Viagem que cura

Por que as terapias psicodélicas podem virar o jogo no tratamento de doenças mentais?

Carlos Minuano Colaboração para Ecoa, de São Paulo

"Estava em uma prisão mental", relembra Ísis (nome fictício). É como ela define sua condição, anos depois de sofrer uma tentativa de estupro. O ataque foi em 2014, quando tinha 31 anos. Sozinha, porque o marido trabalhava em outro estado, e com três filhos para criar, assistiu a sua vida emocional gradualmente entrar em colapso. O cotidiano se tornou um inferno.

Tudo começou quando precisou ir ao supermercado à noite. No meio do caminho, foi surpreendida por uma chuva muito forte. Ela parou para se proteger em um trecho escuro e vazio. A ideia era só esperar um pouco para não ficar toda molhada, mas esse tempo foi o suficiente para ser atacada por um homem com uma chave de fenda na mão.

Ela reagiu e conseguiu repelir o agressor, porém teve rosto, cabeça e ouvido cortados pela ferramenta. "Sinto dores no ouvido até hoje", comenta. E, claro, as feridas não foram apenas no corpo. Ísis até tentou tocar a vida em frente, mas não conseguiu. "Cheguei ao ponto de não sair mais de casa. Meus filhos faltavam semanas inteiras na escola porque não tinha condições de levá-los", relata.

Depois de dois anos de idas e vindas a psiquiatras e psicólogos, foi diagnosticada com TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático). Tomou vários remédios: escitalopram, fluoxetina, zolpidem, agomelatina e quetiapina. Apesar de eventuais melhoras, o quadro nos dois anos seguintes se agravou. Depressão, pensamentos suicidas, isolamento e angústia a atormentavam diariamente.

Até que um dia uma publicação nas redes sociais chamou a atenção. Um post anunciava uma seleção de voluntários para o primeiro ensaio clínico do Brasil com MDMA (ou metilenodioximetanfetamina). A droga psicodélica, que na década de 1980 recebeu o apelido de ecstasy, está próxima de ser legalizada nos Estados Unidos para uso em psicoterapia para o tratamento de traumas.

Ísis se inscreveu e foi uma das selecionadas. Durante o tratamento, que durou 15 semanas, ela participou de três sessões com uso do MDMA. Segundo ela, foram experiências intensas, catárticas, em que reviu questões da infância, do começo da sexualidade, de sua visão de mundo e também do abuso sofrido.

Cantou, gritou, esperneou, chorou e perdeu a noção do tempo, mas, segundo ela, reencontrou o amor próprio. Hoje se diz curada. Detalhe importante: um ano após concluir o tratamento experimental, afirma se sentir bem. Retomou a vida, os estudos e a família. Ela diz que, hoje, não faz uso de nenhum medicamento.

Casos semelhantes animam cientistas do mundo todo, que se dedicam a estudar os psicodélicos. O entusiasmo não é sem motivo. Resultados de pesquisas mais recentes apontam para uma mudança de paradigma, que não pode mais ser ignorada. Não se trata apenas de substâncias cercadas por polêmicas e controvérsias, como ayahuasca, cogumelos, LSD, MDMA. Implica também uma outra concepção sobre doenças, cérebro, mente, consciência, vida e morte.

Classificados como perigosos alucinógenos e proibidos por décadas, os psicodélicos, impulsionados por avanços de estudos científicos, ressurgem agora como uma possibilidade poderosa e inovadora para o tratamento de doenças mentais em seus estágios mais severos e resistentes aos tratamentos disponíveis, como dependência química, depressão e TEPT. E podem trazer benefícios até para pessoas saudáveis, como no desenvolvimento cognitivo e da criatividade.

Afinal, quais substâncias são essas?

  • LSD

    O LSD (dietilamida do ácido lisérgico) foi sintetizado pela primeira vez em 1938 pelo cientista suíço Albert Hofmann, que em 1945 descobriu também seus efeitos psicoativos. Antes de ser proibida, durante a década de 1950, foi objeto de milhares de pesquisas e considerado por psiquiatras uma droga possivelmente milagrosa para transtornos mentais e alcoolismo. Estudos recentes investigam seu potencial para depressão e ansiedade.

