Não podia me calar

Melhor educadora de ensino médio do Brasil acolhe jovens após perder alunos em chacina no Pará

Bárbara Forte de Ecoa
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Quando voltava para casa, a professora Lília Melo, 41, viu uma cena chocante. Nas ruas do bairro Terra Firme, em Belém (PA), havia corpos de vítimas de uma chacina. Ao todo, 11 pessoas foram mortas na periferia da capital paraense naquela noite de 2014, alvos de grupos de extermínio. Entre elas, estavam alunos seus.

O bairro fica na chamada zona vermelha e é considerado um dos mais violentos da cidade, segundo índice do Observatório de Estudos em Defesa da Juventude Negra. "Sabe quando tu voltas, que tu te sentas e pensas: quem sou eu? O que estão fazendo? O que eu posso fazer? Eu sabia que era hora de fazer algo pelo meu povo, pelos jovens pretos, indígenas e ribeirinhos dali. Eu não podia me calar", conta.

Cansada de apenas assistir às marcas deixadas pela violência, ela criou o projeto "Juventude Negra Periférica - Do Extermínio ao Protagonismo" para promover a autoestima dos alunos, uma espécie de refúgio para a dura realidade que vivem. "Extermínio não é só por bala. Extermínio é afetivo e social também", disse à reportagem de Ecoa.

Realizado em parceria com coletivos periféricos, o programa estimula a produção de conteúdos audiovisuais pelos jovens. Além disso, promove atividades de dança inspiradas no movimento hip hop, no teatro e no cinema.

A iniciativa rendeu a Lília o título de melhor educadora de ensino médio do país, em 2018, no prêmio nacional "Professores do Brasil", do MEC (Ministério da Educação). A premiação, suspensa em 2019, reconhece o trabalho de professores de escolas públicas que contribuam de forma relevante para a qualidade da educação.

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"Muita pobreza, mas muita vida!"

"Eu lembro a primeira vez que eu entrei em Terra Firme. Foi um final de tarde. Eu via a feira pulsando, as pessoas transitando. E eu disse: 'Gente, esse lugar é incrível'. Havia muitas cores. Muita pobreza, mas muita vida! Eu via vida nas pessoas, no olhar delas.

E eu falei: 'Eu quero ficar aqui, esse é o meu lugar'. Eu escolhi ficar. Mas eu só soube o que era extermínio, de fato, depois da chacina de 2014.

Até aquele dia, nossos projetos do ensino médio focavam nas lendas amazônicas. O estado em que nossa comunidade ficou, porém, nos colocou em outro lugar: na busca por nossa própria identidade, nossa raiz, nosso orgulho de ser quem somos.

Mas eu tinha outro desafio. Como é que tu vais levar esses alunos para a tradicional sala de aula e pedir atenção? Tu, enquanto professora, não podes pedir a atenção de uma pessoa que está há dois dias sem comer.

Meus alunos do projeto passam fome. Minhas meninas são estupradas pelos pais, pais biológicos. E elas voltam para casa."

Choque de realidade

O projeto em Terra Firme não é a primeira ação social protagonizada por Lília. Em 2003, ela se formou no curso de Letras e Artes na UFPA (Universidade Federal do Pará). "Saí de lá com o objetivo de trabalhar com pesquisa, mas o destino me levou à sala de aula. Primeiro na rede particular de Belém, onde trabalhei durante seis anos", diz.

Atenta ao comportamento dos alunos, a professora passou a se incomodar com uma atitude dos jovens em especial. Ela ficava espantada com o modo como as crianças lidavam com a merenda, deixando pela metade ou rejeitando. "E eram merendas gostosas, que nunca tive quando estava na escola", conta.

Determinada a conscientizar os garotos e as garotas, Lília criou o projeto "Choque de Realidade", em que colocava os alunos no ônibus e os levava até o lixão. Ali era possível ver outras crianças indo atrás do próprio alimento no aterro. "É claro que impactou a todos. Mas também é verdade que quase causou a minha demissão."

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"Do Extermínio ao Protagonismo"

"O meu choque de realidade pessoal veio em 2008, quando passei no concurso para ser professora da Seduc (Secretaria de Estado de Educação do Pará). Fui lotada para a Escola de Ensino Fundamental e Médio Brigadeiro Fontenelle, em Terra Firme. Mamãe não queria que eu fosse para lá e me disse: 'Eu não quero que tu morras'. Mas eu insisti.

