"Me senti sujo"

Wagner Moura proporcionou banho e muito mais a crianças da África após choque por situação degradante

Bárbara Forte De Ecoa
Pablo Saborido/UOL

Michael Jackson, Lionel Richie e outros grandes nomes da música norte-americana chamaram a atenção do mundo em 1985, ao cantarem juntos "We Are The World". A canção criada com o objetivo de arrecadar fundos para o combate à fome na África foi transmitida pela televisão e mexeu com um garoto de Campo Grande (MS) que acompanhava atentamente a melodia.

We are the world (Nós somos o mundo)
We are the children (Nós somos as crianças)
We are the ones who make a brighter day (Nós somos aqueles que deixam o dia mais brilhante)
So let's start giving (Então vamos começar a doar)"

Wagner Moura tinha apenas 12 anos quando foi impactado pelas palavras. Começava ali um profundo desejo de ajudar. Vinte anos depois, o jovem com nome de ator famoso embarcaria para a sua primeira viagem a Moçambique, um dos países com o menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do mundo, com o intuito de colocar em prática a mensagem da canção de Michael Jackson.

Ao ver o enorme número de crianças órfãs por conta da epidemia de HIV e malária, ele voltou ao Brasil e começou a mobilizar amigos, familiares e conhecidos para "apadrinharem" crianças africanas. Com R$ 50 por mês de cada doador alcançado, ele conseguiu iniciar um trabalho de ajuda humanitária com 70 crianças.

Hoje, dez anos após a fundação da ONG Fraternidade sem Fronteiras (FSF), criada em novembro de 2009, 15 mil pessoas são acolhidas em seis países - Brasil, Haiti, Madagascar, Malawi, Moçambique e Senegal - e aproximadamente 20 mil padrinhos doam mensalmente para auxiliar os projetos da instituição.

No início de uma das ações, impressionado pelo fato de as crianças nunca tomarem banho, Wagner, 46, comprou um caminhão pipa e proporcionou esse momento, quando elas receberam também cuidados básicos de higiene, como remoção de piolhos e bichos-de-pé. "Eu me senti sujo e questionei a nossa humanidade."

Pablo Saborido/UOL Pablo Saborido/UOL

Rebelde com causa

Na infância e adolescência, Wagner não era do tipo que se enturmava com os jovens de sua idade. Parecia que nada fazia sentido: "Eu tinha um vazio muito grande e buscava algo que ainda não sabia o que era".

Assim como a atitude do ídolo pop, que mexeu com o pequeno sul mato-grossense, outro adulto que deu as caras na TV chamou sua atenção: Chico Xavier. "Eu me deparei com uma figura que transmitia muita paz, que vivia rodeada de gente. Gente que ele ajudava como verdadeiros irmãos sem nem ao menos conhecer."

Quando eu vi aquilo, foi como se eu estivesse diante de um espelho. Na hora, eu falei: 'É isso que eu quero para a minha vida.'"

Filho de chefe de fazenda e dona de casa, Wagner começou a trabalhar jovem. Aos 12, entrou para a Corporação dos Patrulheiros Mirins de Campo Grande, grupo que dá capacitação para o mercado de trabalho a adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Aos 13, já atuava como office boy.

"Aos 15, muito inspirado pela ação de Chico Xavier, eu saí em busca dos primeiros trabalhos sociais. Eu queria estar nos lugares mais pobres de Campo Grande. Ajudava moradores em situação de rua e famílias periféricas por meio da coleta de alimentos em feiras e arrecadamento de mantimentos."

Mas algo acontecia comigo, e o chamado continuava no coração. Havia uma dor. E, com ela, a ideia da África."

Wagner Moura

Wagner Moura, fundador da ONG Fraternidade sem Fronteiras

Chamado do coração

O jovem não entendia o motivo e chegou a se questionar: "Aqui no Brasil tem tanta gente com necessidades. Por que eu quero ir à África?",

Conhecer o outro continente era um sonho tão distante quanto a viagem até lá. Wagner não tinha vínculo familiar com ninguém nem condições financeiras para arcar com a passagem. A solução momentânea era amadurecer a ideia de continuar trabalhando - para se manter e para ajudar sua comunidade.