  • MDMA

    O MDMA (metilenodioximetanfetamina) foi sintetizado e engavetado em 1912 pela farmacêutica Merck e redescoberto em 1965 pelo químico norte-americano Alexander "Sacha" Shulgin. Na década de 1980, ganhou apelidos como ecstasy e "droga do amor", e virou a queridinha de baladas pelo mundo todo. Após perseguições e proibições, deve ser aprovado para terapia de TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático) nos EUA.

  • PSILOCIBINA

    Psilocibina é o princípio ativo dos cogumelos psicodélicos utilizados há séculos por indígenas do México e da América Central, assim como o LSD, durante a década de 1950 empolgou a comunidade científica antes de ser proibida. Atualmente, estudos avançados nos centros de estudos psicodélicos da Imperial College (na Inglaterra) e da Johns Hopkins (nos EUA) investigam seu potencial terapêutico no tratamento da depressão.

  • AYAHUASCA

    Ayahuasca é o nome quíchua (que significa "cipó da alma") de uma bebida usada ritualisticamente há séculos por indígenas da Amazônia, e que migrou para as grandes cidades onde seu uso ganhou novas roupagens, como em cultos religiosos. É preparada com o cipó Banisteriopsis caapi e folhas do arbusto Psychotria viridis. Pesquisas investigam seu potencial para tratar depressão e dependência química.

  • IBOGAÍNA

    Ibogaína é o princípio ativo de uma planta africana chamada iboga, composta por várias espécies. É usada ritualisticamente por curandeiros dos países da bacia do Congo e em rituais de iniciação da religião buiti (ou bwiti, em inglês). O tipo utilizado pela medicina ocidental é a do gênero Tabernanthe iboga. Isolada pela primeira vez em 1901, teve potencial para tratamento de drogadição descoberto em 1962 por Howard Lotsof.

Liberdade para dentro da cabeça?

Uma questão crucial no debate sobre os psicodélicos é entender como eles agem no cérebro, na mente, quais os riscos, cuidados e contraindicações. Por isso as pesquisas científicas são tão importantes. Aliás, elas poderiam estar bem mais avançadas se essas substâncias não fossem há décadas alvo de uma perseguição regada de preconceito e desinformação.

Seja no uso ritual ou no contexto de terapias, sobram relatos de cura, transformação, melhoras quase instantâneas para os mais diversos problemas. Há também casos de surtos e "bad trips" terríveis. Mas, falando inicialmente a respeito do tal potencial terapêutico, qual a explicação por trás dos efeitos dos psicodélicos? Segundo o farmacólogo Rafael dos Santos, eles parecem flexibilizar os padrões de pensamentos e emoções, permitindo uma reavaliação e uma nova configuração deles.

"No caso da depressão e dependência de drogas, por exemplo, são transtornos psiquiátricos caracterizados por padrões rígidos de pensamentos e comportamentos. Portanto, a flexibilização cognitiva proporcionada por essas substâncias poderia explicar seu efeito terapêutico."

Para o médico Bruno Rasmussen, é uma questão de (pouco) tempo para que os psicodélicos entrem para o mainstream das prescrições. E a justificativa para isso é justamente a diferença na forma como agem em relação aos tratamentos convencionais, principalmente nos casos de transtornos mentais. "Medicamentos psiquiátricos tradicionais, como antidepressivos e estabilizadores de humor, em geral, não vão na raiz do problema."

Os psicodélicos reorganizam o cérebro e as conexões entre os neurônios, é como se resetassem o cérebro. Mas é preciso cuidado, porque não está vacinado, se quiser usar nada impedirá de recair, orienta o médico.

No caso de um dependente químico, faz com que a pessoa volte ao estado anterior ao primeiro uso da droga, ela volta a ter o poder de escolha.

Bruno Rasmussen, médico

"Medicamentos tradicionais causam anestesia"

No caso de traumas é necessário relembrar e ressignificar o que aconteceu a partir de um outro ponto de vista. "Isso é curativo", afirma Rasmussen. Já os medicamentos tradicionais, detalha o médico, causam uma anestesia. "Fazem esquecer do problema jogando a questão numa névoa, dão um certo ânimo, energia para tocar a vida, mas o paciente segue arrastando aquela bagagem para sempre."

