As dores e delícias da DZ7

Repórter viu o impacto do baile palco de massacre na vida dos moradores de Paraisópolis

Paula Rodrigues de Ecoa
André Lucas/UOL

"Você teve algum problema para entrar aqui? Trataram você mal?", me perguntou Lucas*, um jovem de 17 anos assim que cheguei em Paraisópolis na manhã desta terça-feira (03). Era a primeira vez que eu, baiana criada a vida toda na periferia da zona norte, estava pisando na segunda maior favela da cidade de São Paulo. Paraisópolis fica há 38,5 km e mais ou menos uma hora e meia de transporte público da Vila Albertina, onde cresci. Mesmo assim, as motos que cortavam as ruas enquanto jovens jogam bola e os tênis amarrados no fio de eletricidade estavam lá, assim como estão nas ruas do lugar de onde eu venho.

Fui a Paraisópolis para ouvir os moradores sobre o baile funk da DZ7, que acontece ali semanalmente há pelo menos uma década, e tentar entender o que o fluxo (nome dado às festas de funk que acontecem na rua) representa na vida deles. Todas as pessoas com quem falei (foram mais de treze), além de mencionar, é claro, a morte dos nove jovens no último fim de semana, na madrugada do sábado para o domingo, contaram a história de uma festa com pegação, bebida e muita gente, que perturba pelo som alto. Até aí, não há nada muito fora do que rola em festas de outros gêneros musiciais, em outros cantos da cidade ou do Brasil. Exceto por um detalhe: o Baile da DZ7, me disseram, é uma das poucas opções de lazer que dos jovens de quebrada. E não apenas daquela quebrada. Vem gente de todo canto da cidade se divertir ali.

Eu não tive problema para entrar em Paraisópolis, respondi para o Lucas. Todos me receberam como se fosse de casa e tive um dia agradável, acompanhada por Renata Alves, 40, produtora de locação e figuração dentro de Paraisópolis, que me levou a vários cantos. Após minha resposta, o menino fez cara de quem já sabia o que eu diria. E, durante o dia, percebi que ele repetiu a mesma pergunta para outras pessoas, como se quisesse comprovar algo. E queria.

*Nome fictício, já que o garoto não quis se identificar.

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Conversando com Lucas, percebi que a preocupação demonstrada vinha carregada de uma vontade de defender os moradores da região. Fazia isso por causa das acusações de que um suposto ataque dos frequentadores do Baile da DZ7 teria causado o massacre — como o Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana) definiu o episódio ocorrido em Paraisópolis.

O jovem, que até então conversava comigo de cabeça baixa, em determinado momento, me olhou para rir da minha cara por causa de uma caneta (o drible de futebol) que ele, bem abusado, me deu enquanto eu subia a ladeira onde ele jogava bola. Ali, percebi a cara inchada do menino.

Lucas disse que "sentia muita raiva e estava indignado com tudo que tinha acontecido". Contou que aquele era o segundo dia seguido que passou chorando por um dos mortos, de quem era amigo próximo. Os dois, mais um grupo de amigos adolescentes com quem também conversei, eram frequentadores assíduos da festa. "Era um dia normal no fluxo. Eu vi tudo, eu estava lá", ele me disse. Porém, logo tratou de completar com um: "mas eu sou trabalhador".

A todo momento a atitude do jovem de tentar provar a inocência era repetida por moradores de Paraisópolis: muitos me diziam que eram trabalhadores. Um senhor disse que poderia buscar a carteira de trabalho em casa para comprovar que estava assinada. Outra moradora disse que morava ali, mas era religiosa, que só queria saber de igreja.

"Olha aqui a data, tá vendo? Olha, é no meu celular. Eu que gravei. Olha a data, eu não inventei isso, viu?", um morador me dizia enquanto praticamente colocava o celular na minha cara para que eu visse o vídeo gravado por ele que viralizou na internet, em que policiais atiram e dão cassetadas em pessoas que estavam no baile.

Comentei com Renata sobre essas situações. "As pessoas aqui estão tão acostumadas a ouvir que são criminosas ou coisa parecida, que a todo tempo tentam se justificar, provar que não são. Como se ser bandido fosse justificativa para alguém ser morto", disse.

Seja indiretamente no papel de vizinhos do barulho alto ou diretamente trabalhando como comerciantes na festa, a maioria dos moradores de Paraisópolis possui algum tipo de ligação com o fluxo.

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Depende do CEP

Renata Alves, 40

"Meu mundo é Paraisópolis. As pessoas que eu mais amo em toda a vida são daqui, por isso dói demais ver gente falando mal delas... Criminalizando. Eu não frequento, mas meu filho vai toda semana ao Baile da DZ7. Só não estava no último final de semana porque quebrou a perna. Para ser sincera, eu vivo as dores e as delícias do fluxo.