"Trabalhei com tudo o que você pode imaginar: de repositor de vendas a assessor parlamentar. Fui vendedor, aprendi muito sobre representação comercial, até que abri uma empresa com meu irmão. Aliamos a experiência dele, em hidráulica, elétrica e combate a incêndio, à minha, em vendas. Primeiro investimos em um negócio em Cuiabá (MT), onde ele morava, e depois eu voltei a Campo Grande, onde repliquei o modelo", explica.

Foram três anos até que ele conseguiu tirar seu primeiro pró-labore (remuneração do sócio ou dono de uma empresa) e, enfim, concluir seu objetivo: visitar Moçambique, na África.

"Em agosto de 2009, comprei uma passagem, peguei uma mochila, coloquei nas costas e fui para o lugar que pesquisei ser um dos mais pobres, que tinha o terceiro pior IDH do mundo na época. Sem conhecer ninguém. Lá eu presenciei a orfandade, a fome e a extrema miséria."

Divulgação/Fraternidade sem Fronteiras Divulgação/Fraternidade sem Fronteiras

Fraternidade sem Fronteiras

"Ao ver as necessidades das crianças de lá, pensei que, ao voltar para o Brasil, devia mobilizar amigos e familiares para fazer algo. Pensei no apadrinhamento de crianças. Mobilizei amigos, conhecidos e familiares para doar R$ 50 cada e ajudar mensalmente 70 crianças."

A ação contínua resultou, em novembro daquele ano, na criação da ONG Fraternidade sem Fronteiras. "Eu não concordava que a gente, que acredita em um Deus, por exemplo, não conseguia enxergar o outro como irmão independentemente de religião e posição geográfica. Eu me incomodava com os grupos de pessoas que trabalhavam sozinhos, querendo o melhor para si. E busquei criar um movimento sem fronteiras", explica.

O acolhimento inicial, que consistia em destinar o dinheiro recolhido para alimentação nutritiva diária, educação, cultura, saúde e higiene, foi dando certo. No início, eram 70 crianças. Hoje, apenas em Moçambique, 12 mil são amparadas em 29 centros espalhados por aldeias do país.

Anualmente também são feitas aproximadamente 20 caravanas - lá e em outros países africanos - que levam ajuda humanitária (desde saúde até a mão de obra para construir casas e perfurar poços artesianos) todo ano. Wagner, que tem três filhos adultos, vai em todas elas e passa aproximadamente dois terços do ano nos países africanos.

A iniciativa também levou três crianças amparadas pelo projeto à universidade, por meio de apoio educacional dentro da aldeia até a sexta série e depois fora dela, com o auxílio financeiro que proporcionou o pagamento do transporte até as escolas da cidade, onde elas puderam continuar os estudos. O incentivo é dado a todas as crianças que fazem parte do acolhimento.

O trabalho foi realizado exclusivamente em Moçambique até 2016, quando outras pontes foram construídas. A ONG ampliou parcerias e criou ações, alcançando, ao todo, seis países, com dez projetos e 45 polos de trabalho.

Divulgação/Fraternidade sem Fronteiras Divulgação/Fraternidade sem Fronteiras

"Eles não tomam banho"

"Em 2017, eu vi uma reportagem que dizia que as crianças de Madagascar estavam comendo cactos e tomando água empoçada da chuva. Peguei um avião e fui constatar aquilo, pois, para mim, era impossível uma situação como aquela em pleno século 21.

Cheguei a uma aldeia e logo fui rodeado por 80 pessoas. Era uma situação degradante: crianças e velhinhos desnutridos, roupas rotas, sujas e rasgadas. Fiquei tão angustiado que a única pergunta que eu consegui fazer foi: 'Quando eles tomam banho?'. E a resposta foi: 'Não tomam'. Eu voltei a perguntar, achando que não estavam me entendendo [em Madagascar a língua falada é o francês]: 'Quando eles tomam banho?'. E recebi a mesma resposta: 'Não tomam. Só quando chove'.

Lá, 20 litros de água custam o equivalente a R$ 0,50. E, quando eles têm esse dinheiro, usam para comprar água para beber, não para tomar banho. No dia seguinte, eu cheguei à aldeia com um caminhão pipa, sabão e bacia para dar banho em todas as crianças."

Na verdade, aquele ato era uma necessidade de me lavar, porque eu estava me sentindo sujo. Eu questionava a nossa humanidade. Como é que nós fomos capazes de deixar isso acontecer?"

