Onde a vida prevaleça

Jornalista aposta em um nova ocupação dos espaços urbanos com design orientado às pessoas

Natália Garcia Especial para Ecoa

[Cidades e comportamento]

No contexto de isolamento social, as estruturas construídas para que possamos trabalhar e a nossa própria ideia do que é trabalho estão sendo repensadas. Isso nos dá uma chance real de ocupar a cidade de um jeito novo no futuro. Alguns exemplos pelo mundo apontam para isso, como um aeroporto que virou parque. Ele nos mostra que tudo aquilo que construímos, de forma concreta nas nossas cidades e de forma abstrata em nossos sistemas, pode ter a sua lógica e a sua estrutura reinventadas.

Ecoa traz na série O Mundo Pós-Covid-19 um grupo de especialistas que, em depoimento a jornalista Mariana Castro, contam como imaginam uma civilização pós-pandemia a partir de temas como Tecnologia, Trabalho, Educação, Ciência, Alimentação, Cidades, Novas Economias, Espiritualidade, Meio Ambiente e Comportamento. Além de desenhar possíveis cenários para o que vem depois, eles falam sobre como as escolhas de agora podem contribuir para a construção de um futuro mais desejável.

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Em São Paulo, por exemplo, dizimamos uma floresta, concretamos e poluímos nossos rios, comemos mal, olhamos para um céu cinza e temos o maior índice de ansiedade e depressão do mundo. Mas ter um design que não é orientado pela vida não é exclusividade paulistana - boa parte das cidades do planeta é assim.

O grande sintoma disso é que as principais causas de morte no mundo - acidentes, assassinatos, infartos, câncer, doenças ligadas à saúde mental ou saneamento básico - estão diretamente conectadas ao nosso estilo de vida nas cidades. Claro que um problema desse tamanho não se resolve da noite para o dia. Mas há um aspecto da nossa rotina urbana que precisou se transformar com a pandemia do novo coronavírus e que pode transformar profundamente as cidades. Estou falando da maneira como trabalhamos.

E por que isso é uma oportunidade de transformar cidades? Porque, do ponto de vista urbanístico, o trabalho é um lugar para o qual devemos nos deslocar todos os dias. Essa ideia dá forma às cidades. Esse monte de avenidas, viadutos, ônibus e linhas de trem que vemos por aí só existem porque todos nós temos que chegar até o trabalho todos os dias. No contexto de isolamento social, as estruturas que foram construídas para que possamos trabalhar e a nossa própria ideia do que é trabalho estão sendo repensadas.

Algumas profissões têm se mostrado obsoletas ou impossibilitadas de serem exercidas à distância. Outras estão sendo mais solicitadas. Há ainda novos campos de trabalho e profissões surgindo. A necessidade de movimentar toda a população de uma cidade todos os dias para que esta possa trabalhar pode ficar no passado. Isso nos dá uma chance real de ocupar a cidade de um jeito novo. E se alguns dos viadutos virassem parques? E se os térreos dos prédios corporativos fossem dedicados a feiras de produtores orgânicos e comerciantes locais? E se fosse possível descer ladeiras de tobogã ou se mover entre duas pontes da Marginal Tietê de tirolesa?

Se essas ideias parecem absurdas, apresento um lugar real no mundo chamado Templhof, na cidade de Berlim. O Templhof era um dos aeroportos mais importantes da cidade. Foi construído durante o regime nazista e, na época da Guerra Fria, em que um muro isolou a porção ocidental da cidade, esse aeroporto era vital para que ela fosse abastecida com comida, mantimentos e produtos.

Mas, após a queda do muro, ele se tornou obsoleto e, por meio de um plebiscito, a população decidiu manter a estrutura do aeroporto, mas para utilizá-la como um parque público. A antiga pista de pouso está lá, mas hoje é ocupada por ciclistas, patinadores e praticantes do curioso esporte "wind-skate", em que uma vela de windsurf é acoplada a um skate e faz a pessoa deslizar pela pista com a força do vento.

O Templhof Feld, que antes era o símbolo de uma guerra e enxergado com uma estrutura que tinha apenas uma função - movimentar pessoas em aviões - passou a simbolizar a confraternização e a possibilidade de reinvenção do uso dessa estrutura. Ele nos mostra que tudo aquilo que construímos, de forma concreta nas nossas cidades e de forma abstrata em nossos sistemas, pode ter a sua lógica e a sua estrutura reinventadas. Nada - nem um viaduto, nem uma escola, nem o sistema financeiro, nem mesmo a nossa profissão - está fadado para sempre a funcionar da mesma forma como opera hoje.

Se a nossa forma de ocupar as nossas cidades define o tipo de vida que temos nelas, essas novas possibilidades de ocupação - dos espaços, do tempo e das estruturas - podem realmente significar uma vida nova. E, com isso, um novo futuro para as cidades. Um em que a vida possa prevalecer.

  • Natália Garcia

    É jornalista, escritora e percorreu mais de 100 destinos no mundo com o projeto Cidades para Pessoas

    Imagem: Divulgação

Mundo Pós-Covid-19

Busca ao essencial

Vivemos um retiro global involuntário no qual estamos analisando nosso contexto de vida. No mundo pós-pandemia, buscaremos o que é essencial.

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+ Sobre a série

Ecoa ouviu pessoas de diferentes áreas para saber o que elas estão pensando. É um exercício para tentar dar uma cara a esse futuro que nos espera - e assusta.

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