Com o MDMA e outros psicodélicos, é completamente diferente, observa Rasmussen. "Eles remexem, levantam a poeira e com ajuda dos terapeutas é possível 'lavar a roupa suja', falar sobre o problema". O médico conta que esta foi uma das principais orientações em treinamento para a terapia com o psicodélico no Brasil, organizado pela MAPS (Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies), ONG americana que desde 1986 desenvolve estudos no campo do uso terapêutico de psicodélicos e que está à frente do processo de legalização do MDMA para o tratamento de traumas. "Quando o paciente falar que está lembrando de algo ruim e quiser mudar de assunto, diga para ficar com a lembrança, para digerir depois."

Dependendo da gravidade de uma recordação, sobretudo no caso de um trauma, a tendência é não tocar no assunto, mas com os psicodélicos a conversa é outra. Tem drama, tem choro, há quem role pelo chão, alguns se sacodem, sofrem, mas passa e, em geral, a pessoa se sente bem melhor depois.

MDMA no Brasil: Como nascem os remédios?

São muitas as etapas que uma droga precisa atravessar até que seja registrada e aprovada como medicamento. É um percurso longo e complexo que pode levar até duas décadas. Mas o caminho é sempre o mesmo: pesquisas científicas. "Aqui no Brasil temos alguns exemplos de tentativas de distorção desse processo com consequências graves", comentou o neurocientista Eduardo Schenberg, responsável pelo estudo pioneiro com MDMA no Brasil, em uma de suas várias lives sobre psicodélicos nas redes sociais.

Ele citou o caso da "pílula do câncer", a fosfoetanolamina, que teve apoio do congresso, mas terminou barrada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) por falta de evidências científicas. E, claro, comentou também a recente polêmica em torno da hidroxicloroquina para Covid-19.

Mas o tema central da conversa era outro: os avanços nas pesquisas com MDMA pelo mundo, incluindo o Brasil, para o tratamento de TEPT (Tratamento do Estresse Pós-Traumático), transtorno que afeta mais de um milhão de brasileiros só nas capitais de São Paulo e Rio de Janeiro.

A pesquisa coordenada em 2018 por Schenberg avaliou 60 inscritos, três pacientes foram selecionados, todos com diagnóstico de TEPT por abuso sexual. Um homem e duas mulheres com 45, 35 e 41 anos de idade, respectivamente. A terapia seguiu o modelo desenvolvido pela MAPS. Antes da primeira experiência com MDMA, os pacientes passaram por sessões de psicoterapia com os psicólogos Álvaro e Dora Jardim para explicar como a substância atua.

"A pessoa com esse tipo de trauma geralmente não é sociável, não consegue confiar em ninguém e o MDMA promove uma plasticidade neuronal, que facilita essa entrega, reconecta o que estava desconectado", explica o psicólogo.

Esse efeito, segundo Álvaro, favorece a lembrança de questões relacionadas ao trauma e facilita ao paciente lidar com elas. Mas ressalta que a substância não fará isso sozinha. "É essa combinação do psicodélico com a psicoterapia e toda a estrutura montada para o processo que ajuda o paciente a encaixar as peças do 'quebra-cabeça' que é tratar um trauma."

Depois dessas sessões iniciais, entra em cena o MDMA. Após alguns exames e medições, o médico responsável por servir a substância, pergunta ao paciente: "Você quer tomar esse medicamento?". O fato de o paciente aceitar o remédio explicitamente, ajuda a remover alguns bloqueios psicológicos que poderiam atrapalhar, observa o médico Bruno Rasmussen Chaves, que fez o monitoramento dos participantes durante a terapia.

Entre os vários efeitos provocados pelo MDMA, que justificam sua indicação para o tratamento de TEPT, Rasmussen destaca uma sensação de aumento da confiança, em si mesmo e nas pessoas ao redor. "Ocorre um bloqueio da comunicação entre a amígdala, região primitiva do cérebro responsável pelo cuidado e autopreservação, e o resto do córtex, principalmente a parte frontal, do raciocínio mais elaborado e complexo, que reduz a sensação de medo."

Outra qualidade importante do MDMA é aumentar a fabricação da ocitocina, hormônio produzido pelo hipotálamo. Isso explica porque quando começou a fazer sucesso em baladas e raves ganhou o apelido de "droga do amor".

Os resultados da pesquisa brasileira com MDMA divulgados na Revista Brasileira de Psiquiatria mostram uma melhora clínica considerada pelos pesquisadores como significativa: de 32% a 89% na redução dos sintomas. De acordo com o psicólogo Álvaro, os tratamentos psicológicos e psicoterapêuticos disponíveis atualmente alcançam uma melhora em torno de 25% e geralmente a pessoa adoece novamente e permanece dependente de medicamento a vida toda.

