Gaúcha forte da Unesco

Marlova Noleto trabalhou na antiga Febem e é a 1ª mulher a dirigir e representar a agência da ONU no Brasil

Jéssica Nascimento De Ecoa, em Brasília (DF)
Pryscilla K./UOL

Nascida no interior do Rio Grande do Sul, Marlova Jovchelovitch Noleto, de 58 anos, é a primeira mulher a ser diretora da Unesco no Brasil. Desde 2018, ela ocupa o alto cargo na agência da ONU (Organização das Nações Unidas) voltada a contribuir para a paz e segurança no mundo mediante a educação, a ciência e a cultura. Além de dirigir o escritório em Brasília, Marlova foi nomeada Representante da Unesco no Brasil em um momento em que a organização também é dirigida por uma mulher, Audrey Azoulay.

É com brilho nos olhos que a gaúcha de 1,70 m de altura, olhos azuis e sotaque típico do RS fala do trabalho que desenvolve. "O posto de representante tem o status de chefe de missão. É um cargo que executo com muita responsabilidade e amor."

Já são 20 anos de atuação na organização, porém o envolvimento de Marlova com o bem-estar social é muito mais antigo. Graduada em 1984 em Serviço Social e mestre na mesma área, trabalhou na antiga Febem, foi presidente do Conselho Nacional de Assistência Social e atuou fortemente para a aprovação da Lei Orgânica da Assistência Social, que permitiu que a assistência social passasse a ser considerada um direito do cidadão e um dever do Estado, e não mais uma caridade ou um favor.

Fala cinco línguas, tem vários passaportes carimbados e, apesar de conhecer e conviver com autoridades mundiais, mantém a essência da simplicidade: "Gosto de conversar com todo mundo. Tenho papo tanto com quem encontro no dia a dia quanto com um Sheiki de Dubai". E realmente tem! Mesmo com o tempo curto, Marlova recebeu a reportagem de Ecoa no escritório da organização em Brasília, dias antes de viajar para a Conferência Geral da Unesco, que acontece neste momento em Paris.

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Destino traçado

Marlova nasceu em 16 de junho de 1961, em Uruguaiana — município situado no extremo oeste do estado do Rio Grande do Sul, junto à fronteira fluvial com a Argentina e o Uruguai. Filha de um médico e de uma bibliotecária, diz que já sabia do seu destino aos sete anos de idade, quando a avó perguntou o que ela gostaria de fazer quando fosse adulta. "Respondi que, a cada dia, queria uma coisa. Ou seja: não mudei. Sou assim até hoje."

O lugar onde você nasce, cresce e mora te condiciona a um destino. Esse foi o meu, entende? Uma jovem que morava no interior, apaixonada por livros, crianças e que sonhava com toda a diversidade que a ONU traz."

Aos 17 anos, Marlova chegou a cursar Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mas foi no curso de Serviço Social que a jovem encontrou seu caminho. Aos 23 anos, ela concluiu a graduação na PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica), onde ainda fez mestrado e deu aulas por dez anos. Estudando também no exterior, em programas de combate à pobreza e políticas sociais, construiu uma carreira voltada à luta contra as desigualdades sociais.

Plantões na Febem

O primeiro trabalho em assistência social foi na antiga Febem (Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor), no RS, atualmente Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (o equivalente à Fundação Casa). A então estagiária torcia para fazer os plantões na instituição, trabalho que costumava não agradar aos colegas.

"Os plantões eram bem tensos, a gente via de tudo por lá. Inclusive mães entregando filhos que cometiam pequeno delitos, como furtos ou uso de drogas, para o juiz, na vigência do Código de Menores, antes do Estatuto da Criança e do Adolescente. Diziam que não aguentavam mais, já que muitas vezes estavam sozinhas ou os maridos eram alcoolistas. O plantão na Febem era como em um hospital: você tinha que pensar rápido, a situação era no limite. Atitudes transformadoras salvavam vidas. Por isso eu amava aquilo. É a chave da profissão."

Marlova trabalhou na Febem durante quatro anos. Nesse período, cresceu e aprendeu muito sobre a profissão. Porém sentiu mais ainda o peso da desigualdade, o que considera o maior problema do país.

