuição do chá para pacientes e acompanhantes, a marcação dos nomes de quem está internado e precisa cortar o cabelo ou fazer a barba, e a entrega de livros. O trabalho é de até 18 horas por semana.

"Sempre tem um pedido especial que a gente procura fazer. Sei de muitas coisas que passei, que vi, e procuro falar com as pessoas, tranquilizá-las. Que elas tenham fé porque aquilo vai passar, é um momento de dor que vão superar", destaca o voluntário.

Retribuição

O Hospital do Trabalhador, em Curitiba, funciona exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com atendimento emergencial 24 horas por dia no Pronto-Socorro e na assistência de "porta aberta". O complexo tem 222 leitos para internações e um corpo profissional de mais de 1,5 mil colaboradores. Além de trauma e emergência, atende nas áreas da saúde do trabalhador, materno-infantil e infectologia. Cerca de 200 voluntários atuam na instituição — o programa existe há 20 anos.

Segundo o diretor geral da unidade, Geci Labres de Souza Junior, é comum que ex-pacientes ou familiares de pessoas atendidas ali se sensibilizem e queiram retribuir de alguma maneira, procurando o voluntariado. "Eles procuram atender de forma muito carinhosa em várias atividades que demandam ajuda direta, como alimentar pacientes na boca, levá-los para exames. Se dão um chá, voltam depois para perguntar se estava bom. As pessoas contam que nem em hospital particular veem isso", observa.

Grupo de voluntários do Hospital do Trabalhador  - Divulgação/Hospital do Trabalhador
Grupo de voluntários do Hospital do Trabalhador
Imagem: Divulgação/Hospital do Trabalhador
Todos os voluntários que se inscrevem para atuar no hospital passam por um curso de capacitação e são designados para áreas específicas, de acordo com o perfil deles. O período mínimo de programa é de três meses. As atividades técnicas ficam a cargo de profissionais contratados. "É um trabalho de apoio social, de oferecer coisas que, para o paciente, são essenciais em um bom hospital. O tempo, para quem está internado, não passa, e os voluntários ocupam bem esse espaço. Eles falam emocionalmente, não tecnicamente", assinala o gestor.

Para Prazeres, ex-paciente, o voluntariado nesse ambiente é uma oportunidade de fazer a diferença. Ele reconhece que só olhou para a questão depois do acidente. "Mas, hoje, a gente vê e aprende que não é preciso passar pelo que passei para poder fazer algo e ajudar. Qualquer um de nós tem esse dom dentro de si. É só querer colocar pra fora."

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