Porque esse é o único lazer da molecada, mas eu estou do outro lado também como a pessoa que não consegue chamar um carro de aplicativo nos fins de semana porque eles se recusam a entrar aqui na quebrada por causa do baile. Eu vivo a preocupação da mãe que tem medo do filho sair para se divertir e não voltar para casa depois. Não por causa do baile em si ou do funk, mas por causa dessa criminalização, dessa imagem negativa que pintam de alguém que só está se divertindo.

Dia de fluxo aqui é tranquilo. Apesar de não frequentar, a festa não me traz maiores problemas. O fato de eu ser favelada, sim, me traz problemas. O fato de eu ser negra, me traz problemas. O funk é só uma desculpa para que as pessoas possam criminalizar essas outras coisas em paz. Porque quem faz essas festas são pretos, pobres e periféricos.

Aqui em Paraisópolis existem projetos maravilhosos, mas todos com uma fila imensa de espera. Não tem lugar para todos, e a rua é democrática. Todo mundo pode ir. O jovem de quebrada não tem dinheiro para ir ao cinema todo final de semana. Mesmo se quisesse, ele teria que sair de Paraisópolis para isso, porque aqui nós não temos cinemas. E lá se vão quase R$ 20 só de passagem de transporte público para ele ir e voltar.

Mesma coisa se ele quiser curtir algum tipo de balada ou matinê fora daqui. Aliás, qual festa hoje em São Paulo não toca funk? Por que um jovem de Paraisópolis vai escolher pagar para entrar em casas noturnas para curtir as mesmas músicas que ele pode curtir aqui no fluxo do lado da casa dele e de graça?

Se você for na rua da [Universidade] Mackenzie, por exemplo, lá tem fluxo dos alunos. Todos escutando funk. Qual a diferença do funk que toca lá para o que toca aqui? Eu te digo: a diferença está no CEP onde esse ritmo é ouvido. E na cor da pele de quem ouve."

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Os corres no fluxo

O Baile da DZ7 tem um impacto em Paraisópolis que vai além da festa. O corre (gíria que tem variados significados, mas, nesse contexto, significa atividades comerciais) dos moradores em dias de fluxo não são apenas de MCs tentando emplacar um hit no baile. Existem inúmeras histórias de pessoas que viram no evento uma oportunidade de conseguir trabalho. Quase todas estão com medo e preferiram não se identificar. Atendi o pedido, mas trouxe as histórias.

Entrei em um salão de beleza e um rapaz de 20 anos me recebeu. Perguntei como era o ritmo de trabalho em dia de fluxo e ele me disse que dobrava o número de clientes. "Todo mundo quer ficar com cabelo na régua para ir no baile, né?".

Enquanto andava pelas ruas de Paraisópolis, encontrei um homem segurando uma lata de bomba de gás lacrimogêneo que, segundo ele, foi jogada por um policial na hora da confusão. Ele também é comerciante no fluxo.

Há quatro anos, de quinta a domingo, ele corta a rua Ernest Renan de ponta a ponta vendendo bebidas para os frequentadores do baile. "Eu, antes disso, estava parado em casa. Fiquei desempregado por um ano. Cheguei a um ponto que não tinha dinheiro nem para comer mais. Aí comecei a olhar para o baile e pensei que dava para tirar uma grana ali", conta. Hoje, diz que consegue até mesmo viajar uma vez por ano com a família, tudo pago com o dinheiro que consegue fazer no fluxo, que já chegou a R$ 2 mil em um dia.

O mesmo acontece com outro comerciante e morador da região de 44 anos. Desempregado há 8 meses, decidiu comprar doces para revender no pancadão. "Eu não tenho medo do funk. Pelo contrário, se hoje eu estou aqui de pé, de barriga cheia, é por causa do dinheiro que eu faço por causa do funk".

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Sonho de tocar na DZ7

Bruno da Silva, ou MC Sacana, 31

"Tem nove anos que eu sou MC de funk. Comecei cantando música dos outros por diversão só, até que uns amigos me falaram que eu tinha talento e comecei a escrever. O meu sonho hoje é fazer uma música minha estourar em um baile funk. A gente só fica conhecido assim: se uma música tocar no fluxo.

Foi assim que um monte de MC famoso hoje apareceu para o Brasil. Eu ainda não toquei no baile da DZ7, mas vou. Eu já tive várias oportunidades dentro dessa comunidade. Já participei de novela, já participei como figurante em 'Sintonia' [série da Netflix e Kondzilla], já fui em programas de TV apresentar meu trabalho.

Mas não é fácil. Paraisópolis é uma vitrine, as pessoas expõem nosso trabalho. Mas não é assim que a gente estoura no funk, sabe? Não adianta ir na mídia. A gente depende do baile funk, mesmo. A pessoas da sua comunidade precisam ouvir sua música. O fluxo para a gente é a principal ferramenta que temos para divulgar nossa música.