"As crianças tomaram seus banhos, sentaram em esteiras e aguardaram suas roupas - as únicas que tinham - serem limpas. Com um grupo de voluntários, tiramos os bichos-de-pé de cada uma e fizemos curativos.

Lá, atualmente, 4,5 mil crianças recebem alimentação nutritiva por dia, têm acesso a banho, escovam os dentes, cortam os cabelos e recebem tratamento contra os piolhos em ações regulares - tudo graças ao apadrinhamento.

Mas, ali, havia outras dificuldades - ainda maiores que em Moçambique. Nas casinhas de 2 x 3 metros em que a população vivia, dormiam 12 pessoas, eu cheguei a contar. E havia centenas de pessoas nessa situação.

A gente se esforçou, então, para criar a Cidade da Fraternidade, em Ambovombe, sul da ilha de Madagascar. No ano passado, recebemos a doação de uma área de 45 mil metros quadrados, onde foram construídas 100 casas que abrigam 500 pessoas. O projeto inclui perfuração de poço artesiano, oficinas de trabalho e cultivo sustentável.

A comunidade é incentivada a perceber sua própria capacidade para a conquista da autoestima e a vivenciar valores que cultivam a paz."

Caminho da doação

A instituição atua em cinco pilares de divulgação e captação de recursos. Há a possibilidade de ser um padrinho, com doações mensais a partir de R$ 50, por meio de boleto ou cartão de crédito. Doações avulsas também podem ser realizadas por meio de depósito em conta, PayPal, PagSeguro ou transferência em conta. Nesses casos, é possível escolher para que projeto há o interesse em doar.

Ao final do mês, o dinheiro recebido pela ONG é distribuído para cada ação. Caso o doador não especifique no site para onde ele quer doar, o dinheiro vai para o projeto que tiver mais necessidade financeira no mês em questão.

Todas as ações realizadas em cada um dos seis países acolhidos pela organização podem ser acompanhadas por meio da página de transparência no site da Fraternidade sem Fronteiras.

É possível ainda ajudar comprando brindes da FSF ou atuando como voluntário na realização de eventos para captar dinheiro ou na divulgação do trabalho da instituição. A Fraternidade sem Fronteiras tem atualmente 39 funcionários fixos e mais de 3.000 voluntários, segundo estimativa de Wagner Moura.

Por fim, há ainda a realização de caravanas para as localidades atendidas. Para visitar uma das regiões, é preciso que o interessado já seja padrinho do projeto. Depois disso, ele se inscreve no site da instituição e tem acesso a todo o passo a passo para participar de uma viagem ao lado de outros voluntários. Os custos são pagos pelo voluntário. Famosos como o ator Reynaldo Gianecchini e o DJ Alok já participaram.

Divulgação/Fraternidade sem Fronteiras Divulgação/Fraternidade sem Fronteiras

Ações pelo mundo

As ações da Fraternidade sem Fronteiras tiveram início em 2009, em Moçambique, e foram migrando para outras regiões da África, para o Brasil e, mais recentemente, para o Haiti. No país caribenho, o movimento conheceu o projeto de Jean Inoclair François, refugiado haitiano que morava e trabalhava no Brasil e enviava dinheiro ao país de origem para sustentar a família e quase 200 crianças. A organização passou a apoiar os esforços humanitários e ajudou na construção da escola Escola Gnose de Village Quisqueya Hinche para alfabetizar e alimentar cerca de 500 crianças.

Conheça, a seguir, os outros dez projetos da ONG no Brasil e na África:

  • Acolher Moçambique

    Criado em 2010, acolhe mais de 12 mil crianças das aldeias moçambicanas que viviam na extrema miséria, a maioria delas órfãs de pais mortos pelo HIV. Recebem alimentação, cuidados com a saúde, orientação à higiene, participam de atividades pedagógicas, recreativas e culturais.

    Imagem: Divulgação/Fraternidade sem Fronteiras
  • Chemin du Futur - Senegal

    Estima-se que 30 mil meninos não tenham um lar em toda a região de Dakar, a capital do Senegal. Segundo a ONU, este é o maior fenômeno de crianças de rua do mundo. Para ajudar a mudar a vida desses jovens, um grupo de voluntários implantou o orfanato Chemin du Futur (Caminho para o Futuro), um lar que oferece afeto e educação. A Fraternidade sem Fronteiras apoia o projeto desde 2016, e hoje o orfanato é mantido pelos padrinhos que contribuem mensalmente com a causa.

