A raiva como força motriz

A advogada brasileira Sheila de Carvalho recebeu o prêmio de Pessoa Afro-Descendente Mais Influente da ONU

Thaís Regina Colaboração para Ecoa, de São Paulo Duda Gulman/UOL

"Tem uma questão da raiva: por muito tempo eu ficava muito brava quando alguém me chamava de raivosa. Enquanto mulher negra, já escutei muitas vezes que eu sou raivosa. Eu acho que cria-se uma figura muito prejudicial da mulher negra por trás disso, então eu ficava com muita raiva dessa expressão (risos) — falando sério, como você já parte do pressuposto que eu sou raivosa porque eu trago uma realidade que você se recusa a enxergar?

Mas como a gente pode não estar com raiva? É isso que impulsiona em mim quando eu leio Angela Davis, Juliana Borges, escuto Djonga ou assisto Olhos que Condenam. Como, passando por tudo isso que a gente passa, a gente não vai ficar com raiva? Se pessoas brancas passassem pelo que a gente passa, também teriam raiva. E a gente passa por isso há séculos. A raiva reprimida pode ser muito danosa. Eu resolvi expressar a minha raiva, transformá-la na força motriz das minhas ações.

Comecei a enxergar os benefícios da raiva, enquanto aquela chama que nos faz andar. Conheci uma escritora que trabalha muito bem o conceito de raiva, ela se chama Brittney Cooper — ela fala sobre raiva eloquente e desenvolve uma tese sobre o potencial benéfico da raiva. Faço hoje tudo que faço com muita raiva. A desigualdade, violência e privações que a gente vive não são naturais — tenho raiva sim e uso a raiva para fazer mover.

Tenho lido muito Audre Lorde e ela é uma autora que também fala sobre isso muito bem, vou ler para você: "A raiva expressa e traduzida em uma ação em favor dos nossos ideais e nosso futuro é um ato de esclarecimento que liberta e dá força. É nesse processo doloroso de tradução que identificamos quem são nossos aliados, com quem temos sérias diferenças, e quem são os nosso verdadeiros inimigos."

É uma emoção da qual precisamos tirar o melhor possível. Você pode reprimi-la ou potencializá-la, eu escolhi parar de reprimir a minha raiva e sou uma pessoa muito mais feliz desde que tomei essa decisão. Correndo o mundo com raiva, mas correndo."

Sheila de Carvalho ouve Djonga religiosamente, seus discos favoritos do rapper mineiro são "O Menino Que Queria Ser Deus" (2018) e "Ladrão" (2019) — trechos das letras ilustram os subtítulos ao longo desta reportagem. E a paixão por rap não é de hoje. A advogada brasileira premiada em 2020 pela ONU (Organização Nações Unidas) como uma das Pessoas Afro-descendentes Mais Influentes (MIPAD) começou a se conectar com a agenda de direitos humanos ainda jovem ouvindo "Diário de um Detento", sétima faixa do clássico "Sobrevivendo no Inferno (1997) do Racionais MC's, em que se remonta o Massacre do Carandiru.

"Eu tinha um sonho de Mafalda de ir para a ONU", brinca Sheila, hoje com 30 anos de idade, em referência ao quadrinho criado por Quino. "Fui fellow do alto comissariado da ONU de afrodescendentes, que se trata de uma seleção de lideranças mundiais para um processo de formação em Genebra para potencializar essas pessoas com o objetivo de que seja feita uma ação melhor na arena internacional; então, fui contemplada com essa bolsa. Por conta disso, selecionaram os fellows de destaque, que foram contempladas pelo MIPAD."

O prêmio contempla as áreas de "Negócios", "Mídia e Comunicação" e "Humanitário, Religião e Ativismo", sendo essa última categoria na qual Sheila foi premiada.

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"Chegar aqui de onde eu vim é desafiar a lei da gravidade"

Hoje, as repreendidas antes do ingresso na faculdade dizendo que direitos humanos era "defender bandido" caem na insignificância. Assim como o cenário propício para a desistência do curso de Direito no Mackenzie, onde a pauta de direitos humanos também encontrava dificuldades para crescer e a desigualdade de classes era gritante. "Eram umas 3 horas de ônibus do Campo Limpo até o Mackenzie, era um desafio pra chegar e pra voltar. Foi um choque de realidade muito forte ingressar naquele espaço com aquela convivência: o que eu ganhava em um mês com trabalho e estágio, meus colegas gastavam em um final de semana em entretenimento da elite paulistana, era uma constante divergência."

