Nem herói nem coitado

Ele criou rede de educação inclusiva após ficar tetraplégico e critica a ideia de superação individual

Bárbara Forte de Ecoa
Pablo Saborido/UOL

Rodrigo Hübner Mendes, 48, falava para uma plateia de jornalistas na primeira vez em que a reportagem de Ecoa teve contato com o professor e pesquisador. A palestra tratava dos desafios da cobertura jornalística sobre educação inclusiva, área à qual Rodrigo se dedica há mais de 25 anos.

A voz suave, mas com palavras firmes, orientava sobre formas de tratar o tema sem reforçar estigmas e destacava a importância de combater um dos vícios do jornalismo: a valorização da ideia de superação individual.

A história de vida de Rodrigo poderia ser um prato cheio para essa abordagem, pois é repleta de superações: desde a luta pela vida após levar um tiro em um assalto, passando pela aceitação da tetraplegia que o deixou na cadeira de rodas, até a criação de uma organização sem fins lucrativos que já formou mais de 9 mil professores para a educação inclusiva.

Rodrigo, no entanto, faz questão de reforçar o quanto isso é limitador. "Sabe aquele pensamento de que uma pessoa que faz parte de um segmento que enfrenta dificuldades, alguém que tem uma desvantagem, pode vencer as barreiras e ser uma pessoa vitoriosa a partir do seu esforço pessoal? Ele é, nada mais, nada menos, que uma abordagem limitadora dessa pessoa. A superação individual tem, no fundo, uma relação com a ideia do herói ou do coitado, do sofredor."

Nos dois encontros que a reportagem de Ecoa teve com Rodrigo para entrevistá-lo, ficou claro que essa história só poderia ser contada a partir da perspectiva da superação coletiva, em que não há heróis ou coitados, mas sim pessoas envolvidas em construir um bem comum.

"Eu gosto do conceito de uma superação coletiva, que vai muito além dessa superação individual. A sociedade costuma criar uma certa ilusão de que, quando a pessoa superou seu impedimento, o problema está resolvido. Quando, na verdade, é mais complexo que isso. Se o entorno não mudar, a gente não cria oportunidades, não elimina obstáculos, nas atitudes, na infraestrutura e na forma de a gente se comunicar."

Pablo Saborido/UOL Pablo Saborido/UOL

Tratamento desigual

Quando tinha 24 anos, Rodrigo Hübner Mendes percebeu com a própria experiência a importância de um tratamento desigual. Ele prestou vestibular em São Paulo, e o comitê da prova disponibilizou enfermeiro, caso precisasse ir ao banheiro, e um escriba, que colocou no papel as respostas ditadas por Rodrigo. Ele então ingressou no curso de administração da FGV (Fundação Getulio Vargas).

"Eu tive um tratamento desigual em relação aos outros concorrentes. Um tratamento desigual que me permitiu adquirir a equidade de um direito: o de estudar. O princípio é antigo, vem dos gregos. Aristóteles dizia: 'Precisamos tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida da sua desigualdade'."

A ideia se mantém como uma mantra para Rodrigo, que criou o Instituto Rodrigo Mendes (IRM) no mesmo ano em que passou no vestibular, 1994. "É ali que eu e mais vinte profissionais [educadores, psicólogos e equipe administrativa] colocamos nossa energia para melhorar as perspectivas da criança com deficiência, para que ela seja incluída no ensino comum, junto aos demais."

Entre outras ações, o IRM oferece formação continuada a professores de todo o Brasil para que consigam acolher alunos com deficiência e trabalhar de forma colaborativa na escola. Por meio de aulas gratuitas presenciais, semipresenciais ou à distância, o Instituto já formou mais de 9 mil educadores, de todo o Brasil, que impactaram diretamente 265 mil estudantes.

"A inclusão contribui com uma escola melhor para todos, retrata o mundo como ele é, com as diferenças que estão presentes na sociedade. E não numa bolha que não representa o que é o nosso coletivo e nossa diversidade."

Passado e mudança de rumo

Na infância e adolescência, Rodrigo era muito ligado aos esportes. Jogava futebol e praticava remo. Foi no futebol, aliás, que teve sua primeira grande adversidade: "Aos 13 anos, levei uma pancada no joelho que me levou à mesa de cirurgia. Passei por uma operação para a retirada do menisco". Totalmente recuperado, decidiu que queria ser médico: "Fiquei encantado, fascinado com o poder do médico em ajudar a curar as pessoas".

Aos 18 anos, porém, enfrentou uma mudança drástica de percurso. Quando saía de casa em São Paulo com seu irmão mais novo, Conrado, de 13 anos, foi abordado por dois assaltantes e levou um tiro. "A bala passou perto da coluna e seu calor fez com que eu tivesse uma lesão na medula." Rodrigo ficou tetraplégico.

A família e os amigos foram decisivos para que ele conseguisse seguir em frente. "Eu tive o melhor apoio que se pode imaginar. Meus pais, Sônia e José, e meus irmãos, Fabiana e Conrado, foram essenciais para eu conseguir criar condições para que me reinventasse."

Já nessa etapa de superação coletiva, veio a vontade de retribuir. "Eu fui sentindo, desde aquele momento de dificuldade no hospital, uma grande necessidade de agradecer, de retribuir tanta coisa que eu estava recebendo. Foi muito forte."

Tomada de consciência

Em busca de alternativas de reabilitação, Rodrigo viajou para Cuba, onde ficou instalado em um centro para estrangeiros. "Meus familiares se organizaram, mais uma vez, para que eu pudesse ir para lá. Eram oito horas de fisioterapia por dia."