    Imagem: Divulgação/Fraternidade sem Fronteiras
  • Microcefalia, Ciência e Amor - Campina Grande (PB)

    Crianças de Campina Grande, na Paraíba, com microcefalia recebem tratamento no Centro de Atendimento Integral das Crianças com Microcefalia, do Instituto de Pesquisa Professor Joaquim Amorim Neto. Uma equipe multidisciplinar, formada por fisioterapeutas, psicólogos e médicos, oferece às famílias a chance de melhorar o desenvolvimento das crianças. A FSF abraçou a causa, que nasceu da dedicação da médica e pesquisadora Adriana Melo, responsável pela descoberta da relação entre o zika vírus e a microcefalia, em 2017.

    Imagem: Divulgação/Fraternidade sem Fronteiras
  • Ação Madagascar

    A região vive uma das piores crises humanitárias do mundo. Desde 2017, são acolhidas aproximadamente 4,5 mil pessoas, oferecendo alimentação, água limpa e cuidados com a higiene. Foram inseridas 357 crianças na escola e, juntos, voluntários, padrinhos e apoiadores construíram a Cidade da Fraternidade.

    Imagem: Divulgação/Fraternidade sem Fronteiras
  • Orquestra Filarmônica Jovem Emmanuel - Campo Grande (MS)

    Formada em 2017 por meninos e meninas da periferia de Campo Grande. Eles têm aulas em locais parceiros do projeto, duas vezes por semana. À medida que evoluem em instrumentos como violino e flauta, passam a integrar a Orquestra. As aulas acontecem em três polos, nos bairros Jardim Tayaná, Noroeste e Centro. Atualmente são quatro professores, um monitor e 52 alunos.

    Imagem: Divulgação/Fraternidade sem Fronteiras
  • Brasil, um coração que acolhe - Boa Vista (RR)

    Desde outubro de 2017, a ONG trabalha em um centro de acolhimento onde as famílias de venezuelanos que chegam ao Brasil recebem alimentação, orientação para serviços de saúde e educação, têm aula de português e dividem responsabilidades nos cuidados com o ambiente. Enquanto estão acolhidas, cerca de 100 famílias esperam a oportunidade de recomeçar em outra cidade brasileira.

    Imagem: Divulgação/Fraternidade sem Fronteiras
  • Fraternidade na rua - Campo Grande (MS)

    O trabalho da Fraternidade sem Fronteiras em parceria com a Clínica da Alma MS visa resgatar das ruas de Campo Grande dependentes químicos que queiram deixar o vício das drogas desde 2018. O tratamento oferecido pela clínica é totalmente gratuito.

    Imagem: Divulgação/Fraternidade sem Fronteiras
  • Nação Ubuntu - Malaui

    Ao lado do Campo de Refugiados Dzaleka, em Malaui, o projeto criado em 2018 oferece educação (mais de nove mil crianças são atendidas em dez salas de aula), trabalho, saúde e melhora das condições de vida.

    Imagem: Divulgação/Fraternidade sem Fronteiras
  • Retratos de Esperança - Bahia

    A iniciativa, abraçada pela FSF em 2018, está presente em nove cidades do sertão da Bahia, construindo casas, trabalhando com reforço escolar, projeto de música e aulas de futebol.

    Imagem: Divulgação/Fraternidade sem Fronteiras
  • Jardim das Borboletas - Caculé (BA)

    Crianças que sofrem de uma doença rara chamada Epidermólise Bolhosa recebem tratamento e cuidados especiais na ONG Jardim das Borboletas em Caculé, na Bahia. A doença que atinge a pele é grave, não contagiosa e incurável, deixando feridas sensíveis até mesmo à água. A Fraternidade sem Fronteiras abraçou a iniciativa para ajudar na manutenção do trabalho. Hoje, o apadrinhamento proporciona a chance de uma melhor condição de vida por meio da compra de remédios e curativos de alto custo.

    Imagem: Divulgação/Fraternidade sem Fronteiras
Pablo Saborido/UOL Pablo Saborido/UOL

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