Dona da Feira Preta

Como Adriana Barbosa superou demissão e reverteu a lógica da "grana preta em bolsos brancos"

Paula Rodrigues de Ecoa, em São Paulo (SP)
Pablo Saborido/UOL

Senta e chora. É o que a empreendedora social Adriana Barbosa faz enquanto segura a filha de dois anos no colo. No chão da kitnet recém alugada no bairro da República, em São Paulo, ela está imóvel. A dívida de R$ 200 mil pesa na conta bancária. Só levanta tempos depois porque a vida precisa continuar. Seca as lágrimas, arruma a filha para a escola e checa as mensagens que recebeu no celular. Uma delas transforma lágrimas em riso. Parecia piada. "Você vai conhecer o Obama!", dizia uma amiga. A mesma Adriana, que minutos atrás não tinha dinheiro para comer, acabava de ser convidada para ir até Nova York jantar com o ex-presidente dos Estados Unidos.

Dois anos depois dessa cena, agora em 2019, ela explica a situação. O convite veio por conta de outro grande acontecimento: em 2017, foi eleita uma das 51 pessoas negras mais influentes do mundo pela Mipad (Most Influential People of African Descendent, ou Pessoas de Descendência Africana Mais Influentes do Mundo, em tradução livre). De brasileiros, só ela, a atriz Taís Araújo e o ator Lázaro Ramos configuraram a lista.

O motivo? Adriana criou um dos maiores eventos de empreendedorismo e cultura negra da América Latina. Na Feira Preta, que desde 2002 acontece todo final de ano em São Paulo, ela reúne empreendedores e artistas negros de todo o Brasil, com o intuito de gerar renda para a própria população negra. Agora já na 18ª edição, a Feira atingiu números grandiosos: foram 700 pessoas expondo e vendendo produtos, 600 performances artísticas, 120 mil visitantes e R$ 4 milhões circulando nos negócios.

"Sevirologia"

Entre tropeços que causaram a dívida alta e os reconhecimentos — como o Troféu Grão, do Prêmio Empreendedor Social, e o Prêmio Claudia, ambos conquistados neste mês de novembro pela criação de negócios que geram impacto social —, a história de Adriana Barbosa, 42, é traçada com estudo, escuta, vontade de aprender e de tentar ajudar a resolver problemas raciais, sociais e econômicos.

Mas também por meio de muita "sevirologia", como ela gosta de descrever a arte ancestral de conseguir se virar com o que se tem, de sempre arrumar um jeito para viver quando pouco se tem para isso.

A história do negro escravizado aqui no Brasil após a abolição da escravatura é baseada em empreender para conseguir sobreviver. Depois descobrimos que temos potencial para isso, mas começa mesmo por necessidade. Na minha vida foi a mesma coisa."

Pablo Saborido/UOL Pablo Saborido/UOL

Grana preta em bolsos brancos

A Feira Preta nasceu quando Adriana tentava encontrar uma resposta para a seguinte pergunta: se mãos pretas produzem, por que o dinheiro vai parar no bolso de pessoas brancas? A indagação veio após observar a movimentação da renda gerada por festas de cultura negra na capital paulista.

"No começo dos anos 2000, eu frequentei muito baile black na Vila Madalena. Era maravilhoso ver todo mundo muito produzido, se divertindo, dançando? O problema era quando a noite terminava."

Geralmente, quem organizava as festas eram pessoas brancas e, no final, eram elas que tinham o dinheiro. Enquanto nós, pretos, na maioria dos casos, voltávamos para a rotina de nos virar com pouco."

Na mesma época, Adriana foi demitida do emprego em uma gravadora de música. Para conseguir ter renda, virou expositora em feiras alternativas que já aconteciam por São Paulo. Passou a vender as próprias roupas e, assim, montou um brechó que levava de evento em evento. Percorreu a cidade carregando a estrutura de ferro da barraca nas costas e contando o dinheiro para as passagens de ônibus.

Mesmo dentro dessas feiras, o incômodo continuava: a maioria dos expositores e organizadores eram brancos. O público que frequentava também. Tentar disputar espaço com negócios brancos tornou-se rotina. Porém os poucos negros que vendiam produtos ou serviços nos eventos se tornaram parte fundamental para a realização do que viria a ser a Feira Preta.

