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Brasil ganha prêmio de pior atuação na COP25

Fóssil do Dia - Pedro Borges
Fóssil do Dia Imagem: Pedro Borges

Pedro Borges

de Ecoa, em Madri

04/12/2019 04h00

O humor pode ser uma potente arma de denúncia e cobrança por ação. Pois foi com humor — cheio de pitadas ácidas de sarcasmo e ironia — que a CAN (Climate Action Network, ou Rede de Ação pelo Clima, em tradução livre para o português) concedeu ao Brasil nesta terça (03) o prêmio "Fóssil do Dia" (ou "The Fossil of the Day" awards), entregue aos países que têm a pior atuação na COP. Os demais "homenageados" foram Austrália e Japão.

"O prêmio é um dos mecanismos que temos para denunciar as coisas ruins que os países estão fazendo", disse a Ecoa Kevin Buckland, um dos organizadores da ação. "Hoje, no primeiro dia da COP, o Brasil é um exemplo fora de série do que nós não deveríamos estar fazendo, já que está incendiando a Amazônia e nós não estamos vendo compensação alguma. A Amazônia protege todo o planeta, não cabe a um país ou a uma pessoa decidir que ela possa ser incendiada."

Os brasileiros que "receberam" o prêmio utilizaram um véu preto sobre o rosto, como forma de demonstrar vergonha pela "conquista". O ato de cobrir o rosto também é uma forma de proteger a identidade dos manifestantes, que temem represálias do governo de Jair Bolsonaro.

Abaixo um trecho da carta, em tradução livre para o português, escrita pelos organizadores da ação.

"Imagine a seguinte cena: um homem com uma arma invade um banco. Apontando para o gerente, ele diz que está em profundo débito e pede que seus limites de crédito sejam aumentados porque ele costumava ser um bom pagador antes de ter aquela conta bancária. A cena está acontecendo agora mesmo na COP25. O gerente é a comunidade internacional. O assaltante desesperado é o Brasil, que veio a Madri pedir para ser pago por queimar a floresta amazônica.

Sim, você leu direito: Brasil, o campeão do clima que cortou suas emissões por desflorestamento em 80% no passado. Brasil do samba, das caipirinhas, dos diplomatas esclarecidos que firmaram difíceis acordos nas COPs passadas. Sob o governo Jair Bolsonaro, de extrema-direita e amante de Trump, o Brasil está dizendo ao mundo aqui em Madri que não vai negociar sem que seja pago por jogar mais CO2 na atmosfera. Essa, hum, criativa tática de negociação rende ao Brasil o primeiro Fóssil do dia da COP25.

O principal enviado do presidente Bolsonaro a Madri é o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, que sem dúvida atualiza a definição de 'honesto'. Salles foi condenado por fraude ambiental antes de assumir o cargo. Ele mentiu à mídia sobre ter mestrado em Yale. Ele foi condenado por sugerir que o Greenpeace estava por trás do vazamento massivo de óleo na costa brasileira ao qual ele falhou em responder. E a cereja do bolo: ele é um "negador" do clima, que ganhou fama ao dizer que a COP25 era nada mais do que férias de luxo a servidores públicos para debater a situação do mundo daqui a 500 anos. Quem pode imaginar o que então o senhor está fazendo aqui, ministro? O senhor viajou a trabalho? Que tal voltar daqui a 500 anos?

Em apenas 11 meses, Salles e seu chefe desmantelaram a gestão do meio ambiente, interromperam a ação de agências de proteção e congelaram o maior Programa das Nações Unidas para Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal, o celebrado Fundo Amazônia.

Os resultados têm sido uma piora terrível da violência contra povos indígenas, um surgimento sem precedentes da exploração madeireira ilegal e um aumento de 30% do desmatamento neste ano — o mais alto da década. Como consequência, o Brasil certamente vai perder a meta de redução do desmatamento e seu total de rastreamento do NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada). Vários estudos indicam que as taxas de desmatamento no Brasil, em um cenário de governo fraco, podem triplicar, com emissões acima de 1,3 bilhão de toneladas na Amazônia apenas. Isso é não apenas um golpe às metas assumidas pelo Brasil em Paris, mas também para a meta de 1,5 grau.

Tudo o que o Sr. Salles tem a dizer sobre isso é 'acreditem em mim'. Nós achamos que não."