Foi também durante a experiência universitária que Sheila teve seu primeiro encontro com a Uneafro (União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora), dando aulas preparatórias para o vestibular. Hoje, além de militante, a paulistana é também advogada da Uneafro Brasil; segundo ela, tem coisas que são para ser e sua ação na Uneafro é uma delas. "Eu aprendo diariamente a militar com minhas companheiras e companheiros da Uneafro; é um espaço de construção afetiva e de conhecimento", diz Sheila. "Aprendo muito com eles e elas a ser uma pessoa melhor, a ter uma atuação mais forte e comprometida em defesa dos nossos. Eu reencontrei recentemente uma das meninas para quem dei aula há uns 5 anos, ela foi fazer Direito, falou que quis cursar porque eu fiz Direito — é muito gratificante essa troca", conta.

Das três pessoas que mais inspiram Sheila, uma delas é sua companheira de militância da Uneafro: a jornalista e colunista da Ecoa, Bianca Santana. Segundo a advogada premiada, Bianca é uma mulher que puxa outras mulheres. As outras referências são a filósofa e ativista política Angela Davis e o líder índigena Ailton Krenak. "Ele me faz pensar na historicidade, ancestralidade, na força de olhar o passado para poder enxergar o futuro, sob uma perspectiva de romper com as máquinas do sistema e construir algo com as nossas próprias mãos", diz Sheila sobre o jornalista, filósofo e ativista.

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"Coragem e coração começam com cor"

Sócia do Carvalho Siqueira Advogadas e Advogados, escritório especializado em litígio de interesse público, Sheila também faz parte do grupo Prerrogativas, o qual reúne grandes nomes da advocacia brasileira em prol de mobilização política frente aos ataques das institucionalidades que tem se desenrolado no Brasil. O marco da criação desse grupo foi o processo de impeachment de 2016, episódio do qual Sheila se lembra nitidamente. "Foi um dia muito difícil porque rompeu com tudo que a gente estava construindo, e não é necessariamente uma visão partidária, mas sobre o que a gente estava fazendo nesse processo de redemocratização do país desde 1988", desabafa, "A gente tinha estabelecido um pacto republicano entre múltiplos partidos, setores, movimentos regido por aquelas regras ali estabelecidas pela Constituição Federal, ninguém conseguiu tudo que queria, foi um acordo que a gente fez e se comprometeu enquanto sociedade para solidificar a democracia. Em 2016 esse pacto foi rompido."

Para a advogada paulistana, o dia seguinte do golpe, como ela define, foi ainda mais marcante: a atmosfera ordinária do surreal e o questionamento se era sonho ou realidade. "Sofri muito ao pensar nos caminhos que a América Latina iria ter", relembra. "Eu enxerguei esse golpe como o que poderia acontecer na região enquanto um todo — e é o que a gente tem visto nos últimos anos, um retrocesso muito grande na agenda de direitos humanos na América Latina, trata-se de um neoliberalismo com os braços dados com o fascismo, forças neonazistas. Diferentemente do que aconteceu na Bolívia esse mês de outubro, em que o golpe não foi legitimado nas urnas, o nosso golpe foi legitimado nas urnas. Isso contribuiu para o avanço de forças antagônicas a qualquer garantia de direitos humanos", completa.

Questionada sobre qual é o problema mais crítico do Brasil hoje, Sheila diz que o bolsonarismo não é um problema em si, mas uma consequência dos nossos maiores problemas. "A gente tem uma sociedade avessa à ciência e educação, intolerante e baseada em desinformações. A união desses elementos cria algo muito perigoso, que é o que a gente está vivendo e está sentado na cadeira da presidência da república hoje", dispara.

Fora isso, a forma com que o interesse privado se prevalece frente ao interesse público também preocupa quem se dedica à agenda de direitos humanos. "A gente tem desafios para brigar na constitucionalidade, como teto de gastos", comenta. "Para além, temos um problema sistêmico de violência que não é de agora, é algo que a gente carrega desde a nossa gênese, faz parte do DNA brasileiro: racismo estrutural. Se a gente vê hoje o sistema carcerário ou as vítimas de violência policial, a gente vai ver a contínua manutenção da privação de liberdade, com outras tecnologias e legalidades que permitem que isso aconteça", reflete.

