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Mãe de Tatá Werneck criou ONG inclusiva: "Disseram que Down era como Aids"

Cláudia Werneck criou a ONG Escola de Gente há quase 20 anos para promover a inclusão de pessoas com deficiência - Felipe O"Neill/Divulgação
Cláudia Werneck criou a ONG Escola de Gente há quase 20 anos para promover a inclusão de pessoas com deficiência Imagem: Felipe O'Neill/Divulgação

Anderson Baltar

de Ecoa, no Rio de Janeiro (RJ)

05/11/2019 04h00

Para muitos, ela é a "vovó da bebê do ano". Mas quem conhece o trabalho de Cláudia Werneck, 62, sabe que a mãe da atriz Tatá Werneck e avó da pequena Clara Maria Werneck Vitti, nascida em 23 de outubro, tem uma atuação intensa ligada à educação e à inclusão.

Cláudia é a criadora da ONG Escola de Gente, organização localizada no Rio de Janeiro que atua com capacitação de jovens para a comunicação com pessoas com deficiência e apoio a políticas públicas visando à inclusão. "Trabalho com participação democrática. A pessoa existe e tem direito a uma vida com as mesmas oportunidades que as outras. Mas não há como fazer inclusão sem comunicação. Não admito nenhuma forma de discriminação", afirma.

Em 2020, a ONG completará 18 anos de atividade. O envolvimento de Cláudia com a questão da deficiência, no entanto, tem mais de 28 anos.

Jornalista, Cláudia foi tocada inicialmente em 1991, quando era chefe de reportagem da revista Pais e Filhos. Por pedido do filho mais velho, Diego, foi conhecer o irmão recém-nascido de um amigo. O bebê tinha Síndrome de Down.

Cláudia Werneck é jornalista e começou a estudar sobre inclusão em 1991 - Felipe O'Neill/Divulgação
Cláudia Werneck é jornalista e começou a estudar sobre inclusão em 1991
Imagem: Felipe O'Neill/Divulgação

"Era uma família de classe média-alta que morava na Barra da Tijuca. Quando a mãe do menino soube onde eu trabalhava, me pegou pelo braço e pediu ajuda. Não existia internet nem livros sobre o tema no Brasil. Naquela noite, eu dormi de olho aberto, mesmo sem ter nenhuma criança com deficiência na família. Sempre tive o desejo de ter o jornalismo como função social e a encontrei naquele momento", relembra.

Do apelo, surgiu uma matéria, que foi publicada em agosto de 1991 e ganhou prêmio da Associação Médica Brasileira. No processo de apuração, ao conversar com adultos com Síndrome de Down, Cláudia ouviu uma frase que a marcou:

Me disseram que Down era como a Aids. Querer falar e não conseguir mata. Isso me destruiu como profissional. Até então me achava a superjornalista e, naquele dia, vi que não desempenhava minha função da forma correta."

Cláudia pediu demissão da revista e passou a incessantemente pesquisar sobre o tema. Em 1992, lançou o primeiro livro brasileiro sobre a Síndrome de Down, "Muito prazer, eu existo". Recebeu e respondeu, a mão, mais de 3 mil cartas que chegaram. E passou a ser convidada para programas de entrevistas, com direito a ter a apresentadora Xuxa como uma de suas maiores divulgadores e incentivadoras. Outros livros vieram, e a jornalista passou a rodar o Brasil e vários países para dar palestras.

"Sabe a felicidade de um jornalista quando ele descobre algo que ninguém sabe? Eu tinha descoberto que as pessoas com deficiência fazem parte da vida, da sociedade e não são invisíveis. Eu me sentia fazendo o bem, algo verdadeiramente importante, trazendo uma informação de utilidade pública. E me encontrei como jornalista", relata Cláudia Werneck, que contabiliza 14 livros publicados.

Formando jovens para a inclusão

Após se dedicar por 10 anos à escrita e às palestras, a jornalista deu uma nova guinada em sua vida, em 2002, ao fundar a Escola de Gente. Com a instituição, Cláudia deu vazão à necessidade de formar pessoas que seriam multiplicadoras do conhecimento acumulado após 10 anos de estudos e militância.

"O objetivo foi fazer uma organização que formasse jovens, que ensinasse as políticas, que atuasse no cotidiano e tivesse como estratégias a comunicação inclusiva, que trata de temas de valor humano, e a comunicação acessível, que garante todo o discurso de acessibilidade. Acreditamos que a juventude é o principal agente de transformação de uma sociedade."

A ONG Escola de Gente promove oficinas e cartilhas em escolas para estimular a inclusão por meio da comunicação - Divulgação/Escola de Gente
A ONG Escola de Gente promove oficinas e cartilhas em escolas para estimular a inclusão por meio da comunicação
Imagem: Divulgação/Escola de Gente
A essa altura, toda a família já estava envolvida com a causa. O marido, Alberto, tinha transformado sua empresa de informática na WVA Editora, especializada em livros em formatos acessíveis. Tatá, à época estudante de teatro na Unirio (Universidade do Rio de Janeiro), se engajou na Escola de Gente e criou um grupo de teatro, "Os inclusos e os sisos".

