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No Dia de Doar, voluntários contam o que os move

O Dia de Doar é um movimento que acontece em 3 de dezembro, depois da Black Friday - iStock
O Dia de Doar é um movimento que acontece em 3 de dezembro, depois da Black Friday Imagem: iStock

Antoniele Luciano

de Ecoa

03/12/2019 04h00

Pelo sétimo ano consecutivo, brasileiros iniciam o mês de dezembro celebrando, nesta terça-feira (3), o Dia de Doar. A data, criada nos Estados Unidos em 2012, vem na sequência de três marcas importantes no calendário norte-americano — o Thanksgiving, Dia de Ação de Graças, a Black Friday e a Cyber Monday, voltada às compras pela internet.

No Brasil, a maior parte das campanhas do Dia de Doar é encabeçada por organizações não-governamentais e outras instituições que atuam no terceiro setor. O lema é o "faça você mesmo", e as doações podem ocorrer de diferentes formas. Quem já fez do voluntariado um hábito conta por que esse tipo de ação costuma ser tão gratificante.

Eneile Guimarães, 32, contadora

Eneile Guimarães, 32 - Arquivo Pessoal
Eneile Guimarães, 32
Imagem: Arquivo Pessoal

"Eu comecei a fazer voluntariado há muitos anos atrás, em abrigos de crianças, depois com idosos e também em hospitais de especialidade oncológica. Já fui para proporcionar lanches especiais, festas, entregar presentes, fazer teatros, brincar, cantar, ler com eles, ou, simplesmente, ouvi-los. Em geral, os idosos se sentem mais acolhidos quando os ouvimos do que quando falamos. Hoje, atuo em diversas atividades desse tipo.

É um trabalho recompensador. Acredito que devemos devolver à sociedade o que recebemos ou o que gostaríamos de ter recebido, ainda que seja esperança, amor, um abraço ou um sorriso. Na verdade, não é o preço do que levamos ou fazemos (nosso tempo), mas o valor que nos move. Penso que o voluntário sai com uma visão da vida diferente da de que quando entrou. Saímos mais gratos e felizes por termos tocado a vida de outra pessoa."

Eneile atua nos projetos Alcance Social, da Comunidade Alcance, e Solutioneers, da empresa Aker Solutions, em Curitiba/PR.

Heloísa Ceni, 35 anos, consultora de negócios

Heloísa Ceni, 35 anos - Arquivo Pessoal
Heloísa Ceni, 35 anos
Imagem: Arquivo Pessoal
"Quando saí do meu último emprego, antes de iniciar a procura por outro, decidi dar um tempo de alguns meses. Eu resolvi me dedicar uns quatro meses apenas ao trabalho voluntário. Hoje, sou a gestora de um bazar solidário voltado ao público A. Nossa meta é arrecadar dinheiro suficiente para tirar Acridas, instituição onde atuo, do vermelho.

Eu adoro falar sobre a gratidão de estar no terceiro setor porque é o que fecha toda a história. A Acridas é uma ONG de 35 anos que recebe crianças que sofreram violência doméstica - 75% vítimas de violência sexual. É um trabalho muito gratificante porque convivemos com o melhor e o pior da sociedade. O pior, porque você sabe de muitas crianças que estão sofrendo o pior tipo de violência, essa é nossa rotina. E o melhor é porque esse mesmo local traz pessoas como os voluntários e colaboradores que estão lá, que não têm culpa alguma sobre esse fato, mas que se doam. Isso quebra o ciclo de violência.

Mais de 2 mil crianças foram atendidas nesses últimos 35 anos. É o que enche a alma e nutre qualquer voluntário. Vemos na Acridas também a questão do perdão, as crianças dando outra chance para a vida, outra chance para o amor. É por isso que é tão gratificante. Isso, de alguma maneira, acelera a nossa evolução no mundo."

Heloísa atua como gestora do projeto Bazar Solidário Amor Chic, da Associação Cristã de Assistência Social (ACRIDAS), de Curitiba/PR.

Bárbara Vanzi, 30 anos, fotógrafa

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal
"Apesar de o Instituto Aurora existir oficialmente desde 2017, participo de suas ações desde 2014, quando ainda era um grupo informal. Comecei sendo voluntária como fotógrafa, que é a profissão em que sempre atuei. Minha ideia (que hoje vejo o quanto era ingênua) era ajudar as pessoas, através de algo que sabia fazer.

Com o passar dos anos, passei por muitas outras áreas durante as ações e hoje o que mais faço é conduzir rodas de conversa com adolescentes. Assim, acabei percebendo que o voluntariado é infinitamente mais do que isso. Ele é sempre uma via de mão dupla - você recebe o mesmo tanto que (se) doa. Nesse tempo todo, eu aprendi muito sobre realidades que nem imaginava que existiam e, arrisco dizer, aprendi principalmente sobre eu mesma.

Além de descobrir habilidades que não imaginava que tinha e de desenvolver outras que jamais teria, frequentemente me pego revendo minhas verdades, valores, princípios e as prioridades da minha vida. Ser voluntário é um eterno processo de desconstrução e de reconstrução de si mesmo e, consequentemente, do mundo.

Bárbara é voluntária no Instituto Aurora, de Curitiba/PR. A entidade atua com Educação em Direitos Humanos.

Mônica Candéo Iurk, 42 anos, jornalista

Mônica Candéo Iurk, 42 anos - Arquivo Pessoal
Mônica Candéo Iurk, 42 anos
Imagem: Arquivo Pessoal
"Às vezes, a gente pensa que ser voluntário é trabalhar, de alguma maneira, para alguém. Mas o que acontece é que acabamos trabalhando para nós mesmos. O bem maior que fazemos é para nós mesmos. O trabalho voluntário é uma atividade que engrandece quem recebe e quem faz realmente o trabalho. Eu, por exemplo, ajudo na cozinha do centro espírita onde trabalho, aos sábados. Há vários grupos que se revezam e uma vez por mês, um grupo de umas 12 pessoas prepara um almoço para 60 famílias da comunidade. Elas recebem a doação do alimento e levam para almoçar em casa.

Durante todo esse tempo que estamos na preparação, fazemos uma troca de experiência, conversamos e pensamos nessas pessoas que vão receber as refeições. Todos os voluntários vão de muita boa vontade, de coração aberto.

Assim, na essência, além de ser gratificante, é uma felicidade que não dá para mensurar. Além do que o voluntariado nos ajuda a colocar em reflexão alguns temas, algumas percepções que temos. No momento da entrega das doações, por exemplo, vemos a importância que as famílias dão a isso, de receber esse alimento, e a gente acaba se questionando também. Nos vemos pensando porque motivo existem tantas diferenças e o podemos fazer para reduzir isso e tentar compensar essa sociedade desigual que temos."

Mônica é voluntária no Centro Espírita Nosso Lar, de Ponta Grossa/PR.

Ecoa