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Natura aposta na reciclagem para buscar ousado plano socioambiental

A Natura pretende, até 2050, coletar e destinar para reciclagem uma quantidade de material maior do que aquele descartado após o consumo de seus produtos - Divulgação/Natura
A Natura pretende, até 2050, coletar e destinar para reciclagem uma quantidade de material maior do que aquele descartado após o consumo de seus produtos Imagem: Divulgação/Natura

Keyty Medeiros

de Ecoa

01/10/2019 08h00

Aos 53 anos, Valdecir Aparecido Viana tem uma vida completamente diferente do que poderia imaginar há 20 anos, quando se tornou catador de materiais recicláveis nas ruas de Campinas, no interior de São Paulo. Por conta de um tratamento de saúde da filha, Valdecir se mudou de Mato Grosso, onde era agricultor, para a cidade paulista e, sem formação acadêmica, se tornou catador. "Quando eu comecei, trabalhava sozinho e não tinha perspectiva de sustentar minha família", comenta.

Com o esforço pessoal, a união com outros catadores e um movimento crescente de sistematização da reciclagem como parte das estratégias do setor privado, hoje Valdecir é coordenador de logística e presidente da Reciclamp, uma cooperativa formada por cinco cooperativas que coletam materiais recicláveis na região.

Desde 2016, a cooperativa integra o quadro de fornecedores da empresa de cosméticos Natura, a maior do mundo a receber a certificação do Sistema B, movimento criado nos EUA que reconhece empresas que aliam lucro a preocupação socioambiental.

O selo do Sistema B certifica a sustentabilidade social e ambiental em todas as etapas de produção do negócio, da matéria-prima à governança (processos, costumes e leis que norteiam a forma como uma organização é administrada). Para receber o certificado, as empresas passam por um processo criterioso, que inclui fornecimento de informações e evidências, visitas técnicas e entrevistas.

A meta parcial da Natura é que, no próximo ano, 50% dos resíduos gerados pelas embalagens de cosméticos sejam reciclados - Divulgação/Natura
A meta parcial da Natura é que, no próximo ano, 50% dos resíduos gerados pelas embalagens de cosméticos sejam reciclados
Imagem: Divulgação/Natura

A Natura obteve o selo em 2014, tornando-se a maior empresa do mundo a conseguir esse feito e, desde então, tem mantido a certificação, que é renovada a cada dois anos, pois deve provar que suas práticas e políticas de sustentabilidade estão avançando.

A conquista é parte de um plano considerado ousado: a Visão de Sustentabilidade 2050, em que a Natura se propõe a gerar o chamado "impacto positivo" até o ano de 2050. Isso significa que a existência da companhia deve ajudar a tornar o meio ambiente e a sociedade melhores, algo que nenhuma empresa no mundo conseguiu ainda, pois o que se faz é tentar reduzir e mitigar os impactos negativos gerados por suas atividades.

Relação de troca

Para alcançar esse plano, a Natura tem, entre outras ações, intensificado a atuação junto a iniciativas como a de Valdecir, para aumentar a eficiência da logística reversa, ou seja, coletar e destinar para a reciclagem materiais descartados pelos consumidores.

Hoje, 32,8% dos resíduos gerados pelas embalagens de cosméticos da empresa são reciclados. A meta parcial é que, em 2020, esse número chegue a 50%. Mas, para alcançar o objetivo de 2050, a Natura terá que coletar e destinar para reciclagem uma quantidade de material maior do que aquele descartado após o consumo de seus produtos.

A aproximação com as cooperativas é um caminho importante para chegar lá e que beneficia não só a empresa, mas também essas organizações, pois acaba contribuindo para melhorar o fluxo de produção do setor. De acordo com Valdecir, a Natura ajudou a estabelecer planos de investimento e a profissionalizar a comercialização dos produtos, o que auxiliou inclusive na prestação de serviços para terceiros, como hospitais e outras companhias da região.

"A Natura adaptou e disponibilizou uma ferramenta de auditoria para que as cooperativas desenvolvam suas próprias auditorias, com um olhar crítico e permanente do que está sendo feito em cada parte. Uma cooperativa passou a auditar a outra e, com isso, melhoramos juntos", comenta Valdecir.

No aspecto ambiental, por exemplo, documentos como licença de operação e outorga de recursos hídricos são considerados pela Natura na análise para a parceria, além da gestão que o futuro parceiro realiza sobre o seu consumo de água e de energia e a geração de resíduos, efluentes e emissões.

Keyvan Macedo, gerente sênior de sustentabilidade da Natura - Arquivo pessoal
Keyvan Macedo, gerente sênior de sustentabilidade da Natura
Imagem: Arquivo pessoal

"Fazemos visitas frequentes e mantemos essa rede de relacionamentos viva para garantir que as práticas dos fornecedores se mantenham de acordo com nossos valores. Assim, reafirmamos nosso protagonismo na agenda de desenvolvimento sustentável global, mostrando que as empresas têm possibilidade e responsabilidade de assumir o papel de agentes de transformação social e conservação ambiental", afirma Keyvan Macedo, gerente sênior de sustentabilidade da Natura.

Objetivos sustentáveis

Além da meta de 50% de reciclagem para 2020, outro objetivo da Natura para o próximo ano é que 50% do portfólio de produtos nacionais tenha embalagens ecoeficientes, isto é, com pelo menos metade da composição formada por materiais recicláveis ou que não contenham plástico. Em 2018, 22% do portfólio estava adequado a esse objetivo. Segundo o gerente sênior de sustentabilidade da Natura, Keyvan Macedo, essa iniciativa contribui para evitar o descarte anual de 420 toneladas de plástico na natureza.

As ações de reciclagem contribuem ainda para outro ponto sensível da estratégia para cumprir o plano da Visão 2050: observar a emissão relativa de gás carbônico por produto fabricado, para, a partir daí, reduzir o impacto gradualmente.

A emissão por produto da Natura está em queda desde 2016, porém o total de emissões da empresa cresceu em 2018. "O crescimento se deve ao aumento de vendas tanto em volume quanto em valor. Além disso, as operações internacionais têm participação cada vez maior na receita da Natura. Como a maior parte dos produtos saem do Brasil, a exportação gera um aumento da pegada de carbono", explica Keyvan Macedo.

A compensação vem, em parte, por meio da política de logística reversa. E, no que depender de Valdecir, a cooperativa vai contribuir cada vez mais com esse processo. Atualmente a Reciclamp é responsável por fornecer 11 toneladas de plástico reciclado para o sistema Natura por mês, e a previsão é chegar a 30 toneladas mensais em 2020. Ao todo, a Natura pretende evitar o descarte de 1.000 toneladas de plástico somente este ano por meio desse tipo de parceria.

Nesta seção, são publicadas histórias pontuais de boas práticas empresariais, sem levar em consideração outras ações das empresas. As pautas são escolhidas segundo critérios jornalísticos e publicadas após processos rigorosos de apuração, sem nenhum tipo de acordo monetário.

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