Passos para virar realidade

Comparada a estudos recentes no exterior, com amostras maiores de pacientes, a pesquisa brasileira sinaliza que a psicoterapia assistida com MDMA pode em breve se tornar um tratamento viável no Brasil. Schenberg estima que por aqui a legalização da terapia deve demorar até três anos, após a aprovação nos EUA (prevista para 2022).

A primeira pesquisa brasileira com a substância terminou no final de 2018, e seus pacientes foram acompanhados em 2019. O objetivo dos pesquisadores agora é registrar o MDMA e esse método de tratamento no Brasil, e para isso precisam obter a aprovação da Anvisa. "Não é um remédio que se pretende colocar no mercado, vendido na farmácia e que psiquiatras passarão a receitar, é uma metodologia que requer um aprendizado", sublinha o neurocientista.

O trâmite requer que novos estudos sejam realizados, com outros recortes, em mais regiões do país e com um número maior de pacientes. "Vamos precisar de muitos terapeutas aptos a trabalhar com essa terapia", prevê o neurocientista Eduardo Schenberg.

Para isso, no fim de julho, foram abertas inscrições para a primeira etapa do programa de capacitação em psicoterapia assistida por psicodélicos, realizada pelo Instituto Phaneros e pensada principalmente para médicos e psicólogos com carreira clínica, interessados em fazer parte de novos estudos com MDMA e outros psicoativos. A capacitação toda deve durar de um ano e meio a dois.

Nos EUA, Canadá e Israel o processo de aprovação da psicoterapia com MDMA para o tratamento de TEPT está na metade da fase 3, última etapa do processo que deve ser concluído até 2022. Outros estudos clínicos de olho no registro ocorrem em Portugal, Inglaterra, Alemanha, Holanda e República Tcheca.

Registrar como medicamento não é legalizar

Para explicar na prática o que representa a aprovação do MDMA é preciso antes esclarecer que o registro como medicamento para uso em psicoterapia não significa que a droga será legalizada. "Um bom exemplo é o caso da maconha", compara Schenberg. "Ela não foi legalizada, mas existem produtos de cannabis medicinal aprovados no Brasil para importação e para produção nacional".

O avanço da terapia para TEPT é fruto de uma longa e incansável jornada de ações movidas durante décadas por pesquisadores. O início das investigações sobre seu potencial terapêutico teve que ocorrer de maneira clandestina, nas décadas de 1980 e 1990, por causa da perseguição contra os psicodélicos e da explosão do consumo recreativo da droga em baladas.

"O MDMA protagoniza uma das histórias mais escandalosa das proibições de psicodélicos", afirma Schenberg. Isso, segundo ele, ocorreu por uma sucessão de confusões sobre potenciais efeitos tóxicos ou mesmo fatais da substância. Mortes podem estar associados tanto ao uso da droga pura, em doses elevadas, como devido à presença de mais de 500 contaminantes em sua versão de rua, o "ecstasy", que circula pelo mercado ilegal de drogas.

Um caso icônico é o da britânica Martha Fernback, que morreu de parada cardíaca após overdose de 500 mg de MDMA aos 15 anos num parque em Oxford, em 1983. Ela sabia dos contaminantes, comprou uma droga pura, mas errou na dosagem. Para surpresa geral, a mãe da menina entendeu que, se a substância fosse regulamentada, talvez sua filha não tivesse morrido, e se tornou uma ativista pela liberdade dos psicodélicos.

Mas, por confusões como essa, o DEA (Drug Enforcement Administration), órgão de controle e repressão de drogas dos EUA, classificou em 1988 o MDMA na categoria mais restritiva, a "Schedule 1". De forma sucinta, indica que a substância em questão não tem potencial médico e possui alto risco de abuso.

Schenberg alerta que é preciso esclarecer que MDMA e ecstasy são coisas distintas. Diferentemente do que se lê na mídia há tempos, a substância não é o princípio ativo do ecstasy. "Princípio ativo é um conceito que se aplica a plantas. É você identificar numa planta ou cogumelo quais moléculas naquele organismo têm efeito psicoativo", esclarece o neurocientista.

Ecstasy é um apelido de rua, é uma gíria informal para alguma droga que hoje já não se sabe o que é, porque no mercado ilícito dessa droga existem mais de 500 substâncias diferentes.