É necessário entender que a desigualdade cobra um preço enorme na vida de alguém. Duas pessoas que nasceram em famílias de condições socioeconômicas diferentes não vão ter a mesma chance de atingir plenamente o futuro que escolher. Não dá para comparar."

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Trabalho na ONU

A entrada na Organização das Nações Unidas aconteceu em 1997, no Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), onde Marlova atuava como oficial de Políticas Públicas e Direitos da Infância e Juventude. Dois anos depois, ingressou na Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), como oficial de projetos, passando depois aos postos de coordenadora, diretora da área programática, diretora-adjunta e, desde 2018, diretora e representante da Unesco no Brasil.

A dupla nacionalidade (brasileira e romena, pois os avós maternos vieram da Romênia para o Brasil) abriu caminho para aplicar para o posto de Representante, uma vez que a agência não tem o hábito de escolher para um escritório autoridades com origem no mesmo país. Foi escolhida após um longo processo seletivo.

Na prática, isso significa atuar de forma diplomática junto aos governos municipais, estaduais e federal, visando à construção de políticas públicas. "O posto de representante equivale ao grau de embaixador ou embaixadora, e a responsabilidade da direção é responder pelo programa da Unesco no país alinhado com as prioridades do Brasil e da organização."

Minha passagem pela Febem e tudo que fiz na minha vida profissional foram fundamentais para minha entrada no Unicef e depois na Unesco."

A Unesco é uma agência especializada da ONU que atua junto aos governos dos 193 países membros para buscar soluções para os problemas que desafiam as sociedades e, assim, garantir a paz mundial por meio da cooperação intelectual entre as nações.

"Comecei na área de ciências humanas e sociais, responsável por todos os projetos de desenvolvimento social, combate à pobreza, combate ao racismo e à desigualdade racial, empoderamento de pessoas e grupos vulneráveis, prevenção da violência, juventude e também do programa cultura de paz e de toda a área de esporte", conta Marlova.

A cada dois anos, os países membros se reúnem. Em 2019, a Conferência Geral da Unesco acontece de 12 a 27 de novembro na sede da organização, em Paris, na França.

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LOAS: Uma importante conquista

A atuação de Marlova contra as desigualdades sociais tem como foco as políticas públicas, para a garantia de direitos. E um momento dessa trajetória foi especialmente marcante: a aprovação da Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS).

Aprovada pelo Congresso Nacional em 1993, a lei número 8.742 representa uma grande conquista brasileira, pois regulamenta a política de assistência social, que protege a maternidade, a infância, os idosos. "A LOAS garante que a assistência social é um direito do cidadão e um dever do Estado. Portanto a política de assistência social no Brasil deixa de ser centrada na caridade e no favor para se tornar um direito", explica Marlova.

Nessa época, ela trabalhava como coordenadora da Unidade de Assistência Social e Cidadania da Federação das Associações de Municípios do RS (FAMURS) e atuou intensamente junto a outros órgãos de serviço social e representantes da sociedade para ajudar a aprovar a lei.

A aprovação da LOAS trouxe uma transformação muito profunda para a política de assistência social, que ficava muito no campo do 'primeiro-damismo', em que as primeiras-damas atuavam muitas vezes de maneira clientelista e assistencialista."

"Então a existência da Lei Orgânica da Assistência Social, regulamentando os artigos 203 e 204 da Constituição Federal, trouxe essa transformação profunda e sobretudo o reconhecimento da assistência social como um direito do cidadão."

A LOAS também é responsável pelo Benefício de Prestação Continuada (BPC), um auxílio de renda no valor de um salário mínimo para pessoas com deficiência de qualquer idade ou para idosos com 65 anos ou mais que apresentem impedimentos de longo prazo, de natureza física, mental, intelectual ou sensorial.

Luciana Whitaker/Folhapress Luciana Whitaker/Folhapress

Memória especial

A atuação pela aprovação da LOAS também possibilitou um encontro que marcou Marlova para sempre. Uma foto de arquivo localizada pela reportagem mostra a assistente social, há 26 anos, com o sociólogo Herbert José de Sousa, o Betinho, ativista dos direitos humanos. A imagem trouxe boas memórias.