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"Parece que eu to tirando, mas na real to te chamando pra ser sócio"

"É a resposta que todo mundo quer: o que a gente pode fazer para enfrentar? Por coincidência, essa semana uma pessoa pela qual eu tenho muita admiração se aposentou da política, Pepe Mujica. Há 5 anos, antes do golpe, fui atrás do Mujica em uma palestra e ele disse uma coisa que pode responder sua pergunta. A gente tinha acabado de sair de uma eleição muito complicada, era 2014, o clima estava tenso e eu estava muito desesperançosa", relembra Sheila.

A advogada conta que saiu em um sábado de madrugada, passou horas dirigindo e, enfim, pôde ouvir Mujica, que disse que existia um movimento muito forte com o objetivo de derrubar tudo aquilo que lutaram para que fosse conquistado e garantido como direito para todos. "Ele falou que esse movimento iria se fortalecer, se agravar, e que para os jovens só tinha uma receita, simples e direta, com dois ingredientes apenas: paciência e militância. Militância porque não há transformação social possível sem ação coletiva e paciência porque não tem como fazer a militância sem paciência", diz.

Sheila tatuou o antídoto no punho, um lugar fácil de olhar para que ela não se permita esquecer. "Acredito que Mujica tem razão: isso que a gente está passando não vai durar para sempre, a história é cíclica, a gente vai conseguir voltar a um estado de defesa mínima de direitos e vamos ter espaço para construir uma nova sociedade, sem racismo, machismo e LGBTfobia", declara.

Ainda assim, o baque de 2018 foi duro. Sheila conta que houve uma depressão profunda e coletiva da militância e foi o momento mais próximo que ela teve da desistência. Uma ideia era fugir para o Uruguai e vender brigadeiro. A advogada pensou que seria divertido fazer isso em uma Kombi, um sonho antigo, e se empenhou em uma pesquisa de preços para comprar o automóvel. Outra coisa que decidiu se empenhar foi o boxe, esporte pelo qual se apaixonou — em suas palavras, a eleição de Bolsonaro a fez pensar que seria importante ter uma resistência física. Mas, no ringue, aprendeu uma lição valiosa: não se pode fugir à luta.

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"Papo de futuro, papo de suor"

"Depois de muito pensar, chegou a ideia da kombativa: Kombi de luta", conta, "Juntamos um grupo de comunicadores sociais, pessoal de relações internacionais, advogados, como sempre, galera de políticas públicas, saúde, assistência social, enfim, pessoas que se reconhecem enquanto defensores de direitos humanos e vimos que mais do que uma eleição, a gente perdeu uma agenda de direitos. Vendo que muito aconteceu em uma dinâmica online, em que as pessoas se alimentaram em suas intolerâncias, entendemos que a gente precisava era sair do online e ir para o offline. Então, surgiu a ideia da kombativa ser esse café com direitos humanos: tentar fazer uma construção política afetiva."

Aos sábados, seu pai, Carlos Alberto Carvalho, dirigia a kombi pelas regiões periféricas de São Paulo; eles paravam em escolas, praças e centros culturais para discutir direitos humanos com as pessoas das comunidades. Café e bolo, preparados por Sheila, davam o tom da conversa. "Eu acho que direitos humanos não são pra mim" foi uma frase que a advogada ouviu muito, e o diagnóstico veio sem margem para erro: carência de diálogo. Sheila considera a kombativa uma ação muito importante para a sua construção política e, assim que a pandemia do novo coronavírus acabar, ela pretende retomar sua atividade, talvez sob uma nova perspectiva.

"Vai ser meu escritório de direitos humanos itinerante", conta. A ativista pretende reformar a kombi mais uma vez e, ao lado de seu pai, um defensor da agenda de direitos humanos assim como ela, continuar transitando pela cidade de São Paulo com o objetivo de prestar serviços e formar politicamente; sua bússola ainda é paciência e militância. Sheila diz que os protagonistas da luta por direitos humanos precisam ser negros, mulheres e pessoas com vivências periféricas. Segundo a advogada premiada, a raiva como estímulo e o protagonismo assegurado são fundamentais para a sobrevivência da luta — que está longe de acabar.

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