Eduardo Schenberg, neurocientista

Ibogaína e a dependência química

Enquanto o MDMA avança para se tornar uma terapia para TEPT, outro psicodélico há décadas vem sendo usado no Brasil e em outros países no tratamento da dependência química de crack e cocaína. A ibogaína, princípio ativo extraído da casca da raiz de um arbusto africano chamado iboga, pegou uma espécie de atalho ou vácuo jurídico no país e no mundo, conforme explica o médico Bruno Rasmussen, que há décadas trabalha com esse psicodélico. "Ela não é proibida nem pela Anvisa aqui no Brasil e nem pela junta de entorpecentes da ONU."

Por outro lado, a ibogaína não é registrada como remédio, nem regulamentada, portanto o uso é considerado experimental, médicos podem receitar, mas a importação é feita pelos próprios pacientes para uso pessoal.

É um processo semelhante ao que ocorreu inicialmente com o CBD (canabidiol), derivado da maconha (usado para uma série de aplicações terapêuticas, como epilepsia e esclerose múltipla), mas menos burocrático, explica o médico. "Mesmo com todos os trâmites, em geral, num período de 30 dias o medicamento está na mão do paciente."

O médico participou de um estudo realizado pela Unifesp, liderada pelo psiquiatra Dartiu Xavier, que entre 2005 e 2013 administrou a ibogaína para 75 pacientes. No total, 62% permaneceram abstinentes. Os resultados da pesquisa foram noticiados pela Royal Pharmaceutical Society, do Reino Unido, e publicados no britânico "The Journal of Psychopharmacology".

Rasmussen afirma já ter administrado o psicodélico para mais de 2 mil pacientes. Ele relata que embora a substância seja um facilitador para a psicoterapia, seu efeito é bem diferente do que acontece com o uso em terapia do MDMA, por exemplo.

"Durante a experiência com ibogaína o paciente não quer conversa, ocorre uma aceleração dos pensamentos, ele começa a rever momentos da infância, da adolescência, enfim, coisas do fundo do baú que eventualmente nem lembrava, mas geralmente prefere permanecer em silêncio", detalha Rasmussen.

O trabalho do médico com ibogaína acontece na ala particular da Santa Casa de Ourinhos, interior de São Paulo, e segue os protocolos indicados na resolução do Coned-SP (Conselho Estadual de Políticas Sobre Drogas de São Paulo). "O paciente vai para o hospital logo cedo e passa pelo menos 24 horas internado para tomar a ibogaína, mas antes passa por quatro sessões preparatórias com um psicólogo", descreve o médico.

A indicação é que a pessoa use o psicodélico uma única vez. Rasmussen alerta, no entanto, para um circuito de clínicas que oferecem essa terapia sem a devida infraestrutura exigida e fora do protocolo indicado por pesquisas já realizadas, como a da Unifesp

"Tem alguns locais que utilizam um "método" inventado aqui de cinco doses, mas são clínicas meio underground, que não usam o medicamento original, é uma ibogaína 'pirata', de baixa qualidade e com uma eficácia bem menor", conta Rasmussen, que alerta também para a ausência de médico com experiência no local.

A história do uso terapêutico da ibogaína começou de maneira curiosa em 1962, com o americano Howard Lotsof (morto em 2010), que era dependente de heroína e se curou após utilizar o psicodélico. Mas foi por acaso. Tinha ouvido falar que a droga africana era um poderoso alucinógeno, e queria só dar uma boa viajada mesmo.

A experiência foi intensa, durou mais de 24 horas, mas não correu como esperava. Lotsof percebeu que além de não sentir mais vontade de usar heroína não tinha mais medo da vida. Deu para a namorada e amigos, também viciados, e o efeito foi o mesmo. E, assim, tornou-se o pioneiro do uso terapêutico da ibogaína.

O médico Rasmussen conheceu Lotsof nos EUA em 1994, soube das pesquisas com ibogaína e decidiu usar o psicodélico no tratamento de um familiar, que tinha problemas com cocaína. Em 1997, descobriu que era possível importar a substância e começou a utilizar desde então no tratamento de dependentes químicos no Brasil.

