Amazônia Real

Elaíze Farias vai direto ao ponto: "Não se deixa de ser indígena por usar celular. É estratégia de combate"

Paula Rodrigues e Fred Di Giacomo de Ecoa, em São Paulo (SP) Juliana Pesqueira

Quando criamos a Amazônia Real, foi para ter uma agência jornalística que reafirma a importância das populações tradicionais e do meio ambiente, sem fazer divisão entre os dois. Porque não adianta falar só sobre biodiversidade ou só sobre animal quando, na verdade, está tudo conectado: a floresta, o rio, a população, a população de bichos.

Queríamos dar o espaço que esses assuntos precisam e merecem. Eu hoje vejo nas coberturas jornalísticas da imprensa tradicional muita desigualdade de tratamento. Sobretudo às populações indígenas, que são tratadas de uma forma muito estigmatizada, folclórica e de um jeito distanciado.

Então, o que a gente busca na Amazônia Real é estruturar no jornalismo essas visões de mundo dos povos tradicionais, de indígenas, quilombolas e ribeirinhos. Porque a gente sabe que eles querem falar sobre as realidades deles. Eles querem, necessitam, precisam falar sobre isso. (Elaíze Farias)

Gosto por contar histórias

Jornalistas não costumam apreciar virar notícia. Talvez por isso, e já calejada em ouvir e escrever histórias alheias, Elaíze Farias sugere um caminho que este texto sobre sua vida pode seguir:

"Pode botar que eu sou gateira, que eu amo os gatos, amo os bichos e a natureza", diz a editora e repórter, cercada por felinos, alguns batizados em homenagem às suas paixões literárias: Italo (Calvino), Virginia (Woolf), Dorothy (Parker). Ou: "Diz que sou fã de carteirinha de Asterix. Que meu gosto musical vai de carimbó a rock indie."

Fã de Radiohead e Galaxie 500, Elaíze acredita que damos muita importância em medir nossa vida pela idade e prefere contá-la a partir de momentos que viveu dentro do jornalismo. Afiada nas pautas e no faro jornalístico, já reportou o mundo nos jornais "A Crítica" e "Diário do Amazonas", mas o que faz seus olhos brilharem é falar da Amazônia Real, um marco na cobertura jornalística que se faz da Amazônia no Brasil e no mundo.

"A Amazônia Real exerce um papel vital em dar suporte aos jornalistas da região. Não é todo mundo que está disposto a enfrentar políticos, grandes empresários, fazendeiros, madeireiros locais que patrocinam uma política de desenvolvimento retrógrada na Amazônia", diz Fabio Pontes, jornalista da rede Amazônia Real e "acryano do pé rachado", como se define.

A agência de jornalismo investigativo e independente foi fundada por Elaíze e Kátia Brasil em 2013, mas o vício por contar histórias brotou antes. Nascida e criada até os 17 anos em Parintins (AM), Elaíze pegava emprestado livros da biblioteca de sua escola. Além dos autores que batizam seus gatos, ela tem carinho pelos contos de terror e fantasia, como os dos estadunidenses H.P. Lovecraft e Edgar Allan Poe. Mas o horror cósmico do criador do mito do Cthulhu não explica essa predileção. Elaíze tomou gosto pelas histórias de assombração, ou "visagismo", com a avó materna.

Na infância, deixava de dormir na casa da mãe para poder ficar na da avó conhecendo as histórias que a matriarca contava. Passava o tempo lá ouvindo ela contar sobre assombrações e personagens da cosmovisão ribeirinha e indígena, sobretudo as do baixo Amazonas porque a família materna é do povo Sateré-Mawé.

"Então, acho que isso me trouxe muito esse gosto por contar histórias. Quando era criança, eu contava sobre muitas coisas e inventava também."

Juliana Pesqueira/UOL Juliana Pesqueira/UOL

Lá, onde o Sudeste não chega

Perguntamos a Elaíze de quais reportagens mais se orgulha, ela cita várias. "Tem uma que fiz na comunidade quilombola do Tambor, que fica no rio Jaú, dento do Parque Nacional do Jaú, uma unidade de conservação federal criada há 40 anos. Acho que fui a primeira jornalista a ir no Tambor. Existe um apagamento da população negra no Amazonas. Até hoje essa comunidade não foi titulada pelo Incra".

O investimento em deslocamento pela região Amazônica, que é muito caro, como destaca o repórter Fábio Pontes, garante a Elaíze e sua agência estar em lugares onde a "imprensa tradicional", muito centrada no Sudeste, não chega.

"Produzindo matérias como essas, procurei dar relevância e visibilidade a realidades pouco conhecidas. Mas não apenas isso. Tem sido uma troca.
Elas me permitem conhecer e compreender seres humanos e não humanos, comunidades e territórios que possuem vivências próprias, diferentes visões humanistas e lógicas e códigos. É preciso reconhecer e compreender as experiências e as práticas destas identidades coletivas. Mesmo tendo nascido, morado a vida toda na Amazônia, eu descubro uma realidade nova. O que prova que toda sociedade, toda região é heterogênea.", diz Elaíze.

Mas nem sempre foi assim. Ela começou na "imprensa local", como diz, escrevendo sobre cultura e cidades, falando sobre desabamentos de terra, enchentes e percalços pela capital Manaus. Em paralelo, tentava emplacar histórias relacionadas a povos indígenas e questões ambientais. Dois assuntos sempre considerados secundários em jornais da época.