Nessa época, estava envolvido com a pintura, como parte do processo de reabilitação. Durante a estadia em Havana, pintou uma aquarela para Fidel Castro e conseguiu que ela fosse entregue para o então líder cubano, que, de fato, a recebeu e mandou, em agradecimento, seu livro de discursos, um cartão de visitas e uma foto para Rodrigo. Está tudo guardado como lembrança.

Depois de três meses de tratamento intenso, onde aprendeu exercícios que usa até hoje, Rodrigo decidiu colocar um ponto final na busca por independência motora. "Chegou uma hora em que falei: 'Já deu'. Eu tive uma tomada de consciência de que eu já tinha feito o que eu podia para recuperar a condição física. E que tinha chegado a hora de tocar minha vida, independentemente do que poderia vir em termos de novidades no campo da medicina."

Foi um marco. Quando voltou de Cuba, Rodrigo se desprendeu de fato do passado como esportista. "Mas minha essência continuou a mesma. Foi apenas uma percepção de que tinha chegado a hora de eu assumir aquilo."

"Durante todo o tempo, eu tive uma oportunidade maior de me conhecer. Foi uma chance de conversar, diariamente, comigo mesmo, especialmente nas fases mais críticas, nas primeiras semanas no hospital, em que eu estava sempre nessa fronteira entre a vida e a morte. As situações difíceis me deram a possibilidade de ver de forma positiva tudo pelo que passei."

Escola de artes e inclusão

O envolvimento de Rodrigo com a pintura e a vontade de devolver algo positivo à sociedade estão na origem do Instituto Rodrigo Mendes, criado oficialmente em 1994, como uma escola de artes.

"Por meio de bolsas de estudo, oferecíamos oportunidades de desenvolvimento por meio da arte a pessoas com deficiência. Nossos objetivos começaram a mudar com o avanço dos meus estudos, quando começamos a olhar para a iniciativa do instituto como algo que precisava ter uma abordagem mais profissional, planejada e estruturada."

O que Rodrigo aprendia no curso de administração de empresas ia aplicando na escola, até que decidiu ter experiência numa grande organização e passou a trabalhar em uma consultoria de origem norte-americana. "Eu nunca tinha imaginado fazer. Foi uma descoberta, eu adorei trabalhar no setor privado, foi uma superescola para mim."

Aos poucos, Rodrigo foi entendendo que a educação tinha que ser inclusiva.

"Quando a gente começou aquele curso de artes, era exclusivamente voltado à pessoa com deficiência. Mas, logo no primeiro ano de existência do instituto, eu fui assistir a uma palestra do Romeu Sassaki, um especialista em inclusão.

Pela primeira vez, eu ouvi a reflexão sobre os riscos da segregação e da necessidade de a sociedade se transformar. Rapidamente percebi que esse era o caminho mais interessante. Em 1995, abrimos o curso de artes para todo tipo de pessoa. Em 2005, a gente começou a trabalhar com a formação de educadores.

As duas coisas conviveram por um tempo, até que, em 2011, a gente decidiu encerrar o programa de artes e canalizar toda a energia a uma ação em busca de boas práticas e formação de educadores. A partir de 2012, passamos a adotar um novo modelo de operação, focado na formação continuada de professores."

Um sonho possível

"Eu tenho um mentor, um professor que conheci num curso em Harvard chamado Fernando Reimers. Ele pesquisa que tipo de educação faz sentido hoje, num mundo globalizado, integrado.

E ele diz que uma das principais competências buscadas pelas grandes organizações, pelo mundo do trabalho, é a capacidade de a gente se relacionar com quem é diferente, buscar cooperação, mediar conflitos. Essas são competências que são muito estimuladas quando a escola se propõe a trabalhar numa perspectiva inclusiva.

Essa escola com a qual a gente sonha valoriza tanto as competências cognitivas, mais tradicionais quando a gente avalia os modelos de ensino, quanto as competências socioemocionais, que estão mais relacionadas ao tipo de habilidade que hoje é buscada e tão valorizada no mercado de trabalho, na vida adulta."

A gente tem vontade de melhorar o futuro, as perspectivas de quem nasce com deficiência. Mas, ao mesmo tempo, a gente acredita que esse processo vai contribuir com uma escola melhor para todos, pois vai melhorar a qualidade da educação, um dos grandes desafios do país."

"Um dos nossos projetos, o 'Portas Abertas para a Inclusão - Educação Física', trouxe vários casos dos quais eu me lembro com muito carinho. Um deles é em Belém, no Pará. Jhonni, um menino com paralisia cerebral, estuda na escola Terezinha Souza. Ele era sempre dispensado da aula de educação física.

Então um professor que fez o nosso curso semipresencial criou uma atividade de atletismo para que todo mundo pudesse participar, permitindo a cada um escolher o jeito de participar, de forma integrada com todos os alunos. Foi a primeira vez que ele fez a aula, porque as regras foram flexibilizadas.

Ali eu vi o impacto no futuro de uma pessoa. Vi o quanto uma mudança na forma de planejar a aula, desenvolver os alunos, muda completamente a vida de uma criança."

Rodrigo Hübner Mendes é graduado em Administração de Empresas e mestre em Gestão da Diversidade Humana pela Fundação Getulio Vargas, onde atua como professor. Foi aluno do curso de Liderança e Políticas Públicas para o século 21 na Kennedy School of Government, em Harvard, EUA. Desde 2004, dirige o Instituto Rodrigo Mendes, organização sem fins lucrativos fundada por ele em 1994. Rodrigo tem um blog em Ecoa, em que fala de educação inclusiva.

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