Para fora da mente

Um dos pacientes de Rasmussen é Luís Carbonar. Hoje com 31 anos, conta que começou a usar drogas com 13, crack, maconha e álcool. "Desde o início foi abusivo e bastante problemático". Segundo ele, todas as áreas de sua vida foram prejudicadas, financeira, psicológica, escolar, profissional, emocional e social. Nos momentos mais agudos de sua dependência, chegou a viver na rua, foi preso e passou por diversas internações.

Ele conheceu a Ibogaína aos 18 anos por indicação de uma amiga de sua mãe. Na época, foi o paciente mais novo a usar o medicamento no país. Ele não conseguiu parar de usar drogas após a primeira aplicação, mas ainda assim afirma ter obtido ganhos emocionais. A experiência, segundo ele, foi assustadora e desconfortável.

"Achei que ia morrer", relembra. Em outras duas vezes que tomou relata ter enfrentado as mesmas dificuldades. "Contrariando as orientações médicas, tentei lutar contra o efeito psicodélico, mas é impossível, prejudicou o efeito", avalia o paciente. Ele tomou a medicação por volta de seis vezes, entre microdoses e doses completas e acredita que em todas as aplicações houve evolução.

O rapaz descreve o efeito como um sonho acordado, onde os pensamentos se projetam "para fora da mente". "Eu chorei, ri, senti culpa, tristeza, alegria, foi muito intenso." Em paralelo ao tratamento com Ibogaína, Carbonar faz psicoterapia e acompanhamento psiquiátrico. Ele conta estar sem usar drogas desde setembro de 2019.

Não é um milagre e, sim, uma ferramenta terapêutica valiosíssima.

Luís Carbonar, paciente em tratamento com ibogaína

Laboratórios psicodélicos

A retomada das pesquisas com psicodélicos não é exatamente uma novidade. Desde o início da década de 1990, o interesse pelo tema tem crescido, e estima-se que cerca de mil voluntários já tenham participado de algum tipo de investigação científica. E o mais importante: com bons resultados e sem problemas. "Nenhum caso adverso foi registrado", escreveu o jornalista Michael Pollan em seu livro "Como Mudar a sua Mente" (ed. Intrínseca).

Com tecnologia sofisticada e ferramentas modernas, centros de pesquisa espalhados pelo mundo todo buscam desvendar os mistérios dos psicodélicos. Utilizando especialmente técnicas de neuroimagem e de farmacologia, cientistas atuam em três linhas básicas: potencial terapêutico, experiências místicas e neurociência.

Veja alguns laboratórios onde experimentações visionárias e inovadoras estão em curso.

Contracultura psicodélica

É de causar espanto que, com tantas evidências sobre seu potencial terapêutico, os psicodélicos tenham sido banidos para a clandestinidade. "Acabamos demonizando esses compostos", afirma o cientista da Johns Hopkins, Roland Griffiths. Apesar das diversas pesquisas apontando o contrário, a partir da década de 1970, essas substâncias foram igualadas a opiáceos e cocaína, e classificadas como drogas perigosas por razões que não têm absolutamente nada a ver com rigor científico.

"Umas das justificativas para a proibição foi o alto risco de causar dependência, o que não é verdade, ninguém se vicia em psicodélicos, são muito mais seguros que o álcool, por exemplo", afirma o psiquiatra Dartiu Xavier.

A explicação para essa perseguição, de maneira bem simplificada e resumida, é que os psicodélicos foram tragados pela onda da contracultura que arrebatou os Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970. Com isso, ganharam uma dimensão política e cultural que teve como pautas transformações de comportamento, sexo livre, pacifismo, combate ao racismo, interação com a natureza e expansão da consciência.

Por um tempo correu tudo bem, foi lindo e maravilhoso. Até hoje muitos choram de saudades, e outros tantos se retorcem de raiva por não terem vivido nessa época alucinada e delirante. Mas a rebordosa não tardou a chegar, causando um bocado de estardalhaço e piração. Surtos, "bad trips" e suicídios abriram caminho para o então presidente americano, o conservador Richard Nixon, colocar em curso sua guerra moralista contra as drogas.

Neste período, também os contextos xamânicos e ritualísticos de psicoativos como peyote e cogumelos ganharam popularidade com as obras do antropólogo Carlos Castaneda. Autor de livros como "A Erva do Diabo" e "Uma Estranha Realidade" (ed. Record), o escritor trouxe uma nova denominação para essas substâncias: plantas de poder. Ironicamente, foi o começo de uma era de proibicionismo, que levou os psicodélicos para os porões da proibição, onde ficaram confinados por décadas, carimbados vulgarmente como alucinógenos.

