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Redação do Enem: a cineasta Laís Bodanzky faz a prova

A cineasta Laís Bodanzky - Greg Salibian/Folhapress
A cineasta Laís Bodanzky Imagem: Greg Salibian/Folhapress

da redação

06/11/2019 04h00

No último domingo (03), as mais de 5 milhões de pessoas que prestaram a primeira etapa da prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) tiveram que escrever uma redação com o tema "democratização do acesso ao cinema". Convidamos a cineasta Laís Bodanzky para escrever sobre o assunto. No início do ano, ela assumiu a presidência da Spcine, empresa de fomento ao audiovisual na capital de São Paulo.

"O cinema é um instrumento de cidadania, de inclusão social", diz a cineasta que afirma só ter aceitado o convite da Secretaria Municipal de Cultura pela oportunidade de dar continuidade a uma política pública de inclusão, o Circuito Spcine. "São 20 salas de cinema, a maior parte delas com entrada gratuita, com a mesma qualidade daquelas instaladas em shopping centers."

Confira a seguir o texto de Laís sobre o tema do Enem:

"Quando falamos em democratização do acesso ao cinema, temos que pensar em três diferentes frentes. A mais explícita delas é o acesso às salas de exibição. Mas democratizar o cinema também diz respeito a garantir a variedade de conteúdos disponíveis e a diversidade de narrativas, ou seja, das pessoas que produzem os filmes. E temos problemas em todas elas.

Dos 5.570 municípios brasileiros, apenas 416 contam com pelo menos uma sala de exibição. E só 33 desses municípios têm 20 salas ou mais. É muito pouco, sobretudo se levarmos em consideração a importância que o audiovisual tem em nossa sociedade. Histórias contadas por imagens e som, e voz, fazem parte de nossa cultura desde a idade das cavernas. E vêm tomando cada vez mais espaço, sobretudo graças ao avanço da tecnologia.

Dominar essa linguagem, tanto para consumir os conteúdos, quanto para produzi-los, é fundamental para uma sociedade democrática e inclusiva. Ter acesso ao cinema é, de certa forma, ter uma participação social mais sólida. Vivi isso na prática durante os 15 anos em que participei do Cine Tela Brasil, com Luiz Bolognesi. Para o projeto, fazíamos sessões gratuitas seguidas por debates e oficinas em praças, escolas, comunidades indígenas e outros cantos do país.

Nossa iniciativa foi inspirada no exemplo francês, que leva o estudo do audiovisual para a escola. Lá, existe uma disciplina em que as crianças têm a oportunidade de aprender a ler os conteúdos audiovisuais enquanto arte. Nas atividades, elas percebem que não há compreensão única, que uma história pode ter diversas interpretações e que nem sempre há certo e errado. E é preciso respeitar opiniões e leituras diferentes.

O cinema é um poderoso instrumento de cidadania, portanto. O que vivemos no cinema ou com o cinema pode ser reproduzido em outras plataformas, é um exercício de humanidade também. Tem aquela expressão já batida, mas muito verdadeira que diz que ele é uma janela para o mundo. E é mesmo! O cinema é a indústria dos sonhos.

Assistindo a um filme podemos ser transportados a outro país, a outra época. Temos a oportunidade de viver experiências a partir do ponto de vista de pessoas que não têm nada a ver com a gente: uma criança, um homem estrangeiro? Somos levados a realidades que não são as nossas. E isso é muito rico! Não à toa é comum que alguém diga: "Aquele filme mudou minha vida". O cinema tem esse poder, mesmo.

Daí a importância do acesso a ele. E, aqui, entra também a liberdade de expressão. Acredito que esse tenha sido o tema escolhido para a redação do Enem porque, nos últimos meses, o cinema, a arte e a cultura vêm sendo atacadas.

Um edital chegou a ser cancelado porque tinha temática LGBT — algo que foi invalidado porque o Ministério Público considerou o ato contrário à liberdade de expressão. O filme "Bruna Surfistinha" foi atacado pelo presidente e este ano o governo não assinou a "Cota de Tela", que garante espaço para produções brasileiras nas salas de exibição do país.

Por causa disso, filmes aos quais os brasileiros e as brasileiras querem assistir, como "De pernas pro ar 3" e "Turma da Mônica: Laços", recordistas de público, simplesmente foram arrancados da programação para que títulos estrangeiros entrassem no lugar. Nada contra as produções de outros países, mas nós também queremos nos ver nas telas. Havia pessoas com ingressos comprados que não puderam assistir aos filmes!

Por tudo isso, o tema da redação do Enem não poderia ser mais oportuno. Garantir o acesso ao cinema é garantir a cidadania, a liberdade de expressão, de pensamento. São todos direitos caríssimos para uma sociedade democrática e todos eles estão sob ataque no Brasil de hoje. É preciso falar sobre isso."

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