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"Adequar-se a padrões é um erro", ensinam jovens empreendedores sociais

A Vendaval Catalisadora descobriu que investir nos próprios processos, sem seguir estruturas tradicionais, ajuda a atender melhor os clientes - Arquivo pessoal
A Vendaval Catalisadora descobriu que investir nos próprios processos, sem seguir estruturas tradicionais, ajuda a atender melhor os clientes Imagem: Arquivo pessoal

Helena Dias

de Ecoa

29/10/2019 04h00

O objetivo ia na contramão de empresas tradicionais: em vez do lucro, a meta era ajudar a reduzir as desigualdades sociais. O método, no entanto, ficava preso ao primeiro modelo, com uma estrutura hierárquica vertical. A contradição deu origem a uma das primeiras lições aprendidas pela Vendaval Catalisadora de Impacto Social, uma empresa localizada em Recife (PE) que se propõe a incentivar e fortalecer iniciativas de diminuição da desigualdade social no país.

Erro "Para nossa organização interna, buscamos nos encaixar em estruturas hierárquicas tradicionais, com referência de outras empresas."

Aprendizado "Entender que, no nosso funcionamento, o que mais se adaptava às nossas necessidades era um modelo de gestão horizontal, onde todas e todos são seus próprios chefes e as decisões são tomadas coletivamente."

Formada por sete empreendedores de 24 a 26 anos, a Vendaval também é jovem como seus fundadores. Tem apenas um ano de atuação, porém já acumula a experiência de quem encontrou, com os próprios erros, um caminho promissor como negócio social.

O início aconteceu de forma despretensiosa, por compartilharem o mesmo espaço de trabalho. De um lado, três cientistas políticos que prestavam consultoria nessa área com a Vendaval Consultoria Política; de outro, quatro estudantes de arquitetura que realizavam serviços de urbanismo e design com o Chão Ateliê. Em comum a vontade de trabalhar com projetos de impacto social. Quando perceberam que poderiam unir forças, nasceu a Vendaval Catalisadora de Impacto Social.

O sócio-fundador e cientista político Flavius Falcão explica que a empresa atua como aceleradora de iniciativas de impacto social, ajudando-as a alcançarem seus objetivos. "A Vendaval atua nos processos de captação de recursos financeiros e humanos, no fortalecimento organizacional e em serviços de comunicação", diz Flavius. O público-alvo são mobilizações comunitárias, movimentos sociais, ONGs e campanhas.

Desafios próprios

Após a união de forças, o desafio foi enxergar a própria empresa como uma iniciativa que não corresponde aos padrões tradicionais do mercado de trabalho, já que não há métodos preestabelecidos e definitivos de incentivo ao combate da desigualdade social. E a questão foi muito além da estrutura organizacional: foi preciso perder o medo de arriscar e acreditar que dava para se estabelecer profissionalmente ocupando esse nicho profissional que ainda é pouco explorado. "A tomada de consciência sobre a importância de não tentar se adaptar a padrões mudou a história da Vendaval", conta Flávio.

Erro "Tentar se adaptar aos padrões já existentes do mercado de trabalho."

Aprendizado "Adaptar as propostas da empresa às demandas do público e tomar a iniciativa de fundar uma nova forma de atuação, de acordo com o que almejávamos. Compreender que existem espaços diversos de atuação e que sempre há lugar para o novo."

Mesmo atuando com a captação de recursos financeiros para os clientes, a falta de dinheiro foi uma dificuldade enfrentada pela própria Vendaval, principalmente assim que foi criada. Os integrantes chegaram a se questionar se seria viável colocar a catalisadora em prática. Segundo Flavius, eles investiram os capitais da consultoria política e do ateliê de arquitetura na nova empresa e, a partir daí, foram equilibrando o orçamento com a chegada dos projetos. No Cadastro de Pessoa Jurídica (CNPJ) da Vendaval, o capital social está registrado no valor de R$ 25 mil.

A saída encontrada para equilibrar o orçamento foi valorizar a diversidade entre os clientes. "Ações organizadas financeiramente e que já têm os recursos muito bem determinados para investir em nossos serviços acabam custeando também o nosso trabalho para grupos que estão justamente em busca de financiamento", diz Flavius.

Erro Considerar a falta de um bom capital inicial como impeditivo para fazer a empresa funcionar.

Aprendizado Compreender a remuneração como consequência de um serviço de qualidade e distribuir melhor os custos. "Com o tempo, percebemos que a diversidade dos clientes permitia custear trabalhos sem retorno financeiro rápido com recursos de serviços que já tínhamos em caixa."

Ao todo, 20 projetos foram catalisados até o momento pela empresa, que é saudável financeiramente e usa todos os ganhos para custear a própria manutenção e remunerar as pessoas. A cientista política e sócia-fundadora da Vendaval Tereza Vasconcelos, 26, acredita que o fato de estarem no Nordeste fez a diferença para que o negócio tivesse êxito. "Os recursos ainda ficam mais no Sul e Sudeste. As pessoas, quando chegam aqui na região, ficam impressionadas com a quantidade de iniciativas de combate à desigualdade, mas a realidade é que precisam de mais suporte financeiro, e é nisso que queremos ajudar."

Diante das experiências com os clientes, o grupo também enxergou a necessidade de olhar mais para as próprias pessoas da empresa. Atualmente, os dias de segunda-feira na Vendaval são direcionados para a arteterapia em conjunto, um momento em que os trabalhos e a rotina profissional são avaliados. Os integrantes também passaram a exercer funções mais adequadas às capacidades e aos interesses de cada um.

Erro Considerar as diferentes áreas de atuação dos profissionais como um impasse para atuar conjuntamente.

Aprendizado Enxergar que as diferenças significam potencialidades. Hoje, os profissionais da empresa desempenham funções que não necessariamente estão ligadas as suas formações profissionais. Cada um fica responsável por aquilo que lhe gera mais identificação, e isso tem resultado positivo.

Passado um ano da criação da empresa, os desafios são outros. Os jovens buscam viabilizar o projeto Sustentar, que tem foco na disseminação de ideias, ferramentas e experiências de mobilização de recursos para iniciativas do interior do estado. A edição piloto do projeto aconteceu durante o Festival de Inverno de Garanhuns (FIG) deste ano, no Agreste de Pernambuco, e agora precisa de recursos para acontecer novamente. O maior aprendizado, porém, continua sendo praticado: "Com diálogo, tudo é possível de acontecer", enfatiza Tereza.

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