Ayahuasca: ciência e espiritualidade

Uma das principais substâncias no atual cenário psicodélico mundial é a bebida amazônica ayahuasca. Do uso por indígenas da floresta amazônica, a beberagem se globalizou, migrando para grandes centros urbanos, como São Paulo, Rio de Janeiro e Nova York. Fora de seu contexto original, no qual é utilizada em rituais xamânicos, ganhou novas roupagens e sentidos dentro de grupos religiosos sincréticos que começaram a se expandir na década de 1980, como o Santo Daime e a União do Vegetal (UDV), hoje presentes em todo o mundo.

Entretanto, o caminho para a utilização da beberagem para fins terapêuticos ainda tem pela frente alguns desafios. Teria a substância encapsulada e administrada em laboratório o mesmo efeito do uso no contexto ritualístico? Há quem acredite também que questionamentos como esse possam servir para estimular investigações e aproximar um pouco mais ciência e espiritualidade.

Um dos efeitos mais característicos da ayahuasca é chamado de "miração". Um fluxo intenso de experiências visuais muito parecidas com a realidade, mesmo com os olhos fechados, descreve o neurocientista Sidarta Ribeiro no livro "O Oráculo da Noite" (Companhia das Letras). "São fantásticas, plenas de simbolismo e da presença profunda, colorida e brilhante de animais, plantas, seres metamórficos, espíritos ancestrais e divindades cujo propósito é aconselhar e curar."

A ayahuasca é um nome quíchua, que em português seria algo como "cipó dos espíritos". O chá geralmente é preparado pela decocção prolongada do cipó Banisteriopsis caapi com as folhas do arbusto Psychotria viridis. "O cipó possui beta-carbolinas que inibem a degradação da DMT nas folhas do arbusto, permitindo que essa substância chegue ao cérebro", explica o farmacólogo Rafael Santos.

O psiquiatra e pesquisador americano Rick Strassman explica que a DMT está intimamente ligada à serotonina. "A farmacologia é semelhante à de outros psicodélicos já conhecidos, influencia os locais receptores de serotonina de maneira bastante parecida à do LSD, da psilocibina e da mescalina."

Um estudo amplo realizado em parceria com o grupo religioso UDV foi o Projeto Hoasca, primeiro a investigar os efeitos do uso em longo prazo do chá psicodélico em seres humanos. A pesquisa coordenada pelo cientista americano Dennis McKenna foi feita com integrantes do grupo entre 1991 e 1996 e envolveu pesquisadores de nove centros universitários e instituições de pesquisa do Brasil, Estados Unidos e Finlândia.

"Descobrimos muitas coisas, mas o ponto-chave é que a ayahuasca em nenhum sentido é tóxica ou danosa ao organismo humano, não causa qualquer disfunção neurológica, cognitiva ou de personalidade", afirmou McKenna.

Uso contra dependência química e depressão

No Peru, outro epicentro do uso ritual da ayahuasca, o centro Takiwasi (nome quíchua que significa "a casa que canta"), localizada em Tarapoto, no estado de San Martin, há décadas trabalha na recuperação de dependentes químicos utilizando um tratamento que combina ferramentas da medicina tradicional indígena e da psicologia.

Muitos dos pacientes que chegam ao centro possuem uma característica em comum: passaram por vários outros tratamentos convencionais sem sucesso. "As plantas medicinais e, especificamente, a ayahuasca permitem que pessoas se conectem com o significado mais profundo de suas vidas, um eixo central que os tratamentos convencionais geralmente não abordam", explica o médico francês Jacques Mabit, fundador e presidente do Takiwasi.

Atualmente o centro sedia parte de um projeto internacional de pesquisa chamado Atop (Ayahuasca Treatment Outcome Project), que acontece simultaneamente em diversos países.

Apesar do Takiwasi apoiar e manter pesquisas científicas em seu centro no Peru, é contra o uso terapêutico apenas com a substância. "A eficácia da ayahuasca depende do contexto ritual", defende Mabit. O centro, aliás, não é foco apenas de cientistas e pacientes, também diversos cineastas já se embrenharam na floresta amazônica peruana para conhecer o trabalho realizado ali. Um dos retratos mais fiéis do local pode ser conferido no documentário "House of Healing" do diretor brasileiro Ricardo D'Aguiar (disponível gratuitamente na internet).