"Sempre tinha um ou dois nessas feiras e eu aproveitava para pegar os contatos deles. Assim eu fui mapeando os empreendedores negros. Quando decidi fazer a primeira edição da Feira Preta, chamei todos eles para participar."

De negros para negros

A ideia de criar uma feira de pessoas negras e para pessoas negras começou a ser estruturada. Logo Adriana, que é graduada em gestão de eventos e pós-graduada em gestão cultural, percebeu que precisava de parceiros para fazer a Feira Preta acontecer. Foi bater na Prefeitura de São Paulo. Assim conseguiu o primeiro apoio para realizar o evento: o espaço da praça Benedito Calixto, em Pinheiros, geradores de energia e banheiros químicos.

A primeira parceria financeira veio pela Unilever. Em 2002, a empresa lançou o primeiro sabonete para pele preta da marca. Aproveitando a deixa, Adriana pensou que seria fácil vender a ideia do evento para eles. De início, encontrou desconfiança. A companhia tinha medo de investir na proposta por ser algo que ninguém tinha feito antes.

"Minha resposta para eles foi: 'Mas e vocês? Já venderam sabonete para pessoas negras antes? Também não. Então vamos descobrir juntos'". E, assim, conseguiu pouco mais de R$ 3 mil e ajuda para divulgar o evento.

Cinco mil pessoas apareceram para conhecer e comprar os produtos e serviços dos 40 expositores. Um lucro de R$ 15 mil. Na terceira edição, o público pulou para 14 mil. O crescimento constante da Feira Preta só parou em 2016, na 15ª edição, quando Adriana esperava receber 20 mil pessoas, mas só 5 mil compareceram.

Ali eu perdi o chão e ganhei uma dívida de R$ 200 mil. Eu não entendi o que aconteceu. Eu tinha feito tudo como tinha feito antes. Só depois caiu a ficha que o problema era justamente esse: eu estava fazendo tudo como antes."

Pablo Saborido/UOL Pablo Saborido/UOL

"Por que a Feira Preta deveria continuar?"

Entre 2012 e 2018, o número de pessoas que se autodeclaram pretas aumentou no Brasil, segundo o IBGE. Sete anos atrás, 7,4% se dizia preta. Já no ano passado, o índice foi para 9,3%. Para Adriana, ela errou em não prestar atenção justamente no que o crescimento desse dado queria dizer.

No início da Feira Preta, mais do que fazer o dinheiro girar em torno da comunidade negra, a intenção era contar sobre a existência dessa comunidade para pessoas que não se reconheciam como parte dela. Adriana diz que o problema foi não perceber que, com o avanço das discussões relacionadas à negritude, as demandas tornaram-se outras.

Em 2002, as pessoas frequentavam a Feira Preta e ainda se assustavam quando ouviam a gente falar que ter cabelo crespo era bonito. Em 2016, elas já sabiam disso, já tinham passado por transição capilar, iam com cabelo black solto? As coisas foram mudando."

O prejuízo transformou a vida de Adriana, que precisou mudar para uma kitnet, tirou a filha de uma escola particular e colocou em uma pública, além de contar com a ajuda de outras pessoas para conseguir se sustentar. "Foi nesse momento que eu passei a me questionar: por que a Feira Preta deveria continuar existindo?"

Por isso, em 2017, quando recebeu a notícia de que estava entre as 51 pessoas negras mais influentes do mundo pela Mipad e, por consequência, foi convidada para ir até Nova York conhecer Barack Obama cogitou não ir.

Na hora, comentou sobre a premiação com uma amiga e seguiu a vida. Quando voltou a pegar o celular, se deparou com um financiamento coletivo on-line, criado por amigas dela para arrecadar dinheiro para Adriana realizar a viagem.

Pablo Saborido/UOL Pablo Saborido/UOL

Não viu Obama, mas recuperou a garra

A vaquinha atingiu R$ 10 mil e, assim, Adriana embarcou em um avião para representar o Brasil, junto com a atriz Taís Araújo e o ator Lázaro Ramos, no evento que reuniu personalidades influentes de todo o mundo. No final das contas, Obama não apareceu. Mas a experiência foi o que motivou a continuidade da Feira Preta.

Lá eu compartilhava a ideia do evento com as pessoas e elas ficavam encantadas. Ali lembrei da responsabilidade que eu tinha. Lembrei de todos que estavam comigo e da importância de eventos como a Feira Preta para pessoas negras. Só precisava pensar em outros jeitos de fazer acontecer."