Seis anos depois da minha chegada, aconteceu aquela tragédia. Fui para a internet. Conheci Sérgio Vaz, da Cooperifa. Nelson Maca, do Blacktude. Allan da Rosa, mentor da 'Pedagoginga'. Lélia Gonzalez, introdutora do 'Pretoguês'. Voltei à sala de aula, chamei meus alunos e os convidei a viajar por nossa linguagem periférica. Buscamos, juntos, coletivos culturais do nosso bairro.

Dissolvemos o muro, conectamos os movimentos à escola, e a escola aos movimentos. De repente, estávamos todos fazendo canto, teatro, cinema.

Era um refúgio para alunos que, quando voltavam às suas casas, retornavam para uma realidade dura, onde faltava (e ainda falta) tudo - comida, infraestrutura e, em alguns casos, afeto. Lares onde há violência, onde falta esperança."

Professores da vida

Lília diz ter duas grandes referências na educação. Uma delas é o educador Paulo Freire (1921 - 1997), que a inspira pela visão de mundo. A outra é sua mãe, Raimunda Barbosa, exemplo de determinação na carreira acadêmica.

Raimunda e a irmã caçula, tia de Lília, ficaram órfãs quando tinham sete e cinco anos, respectivamente. "Vovó morreu no colo de minha mãe, em estado de depressão ao ser abandonada com as duas pelo marido", conta. Depois da tragédia, as meninas ficaram na rodoviária até que uma família as pegou para criar, mas acabou separando as duas. "Foi cada uma para um lado."

No novo "lar", Raimunda aprendeu a limpar, varrer, cuidar. Mas também aprendeu a ler e nunca mais parou de estudar. Aos 16, ela saiu de lá e foi morar com o pai de Lília, Antônio Melo, um flanelinha que cursou até a terceira série do ensino fundamental. O casal teve apenas duas filhas porque Raimunda dizia que só tinha dois braços.

A mãe de Lília trabalhou como servente na Escola Estadual de Ensino Fundamental Professor João Renato Franco, onde a filha cursou as séries iniciais. Saiu de lá e voltou anos mais tarde como professora concursada. "Formada em Letras pela UFPA (Universidade Federal do Pará), ela me levava com ela às aulas, pois não tinha com quem me deixar. Eu, moleca de dez, 11 anos, ouvia literatura portuguesa, Camões", lembra Lília.

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Panteras negras

"Abril de 2018. Outra chacina. A gente perdeu um aluno de 13 anos abraçado à avó, de 63. A senhora, ao ver os milicianos chegando, encobriu o neto com o próprio corpo, achando que não atirariam nela. Eles mataram os dois e, mais à frente, uma estudante universitária de 22 anos.

A comunidade ficou em choque. 'Eles não têm limite', eu dizia. E pensei em desistir, não aguentava mais perder os meus alunos, meus vizinhos, minha comunidade, minha gente.

Foi quando eu assisti a 'Pantera Negra' no cinema [em que o super-herói e a maioria dos personagens são negros]. Aquele filme era para os meus alunos. Mas eu não tinha como levá-los. Tu não imaginas o quanto eu queria que eles tivessem aquela experiência que eu tive. Comecei uma campanha para arrecadar dinheiro nas redes. Viralizou."

Premiados

A campanha chamou atenção da imprensa, que noticiou a iniciativa. E, então, dois shoppings da cidade ofereceram ingressos para sessões do filme, com direito a pipoca e refrigerante. O transporte foi pago com o dinheiro arrecadado na internet. "Tu não imaginas a sensação de vê-los ali, pertencentes a um espaço onde alguns nunca haviam entrado. Os que entravam, em geral, iam para trabalhar, para limpar o chão", diz.

A experiência foi toda registrada. "Quando voltamos, todo mundo queria saber como tinha sido. Os meus meninos falaram com a imprensa, visitaram a UFPA", conta Lília. Para dar conta das demandas, foi preciso criar uma agenda de compromissos. Os jovens e a professora passaram até a dar palestras.

Tudo foi reunido em um documentário. "É nós por nós" é uma produção caseira, feita pelo celular, "com qualidade péssima", como diz a própria Lília. Mas ela inscreveu o documentário no concurso "Osga na Escola", uma premiação da Universidade da Amazônia, e a turma levou o troféu.