"Era muito menosprezado e até hoje é. Sempre vistos como assuntos secundários. Mas eu insistia nessas pautas, o que não era fácil porque ouvi muito que eram 'matérias de índio', essas coisas", conta. Para ela, o problema está nessa forma muito distanciada e estereotipada de olhar para as histórias da população indígena, o que em sua opinião ajudou a reforçar o estereótipo do indígena como folclore, remetendo a algo ancestral. "Porque se aparecer um indígena de celular, não é mais indígena. Como se fosse algo incomum. E, não, ele não deixa de ser indígena porque es usando um celular. Na verdade, essa é uma outra estratégia de sobrevivência e de combate."

Por isso, junto à jornalista Kátia Brasil, fundou a agência de jornalismo Amazônia Real. A ideia de criar um novo veículo de imprensa surgiu por necessidade — as duas jornalistas tinham ficado desempregadas —, mas também da vontade de apresentar uma versão mais real do que acontecia na região Norte do país.

Sobreviver, do ponto de vista financeiro, em meio a todas essas pressões não é fácil. A Amazônia Real é essa nossa válvula de escape para mostrarmos a realidade local de forma independente e livre destas interferências econômicas. O jornalismo na Amazônia ainda é muito carente deste tipo de apoio. Por isso temos pouquíssimos jornalistas daqui falando sobre meio ambiente, desmatamento e questões indígenas. Não fosse o apoio da Amazônia Real certamente eu não teria condições de fazer o trabalho que faço desde o Acre.

Fabio Pontes, jornalista da rede Amazônia Real

Juliana Pesqueira/UOL Juliana Pesqueira/UOL

Plantando novos repórteres

Elaíze e Kátia passaram um ano estruturando a agência de jornalismo, que viria a estrear em outubro de 2013. A escolha do nome não foi em vão. Em homenagem à literatura de Euclides da Cunha e de Daniel Piza, e das fotografias de Alberto César Araújo e Pedro Martinelli, queriam transmitir a realidade das pessoas, dos animais e do meio em que viviam.

Apesar de terem alcançado leitores em 160 países — sendo inclusive vencedoras do Prêmio Rei da Espanha de Meio de Comunicação de Maior Destaque da Ibero-América —, a maior dificuldade está em chegar em quem vive mais próximo.

"Claro que isso passa por todo um processo de interferência colonizadora. Aqui, se eu falar que a BR-319, rodovia que liga Manaus a Porto Velho, causa um grande impacto na floresta e nas populações ao redor, os empresários vão dizer que estamos atrapalhando o progresso, que somos contra o desenvolvimento. E as populações acabam repetindo esse discurso", diz Farias.

Nos últimos anos, outra preocupação de Elaíze, e de quem trabalha na Amazônia Real — cujo modelo de negócios é baseado em agências financiadoras, entre elas a Fundação Ford — têm sido a promoção de oficinas de comunicação para populações tradicionais. Em 2018, a experiência aconteceu com meninas indígenas. Em 2019, foi a vez dos garotos indígenas.

As atividades só não puderam ter continuidade por causa da pandemia, que além de inviabilizar os encontros presenciais, também exigiu mais atenção para o que vinha acontecendo no contexto urbano da capital do Amazonas: "Sobretudo as populações indígenas de Manaus vivem muitos problemas com a falta de atendimento médico e estrutura de saúde. Até mesmo a questão da vacina, já que nenhum indígena em contexto urbano foi considerado grupo prioritário, a não ser pela idade ou se tivesse alguma comorbidade. Só porque hoje vivem na cidade, parece que deixaram de ser indígenas."

Juliana Pesqueira/UOL Juliana Pesqueira/UOL

Conhecer a si enquanto escuta o outro

Por causa do jornalismo, Elaíze teve oportunidade de presenciar e escrever o que viu e ouviu em momentos históricos como nos 20 anos de homologação da Terra Indígena Yanomami, em 2012. Mesmo assim, diz que não conseguiu ver de tudo na Amazônia. Seria impossível.

"Quando alguém fala que conheceu a Amazônia, que foi para a Amazônia, eu já fico desconfiada. Para qual parte? Eu sempre falo que aqui não é homogêneo: o que acontece lá no Rio Branco não acontece no Alto Solimões."

Este ano, Elaíze fez parte da curadoria de Ecoa por três meses, trazendo boas histórias que escapavam do nosso radar sudestino e nos fazendo lembrar que "todo jornalismo é regional", que "toda mídia é local"; não só o que se faz fora do eixo Rio - São Paulo.

Cobrindo essas histórias, a jornalista se aproximou de suas origens indígenas e ribeirinhas. Quando saiu de Parintins para morar em Manaus, foi preciso deixar de lado quem era por causa do preconceito vivido na cidade. Riam do seu sotaque mais chiado e das palavras característico do baixo Amazonas que usava. Pela pouca idade, diz que acabou disfarçando e silenciando traços de sua vida que remetiam às suas raízes.

Eu resgatei quem eu era quando voltei a trabalhar em uma redação jornalística. Passei a me aproximar do que antes eu tinha me afastado, como as lembranças da minha avó. E entrevistar tantas pessoas ao longo desses anos me ajudou a buscar minha própria reafirmação étnica e cultural. Passei a ouvir muitos indígenas e conhecer a própria diversidade do local onde nasci e moro. Isso me ajudou muito a saber mais sobre a minha origem, minha trajetória, a natureza do meu trabalho e da minha existência.

Elaíze Farias, jornalista cofundadora da agência Amazônia Real

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