O trabalho do grupo criou uma inédita experiência de teatro inclusivo no Brasil, onde pessoas com qualquer deficiência poderiam acompanhar os espetáculos. O filho, Diego, criou um fórum de discussões na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), onde estudantes de jornalismo e direito discutiam o enfoque da imprensa sob a ótica da inclusão.

Tatá Werneck em um dos projetos promovidos pela ONG Escola de Gente (foto de arquivo) - Divulgação/Escola de Gente
Tatá Werneck em um dos projetos promovidos pela ONG Escola de Gente (foto de arquivo)
Imagem: Divulgação/Escola de Gente
Após quase 18 anos de atuação, o legado da Escola de Gente é vasto. A ONG surgiu para capacitar jovens para a comunicação inclusiva, ou seja, ensinar às pessoas como se comunicar com quem tem uma deficiência: Libras, audiodescrição, criação de conteúdos em várias plataformas para que todos os tipos de público possam ser atingidos pela mensagem. Para isso, ofereceu oficinas em escolas, criou cartilhas e fez parcerias com entidades privadas e públicas, como o Ministério Público.

Posteriormente a organização passou a fazer também programas de rádio, projetos de educação inclusiva e atuação em ações de acessibilidade, com foco na formação de políticas públicas. No momento, a Escola de Gente dá consultoria para o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sobre como fazer as eleições serem acessíveis, de forma que todo eleitor possa participar sem qualquer tipo de entrave.

A atuação na formulação de políticas públicas, aliás, é uma das vertentes que mais encantam Cláudia Werneck.

Meu desafio não é captar dinheiro para fazer projeto. E, sim, para continuar pensando, incidindo, dia a dia, nos conselhos, nas políticas, nas leis."

A jornalista destaca que a maioria dos orçamentos públicos hoje são criados sem pensar em minimizar a discriminação, e é exatamente aí que a ONG pode ajudar. "Ninguém sabe quanto custa não discriminar. Nós sabemos."

Capacitando comunidades

Uma das pessoas que tiveram a vida transformada pela Escola de Gente é Vinicius Pierre, 30 anos. Morador da Vila Kennedy, comunidade da Zona Oeste carioca marcada pela violência e falta de oportunidades, ele tinha 22 anos quando conheceu o trabalho da ONG. "Era jogador de futebol e tive a carreira abreviada por contusões. Sempre me preocupei com o social e vi, numa capacitação promovida pela Cláudia na minha comunidade, uma grande chance de mudar a minha vida e a das pessoas", relata.

Vinicius Pierre e Cláudia Werneck - Arquivo pessoal
Vinicius Pierre e Cláudia Werneck
Imagem: Arquivo pessoal

Vinicius logo se tornou um "capacitador" e militante. Fez parte do grupo de teatro de Tatá Werneck e hoje estuda jornalismo, além de ser assessor na área de inclusão no gabinete de um deputado federal. Ele afirma que a Escola de Gente deixou um legado importante em sua comunidade: "O mais importante é entendermos que as pessoas com deficiência não são coitadinhas. Elas precisam e merecem ter um espaço igualitário na sociedade".

Aplicativo para acessibilidade cultural

A mais recente iniciativa da Escola de Gente foi lançada em setembro: o aplicativo "Vem Cá". O objetivo é disponibilizar uma programação cultural com atrações que ofereçam algum tipo de acessibilidade. De forma colaborativa, os promotores podem incluir os seus eventos.

"No aplicativo, temos vários tipos de acessibilidade listadas, como a audiodescrição, rampas para cadeirantes, tradução por Libras e cartazes e cardápios em braille. Porém nosso conceito de acessibilidade é mais amplo. A gratuidade é uma importante forma de acesso", explica Cláudia. O aplicativo, disponível nas plataformas Android e IOS, já registra mais de 2 mil downloads.

Cláudia Werneck mostra o aplicativo "Vem Cá", para que o público encontre atrações culturais acessíveis - Felipe O'Neill/Divulgação
Cláudia Werneck mostra o aplicativo "Vem Cá", para que o público encontre atrações culturais acessíveis
Imagem: Felipe O'Neill/Divulgação

"Não dá para descansar"

Com cerca de 400 jovens formados em projetos presenciais, a ONG calcula que mais de 500 mil pessoas foram atingidas por suas ações, como programas de rádio, espetáculos teatrais e outras iniciativas desenvolvidas por pessoas capacitadas pela organização.

A Escola de Gente já recebeu 60 premiações, sendo três da ONU (Organizações das Nações Unidas) por conta de iniciativas consideradas como algumas das mais inovadoras do planeta: o grupo de teatro "Os inclusos e os sisos", um projeto de leitura acessível e outro de formação de agentes de acessibilidade nas favelas.

Ainda assim, Cláudia Werneck se sente com energia para novos projetos.

Não existe ativismo sem olhar para a urgência do outro. Eu tenho a pressa das famílias. Você não pode dar um passinho e achar que está abafando. Não dá para descansar. Se você fizer isso, o mundo anda para trás."

Para conhecer melhor A ONG Escola de Gente é mantida com parcerias de empresas privadas e conta com seis funcionários. O escritório fica na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro (RJ). Telefone: (21) 2483-1780. Website: www.escoladegente.org.br

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