Eu conheci o Betinho em 1993, junto com o Dom Mauro Morelli, que era do Conselho de Segurança Alimentar, durante a campanha de Combate à Fome. Essa foto traz memórias maravilhosas desse homem especial, que, na minha opinião, foi muito iluminado."

"Eu participava do Comitê de Combate à Fome no Rio Grande do Sul, representando a Federação de Municípios do Rio Grande do Sul. Depois, assumi a Presidência do Conselho Nacional de Assistência Social e essa fotografia é de um grande debate sobre a Política de Assistência Social na vigência da LOAS, a Lei Orgânica da Assistência Social, que foi aprovada em dezembro de 1993."

Marlova conta que tinha uma ótima relação com Betinho e com Dom Mauro Morelli. "Eles fizeram um trabalho muito bonito voltado para o combate à fome."

Aprendi muito com ele sobre resiliência, determinação, perseverança, e sobre o compromisso com um mundo melhor para todos. Betinho foi uma pessoa que sempre me inspirou muito."

Na época desse debate, Marlova ocupava a Presidência do Conselho Nacional de Assistência Social. "Lembro que, no dia, falávamos sobre a importância de a Política de Assistência Social finalmente ser reconhecida em um estatuto legal."

Betinho tornou-se símbolo de cidadania no Brasil pela campanha de combate à fome. Hemofílico, era portador do vírus HIV e morreu em agosto de 1997, aos 61 anos, em consequência de hepatite C, contraída em uma transfusão de sangue.

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Mulher no mercado de trabalho

Com o título de primeira mulher a ser diretora da Unesco no Brasil, Marlova comparou a atuação feminina a uma maratona quando questionada sobre o machismo no mercado de trabalho. Acrescentou que ser mulher é correr obstáculos, enfrentar medos e seguir em frente.

Nunca é simples ser mulher. A sociedade sempre coloca a gente em um determinado lugar. Se você é casada, esperam que você seja dona de casa. Se é mãe, que fique cuidando apenas do filho. Essa divisão não é justa."

"Não posso me queixar, porque meu marido é zero machista. Sempre me estimulou a trabalhar, me deu espaço, ficou com nossa filha, Laura, que hoje tem 18 anos, todas as vezes em que precisei viajar a trabalho, e foram muitas."

Porém, no trabalho, a própria Marlova já passou por várias situações de "mansplaining" - termo usado quando um homem se dedica a explicar algo óbvio a uma mulher, de forma didática, como se ela não fosse capaz de entender. O termo é uma junção de "man" (homem) e "explaining" (explicar).

"Homens lidam mal com hierarquia. Isso é histórico e dados comprovam que, na maioria das vezes, ganhamos menos que os homens. Até em cargo maiores, né? Apesar dessas situações, principalmente mansplaining, segui adiante e trabalhei muito para chegar aonde estou. Nunca foi sorte. Foi esforço e muita garra."

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"Gosto de gente"

Apesar do currículo extenso e inspirador, Marlova ficou em silêncio durante alguns segundos quando lhe foi perguntado: "Qual a sua diferença no mundo? O que você vai deixar de legado?". Após um suspiro e a surpresa com o questionamento, disse: "Ninguém nunca me perguntou isso. Mas todas as coisas que faço quero que alegrem o coração e jamais o ego."

Com os olhos marejados, a diretora contou que foi ensinada desde pequena pelos pais a tratar todas as pessoas igualmente e que procura fazer no mundo a mudança que gostaria de ver nele.

O meu compromisso é ser coerente comigo mesma. É genuíno. Não faço para causar boa impressão nem ser admirada."

Acostumada a lidar com representantes mundiais, Marlova não se esquiva: "São pessoas como quaisquer outras. Aprendo muito com elas. Mas, quando entro em um táxi, também descubro uma sabedoria incrível. É tanta história. Gosto de gente, gosto de conhecer as histórias. As pessoas não são invisíveis, pelo contrário, sempre temos muito a aprender e descobrir com elas".

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