No Brasil, um cientista que tem se dedicado a investigar o chá amazônico psicodélico é Dráulio Araújo. Atualmente em Natal, ele segue com seus experimentos na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), no Instituto do Cérebro, fundado pelo neurocientista Sidarta Ribeiro. De janeiro de 2014 a junho de 2016, coordenou o primeiro estudo controlado com ayahuasca para depressão severa, intratável com remédios disponíveis no mercado. Mais abrangente, essa pesquisa teve a participação de 85 pessoas. Resultados demonstraram uma redução significativa dos sintomas.

Entretanto, para o farmacólogo Rafael Santos, que colaborou no estudo e em outros com o grupo de Araújo, é importante frisar que a ayahuasca não é um tratamento para depressão ou para qualquer outro transtorno.

"Os estudos ainda são preliminares". O pesquisador alerta ainda para os cuidados que o uso da bebida demanda, porque pode ser uma experiência psicológica bem intensa. "Precisa ser realizada em um contexto apropriado, seja num ritual ou em um experimento científico". Uma advertência do farmacólogo é sobre o risco de psicose em pessoas vulneráveis.

Ele destaca alguns efeitos que podem ocorrer como alterações da percepção, aumentos transitórios de ansiedade, mal-estar gastrointestinal, náusea, vômito e, em menor proporção, diarreia.

O conhecimento de como o cérebro opera é a questão científica mais urgente de nosso tempo.

Timothy Leary, psicólogo americano

"Tem gente que só está melhorando com isso"

Figura notória no meio psicodélico por suas experiências com psilocibina em Harvard na década de 1960, o psicólogo americano Timothy Leary, dizia que "o cérebro é um biocomputador subutilizado, que contém bilhões de neurônios sem uso." Segundo ele, consciência e inteligência podem ser sistematicamente expandidas e o cérebro reprogramado.

O pesquisador, que morreu em 1996, tornou-se uma espécie de guru da margem contracultural das pesquisas psicodélicas. Ao seu estilo, Leary começou a pavimentar caminhos que - embora bloqueados por décadas -, começam a se reabrir. E para cientistas da área, as barreiras que o tema ainda enfrenta precisam ser superadas em nome dos benefícios que esses tratamentos representam para centenas de milhões de pessoas em todo o mundo.

"Não é para todos, mas tem gente que só está melhorando com isso", defende o neurocientista Eduardo Schenberg. Na avaliação dele, há uma ideia ainda muito resistente no Brasil de que há drogas do bem e drogas do mal. Na opinião de Schenberg, o debate sobre drogas é tão exagerado que as pessoas entram nele propensas a cair no que a psicologia cognitiva chama de vieses, ou equívocos de raciocínio.

Ele argumenta que essas substâncias são ferramentas e faz uma comparação com o carro, que pode ser utilizado para atropelar pessoas, mas que também pode levar pessoas para o hospital e salvar a vida delas. "Então, não é bom ou ruim", conclui.

Você tem de aprender a encontrar a formulação, a dosagem, o tipo de paciente. Só que infelizmente até médicos se deixaram afetar por esse paradigma de guerra às drogas, de que havia algumas substâncias que são extremamente perigosas e não teriam nenhum interesse.

O psiquiatra Dartiu Xavier também reclama do preconceito que há décadas enfrenta de parte da comunidade científica. "Quando comecei a divulgar resultados dos primeiros estudos com ayahuasca, lá na década de 1990, muitos colegas acharam que eu estava meio maluco, isso é consequência de uma cultura proibicionista muito forte que vem desde a década de 1970". Segundo ele, diversas pesquisas foram sufocadas ou impedidas por isso. Agora, ele se prepara para testar a eficácia da psilocibina no tratamento da dependência de cigarro e álcool. "Temos todos os protocolos de pesquisa autorizados, mas desde a queda [impeachment] da Dilma, todas as nossas verbas foram canceladas."

Rasmussen fala em preconceito também contra a dependência química e aponta um forte motivador financeiro. "A dependência química virou uma indústria", dispara o médico.

"Tem clínicas que cobram caríssimo por tratamentos, cerca de R$ 50 mil mensais ou mais, por um atendimento padrão de nove meses, evidente que não interessa um remédio que resolva o problema em 24 horas", alfineta.

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