É tipo com o DJ Rennan da Penha, né? Ele só ficou conhecido por causa do Baile da Gaiola [festa de funk que acontece na periferia do Rio de Janeiro]. MC Kevin o Chris saiu de lá também. Hoje os caras são os mais ouvidos no Brasil todo. Tudo por causa do Baile da Gaiola. Imagina quando a gente conseguir essa consagração para o Baile da DZ7? O tanto de gente que vai melhorar de vida por causa desse baile?

O pessoal vem para curtir. Vem gente de toda parte, vários ônibus fretados. Eu só queria isso mesmo: que o baile funk fosse visto por todos como cultura, como uma forma de ajudar quem está no corre, né?"

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O lazer das quebradas

O Baile da DZ7 movimenta Paraisópolis, mas é frequentado principalmente por quem vem de fora da favela, público que representa cerca de 80% do total, segundo a União de Moradores de Paraisópolis. "Nós falamos que em Paraisópolis tem nada de lazer, né? Mas imagina nesses outros lugares, de onde essas pessoas vêm? Para um jovem sair do outro lado da cidade e vir buscar entretenimento aqui, é porque lá tá ainda pior", disse Renata.

A impressão da produtora é comprovada pelos dados da Mapa da Desigualdade, levantamento realizado pela Rede Nossa São Paulo e o Ibope. De acordo com a publicação mais recente, de 2019, Paraisópolis não possui nenhum centro cultural, casas ou espaços de cultura ofertados pelo Estado. O deserto se estende pelas periferias da cidade também, onde o índice de aparelhos de cultura por 100 mil habitantes é inferior a um, contra 15 no centro da cidade.

Esses dados, de certa forma, explicam também o motivo pelo qual todos os jovens mortos eram de fora de Paraisópolis. "A gente que é daqui sabe quais são os becos ou vielas que dão em algum lugar e os que são sem saída. Quem é de fora não. Apesar de muitos terem apanhado da polícia, que ficou esperando na saídas, a gente conseguiu escapar por onde já conhecíamos", me disse uma estudante de 16 anos que acabou torcendo o pé enquanto corria tentando se salvar. Ela também não quis se identificar.

Uma das vítimas, o baiano Mateus dos Santos Costa, 23, por exemplo, era de Carapicuíba. Passava até duas horas dentro do transporte público para chegar no baile da DZ7. Segundo familiares, o jovem dizia que fazia isso porque em Carapicuíba não havia opções de lazer.

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Direito à diversão

Yasmin Reis dos Santos, 20

"Quem está de fora costuma focar só no lado negativo da comunidade, e isso traz um peso, né? Principalmente para nós, jovens, porque a gente cresce com pessoas nos julgando por ser jovem e de periferia. A gente é inferiorizado. Rola uma discriminação terrível.

Drogas, bebidas, gente que faz coisa errada tem no baile aqui sim, mas também tem tudo isso em festas de elite. A diferença está em como isso é passado, como as pessoas olham para isso. Aqui dentro da favela é ruim e lá fora pode?

Euu não frequento, não é o tipo de música que eu gosto de ouvir, mas eu entendo que isso é entretenimento. É cultura. Eu não faço parte dela, mas eu entendo e respeito. Não tem como negar que o baile é uma forma de renda para muitas pessoas, e de lazer também.

Eu mesma que não vou a essas festas, só consigo me divertir dentro das casas de amigos. Mas tudo fechado. Sinceramente, eu tenho medo de me divertir aqui em Paraisópolis. Medo de voltar para casa e, de repente, ser abordada por policiais.

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´Uma vida é uma vida´

A opinião dos moradores de Paraisópolis é conflitante quando o assunto é o fluxo em si. Cheguei perto de dois senhores sentados em uma loja que vende água. Conversando sobre o ocorrido do final de semana, disseram ser totalmente contra o fluxo.

E muito por causa do barulho e das "letras pornográficas" das músicas que tocam na festa. Um deles tem 60 anos, mora no local há 40, e compartilha com o outro a ideia de que o fluxo é "coisa do diabo". Mas, logo em seguida, diz conhecer "gente de bem" que também frequenta o baile.

Os dois entraram em uma discussão calorosa sobre funk. Questionados por outro morador que passava na rua sobre quais outras opções de lazer o jovem tem em Paraisópolis, um deles afirmou: "Nenhuma". E então a dupla culpou o Estado por isso. Se exaltaram. Falaram alto. Criticaram o Baile da DZ7.

Mas, ao final, um deles se virou para mim e disse: "Olha, moça, independente de tudo isso, uma vida é uma vida. Bandido, trabalhador, pai de família? Não importa. Nada justifica o que aconteceu aqui aquele dia". E todos balançaram a cabeça em concordância pela primeira vez.

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