Adriana voltou da viagem, começou a marcar inúmeros cafés, almoços e jantares com diversas pessoas. De amigos próximos até donos de empresas grandes, a ideia era ouvir todo mundo. Só ouvir. Adriana queria entender como se reconectar com o público, queria aprender. Queria saber como melhorar e trazer o público de volta para o evento.

Assim, reestruturou a Feira Preta com novas discussões em torno da negritude, com palestras, debates e também parou de cobrar ingressos de quem a visita, para tornar mais acessível para todos. Deu certo: na edição seguinte, 27 mil pessoas apareceram. Já a última edição, no ano passado, teve recorde de público. Cinquenta mil pessoas fizeram parte da Feira Preta, com circulação de renda de R$ 700 mil.

A Feira Preta nasceu para conscientizar. A gente não fala só sobre dinheiro, só sobre autoestima... Todas essas coisas fazem parte de um processo de fortalecimento identitário da população negra."

Adriana Barbosa

Eduardo Anizelli/Folhapress Eduardo Anizelli/Folhapress

Feira preta demais

Adriana Barbosa foi a única pessoa negra indicada ao Prêmio Empreendedor Social, realizado no início deste mês. Ela disputou a categoria Troféu Grão, que premia líderes que usam o empreendedorismo para gerar um grande impacto social, e ganhou. Para além da Feira Preta, o reconhecimento veio porque este ano ela criou o PretaHub, uma aceleradora que ajuda empreendimentos idealizados por pessoas negras. Uma semana depois, Adriana também foi a vencedora do Prêmio Cláudia na categoria Empreendedorismo e Negócios.

Mesmo assim, além de estar grata por todo o reconhecimento e por ter quase finalizado o pagamento da dívida, ela se diz "frustrada pra caramba". Depois de todos os prêmios e os quase 20 anos de experiência com empreendedorismo social, ainda enfrenta os mesmos problemas que enfrentava na primeira edição da Feira Preta.

"Este ano o evento acontece nos dias 7 e 8 de dezembro. Eu só consegui um lugar para realizá-lo um mês antes. Fiquei meses e meses tentando arrumar algum espaço. Fora que não temos parceiros fixos, temos uns três que são recorrentes, mas todo ano é uma luta para fazer acontecer."

Uma das dificuldades está em convencer as empresas a atrelar o nome das marcas a um evento chamado Feira Preta. "Já ouvi muitas vezes que poderia gerar algum tipo de 'problema racial'", conta. Para ela, isso é algo que não dá para ignorar.

Vivemos em um país racista, e precisamos assumir isso. Se não, a gente não evolui. Se não olhamos situações como essas e tantas outras que acontecem hoje pelo Brasil com um certo estranhamento e incômodo, as pessoas vão continuar achando normal."

Pablo Saborido/UOL Pablo Saborido/UOL

Empreender sendo mulher negra

Quando a Lei Áurea foi assinada, em 1888, decretando o fim oficial da escravidão no Brasil, nenhuma política foi apresentada voltada para ajudar na empregabilidade de negros no país. Os reflexos desse episódio são sentidos até hoje: em um relatório divulgado em outubro deste ano pelo Sebrae, 49% das mulheres negras empreendem por necessidade. O índice cai para 35% quando se fala de mulheres brancas.

Além disso, são as negras que menos lucram com os negócios que criam, em torno de R$ 1.384 por mês, metade do que empreendedoras brancas ganham, em média R$ 2.691.

A família de Adriana tem um histórico assim. O dinheiro da família vinha do salário de empregada doméstica que a avó dela ganhava nos 60 anos que trabalhou para uma família em São Paulo. Mas não era suficiente. Inúmeras vezes a luz ou água foi cortada na casa em que cresceu com a avó, a bisavó e a mãe. Para completar a renda, a bisavó fazia coxinhas e marmitas para vender fora.

Para Adriana, desde muitos antes do início da Feira Preta existe um vácuo no mercado para novas formas de empreendimentos que representem a maior parcela da população brasileira — e que aos poucos vai sendo preenchido. Mesmo que lentamente.

Nós partimos de um contexto histórico de 400 anos de escravidão e 131 anos pós-abolição. É necessário falar de capital relacionado ao desenvolvimento humano e que cause algum impacto social."

Pablo Saborido/UOL Pablo Saborido/UOL

Curtiu? Compartilhe.

Topo