O prêmio foi assistir à obra vencedora no cinema. E lá foram os alunos e as alunas de Lília, de volta ao lugar onde haviam apreciado "Pantera Negra" para assistir a eles mesmos. "Quando chegamos lá, parecia que eles estavam num verdadeiro Oscar. Eles saíram no jornal principal, deram entrevista. Eu percebi que eles tinham os instrumentos para se desenvolver ainda mais."

Meu relato de experiência serviu como inscrição para outro concurso, o prêmio Professores do Brasil, promovido pelo MEC. Vencemos novamente! R$ 7 mil para eles comprarem câmeras e uma medalha de honra ao mérito por meu trabalho. Meu, não. Nosso!"

Professora Lília Melo

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Extermínio afetivo

"A premiação foi em Brasília. Eu estava naquele jantar chique, quando recebi um dos telefonemas mais duros da minha vida: 'Professora, o João* se matou. Ele se enforcou e se matou'.

Para tudo! Depois daquela ligação, eu não queria medalha, não queria nada. E outra ficha caiu: o extermínio não era só aquele por bala. Extermínio é afetivo e social também. Meus meninos sofrem de todas as formas. Eles são mortos todos os dias, seja por um tiro na cabeça, seja pela ausência de tudo.

Quando voltei, chamei todos para conversar, eu precisava ouvi-los. E precisava falar. 'Eu não quero que vocês se matem. A gente está lutando pela vida', eu disse para meus alunos.

É um efeito dominó. Uma galera se automutilava, estava desequilibrada. Os milicianos pareciam ter dado uma trégua na comunidade, mas os problemas dentro de casa continuavam os mesmos. A menina está aparecendo na televisão, mas volta e é abusada mais uma vez."

*O nome foi modificado para preservar a identidade do aluno

'Minha cria'

Incansável, Lília reuniu forças para, mais uma vez, fazer do drama um motor para uma realidade melhor. "O ano letivo seguinte, 2019, teria que ser diferente. Precisávamos trazer as famílias para perto, principalmente as mães, para inibir a violência que existia dentro das casas daquelas crianças", afirma.

Assim nasceu o projeto "Amor preto, minha cria'", para unir famílias e incluir os adultos em atividades de cultura, semelhantes às realizadas para os jovens. "Hoje nós temos mãe que canta a poesia escrita pela filha, temos pai que ensina o filho a desenhar. E foi por meio dessa experiência que eu descobri o cheiro de amor de mãe", conta Lília.

Em uma visita à casa de Kleberson Willian, aluno de 18 anos apelidado de KW, a professora conheceu Leidiane Moraes, de 37 anos, que cuida de KW e de outros dois filhos, Esther, 14, e Gabriel, 4.

"Dona Leidy é vendedora de tempero na feira. Quando tem um dia produtivo de trabalho, consegue R$ 7. Não tem nada na casa da família, nenhum eletrodoméstico. Eles vivem num lugar que, não diferente da maioria da população de Terra Firme, é na beira do rio. O nível se eleva, e a água vai parar na canela.

Quando eu entrei lá, eu senti um cheiro muito forte. Dona Leidy tem um pilão onde soca dois temperos para formar o que a gente chama de pimenta cominho. Quando ela me abraçou, o cheiro ficou ainda mais forte. Ela soca a pimenta de madrugada e distribui nos saquinhos. Amarra e vai vender na feira. O marido é dependente químico e fica num quarto escuro, lá, isolado.

Eu procurava uma mesa. Não tinha. Eu me perguntava como o KW estudava. A cama estava alagada porque o nível da água estava elevado. A cama era no chão, um colchão. A distância de uma tábua para outra é de três dedos, dá para ver a rua. É uma 'não casa'. Mas ali eu aprendi o que é ser mãe. Leidy vive 100% para os filhos. Ela é amiga deles, é impressionante o amor que ela dá para aquelas crianças."

Hoje, Leidiane é mais uma participante do "Amor preto, minha cria". Sempre que pode, ela acompanha KW nos encontros e também costura as camisetas que são vendidas pelo projeto, o que se torna um complemento de renda.

Mas Lília diz que vai se lembrar para sempre daquele momento. "Naquele dia, eu disse: 'Leidy, hoje eu descobri que amor de mãe tem cheiro de pimenta cominho. Eu nunca mais vou esquecer isso'."

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