Zum-zum e mel

Como abelhas nativas mudaram a vida e o entorno da casa de um artista em Santa Teresa, no Rio de Janeiro

Tereza Novaes Colaboração para Ecoa, do Rio de Janeiro (RJ)

Músico, artista plástico e criador de abelhas nativas. São muitas as aptidões do carioca Ricardo Siri, 48. "Quando alguém me pergunta o que eu faço, digo, até como provocação, que toco tambor", diz, com um sorriso no rosto. O fato é que ele já dividiu o palco com grandes nomes da MPB como baterista e percussionista e ganhou um Prêmio da Música Brasileira por seu trabalho autoral.

Foi a música que, aos poucos, encaminhou Siri para as artes visuais. No estúdio que tem em casa, cheio de instrumentos e tambores de todas as origens, há uma bateria e, sobre ela, duas fotos do início desse processo, que mostram, de diferentes ângulos, um trompete saindo da parede. A obra era um objeto com uma caixa de som na campana, a parte final do instrumento. "O que eu vendia era a música que saía dali", conta.

As abelhas surgiram com a mudança para o sobrado, onde Siri, a mulher, a também artista Deborah Engel, e as duas filhas, Clara e Alice, vivem há seis anos. A casa fica na região central do Rio, em Santa Teresa, conhecida por seus bondinhos e jeito de cidade do interior, com ruas de paralelepípedo, muitas casas e onde todos parecem se conhecer.

Numa região montanhosa, o bairro tem muitas áreas de mata, e a residência é bem típica, com várias escadas e plantas. Na parte mais alta do terreno, há três platôs estreitos que Siri limpou - os vizinhos jogavam lixo ali, conta - e onde começou a cultivar uma horta e árvores frutíferas, além de galinhas, que circulam soltas pelo quintal.

A primeira colmeia de jataí foi uma continuidade desse processo e hoje, quatro anos depois, quem chega é recebido por uma dezena de caixas dessa abelha, espalhadas no jardim de entrada. Mansas, resistentes e limpas, elas não se alimentam de lixo, como restos de refrigerante, as jataís são de fácil relacionamento com a vida cotidiana.

Uma caixinha pode ter até 5.000 indivíduos e a colônia pode dar origem a outra ao enxamear, quando um grupo parte em busca de um novo local. Na natureza, esses insetos costumam ocupar buracos em árvores e, por isso, caixas de madeira são perfeitas. Para cada espécie, há um tamanho adequado.

Siri não parou nas jataís. Ele estudou com afinco as abelhas sem ferrão, nomenclatura mais comum dada às nativas. "Prefiro chamá-las de abelhas com ferrão atrofiado, porque elas até têm, só deixaram de usar. As apis [que produzem o mel mais conhecido dos brasileiros] são como os colonizadores que chegaram aqui e precisavam da espada para dominar. As nativas, não."

No Brasil, ocorre quase metade das abelhas sem ferrão do mundo, das cerca de 550 espécies conhecidas, 250 podem ser encontradas no país, algumas só aqui.

O artista mantém 150 caixas, além das jataís, há mandaçaias, guaraipos, uruçus amarelas, mirins doriana e guaçu, manduris e guaraipos-bicolor, as duas últimas consideradas as mais raras do meliponário -nome que vem de meliponas, o gênero ao qual essas abelhas sociáveis e sem ferrão pertencem. Além de abrigo, Siri as ajuda reforçando a alimentação -plantou diversas espécies cujas flores elas gostam, além de fornecer um xarope de açúcar orgânico-, e disponibilizando cera e própolis para que elas façam suas estruturas.

O empenho em construir um habitat ideal passa também por mudanças de hábitos. Na casa não entra nenhum tipo de inseticida ou planta que seja tóxica para as abelhas. A maior prova de que a residência se tornou um ambiente amigável está no muro onde uma pequena colmeia de iraís se instalou espontaneamente.

As abelhas sem ferrão produzem o mel em potes, não em favos, e os sabores são incrivelmente distintos -o da borá, por exemplo, é levemente salgado, com um toque que lembra queijo. Outra característica é a organização das colônias e os seus ninhos, alguns protegidos por camadas dispostas como pétalas. Do lado de fora das caixas é possível notar as diferenças: as mandaçaias constroem um portal com barro e própolis em formato de estrela, o acesso das colmeias das jataís são uma espécie de canudo e as uruçus espalham uma massa avermelhada em volta da entrada.

As estruturas que constroem, o modo de vida e o senso de comunidade das abelhas sem ferrão se tornaram fonte de inspiração para Siri. "Não sou o tutor delas, elas que são as minhas tutoras, que me ensinam", afirma. As obras de sua produção artística recente remetem de alguma forma ao universo das abelhas, como a forma hexagonal dos ninhos. Estes, aliás, sempre o interessaram e ele já havia explorado a estrutura em outras ocasiões. Essa nova leva de trabalhos foi exposta na feira Art Sampa, em março, no stand da Janaina Torres Galeria, que o representa.

O entorno também se modificou, as abelhas sem ferrão tornaram mais produtivas as árvores frutíferas, inclusive as dos vizinhos, que relataram para Siri como jabuticabeiras e limoeiros passaram a produzir muito mais. Ele calcula em bilhões o número de polinizações feitas em Santa Teresa graças às abelhas para as quais dá abrigo. As espécies que ele cria podem voar em um raio de 800 a 3 mil metros, e a distância varia pelo tamanho do tórax.

O encantamento de Siri com as abelhas também contagiou amigos que começaram suas próprias caixas, entre eles, o cantor Lenine, com quem ele já tocou. Siri também já foi duas vezes na escola das filhas falar sobre o seu meliponário, batizado de Pindorama.

Ele retira o mel com a ajuda de seringas e guarda em garrafas. Mais líquido do que o das apis, o mel das sem ferrão é levemente fermentado. Siri guarda o conteúdo para potencializar o processo e uma vez por ano realiza uma venda de pequena escala. Em novembro passado, o mel maturado de jataí, produzido por ele, foi premiado no sétimo concurso nacional de méis de abelhas nativas brasileiras.

Nem todas as caixas têm seu mel extraído. As colônias mais frágeis ou jovens ficam intocadas. "Depois de mostrar como é a produção, vendi até para veganos, que ficaram apaixonados pelo mel. Quando a pessoa tentou comprar pela segunda vez no mesmo ano, recomendei que ela começasse uma caixa", conta Siri.

O biólogo Cristiano Menezes, especialista nas abelhas sem ferrão e pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), aponta as vantagens na criação delas. "A primeira é ajudar na biodiversidade nativa, ajudar na conservação delas. As abelhas exóticas prejudicam as nativas ao competir por recursos. A apicultura não é um desastre, mas é menos vantajosa ambientalmente. A segunda vantagem é a possibilidade de criar em casa, sem riscos para as pessoas ou para os animais."

Segundo ele, há duas formas de começar: ou adquirir uma colmeia de quem cria e multiplica, ou fazendo ninhos armadilhas para atrair um enxame. "As jataís produzem uma nova rainha por ano, com essa isca, feita de garrafa pet ou caixa de madeira, elas podem ser atraídas e dar início a uma nova colônia", explica. "A maioria das abelhas capturadas por esse método acaba sendo jataí."

As jataís existem no país inteiro e podem produzir entre 300 a 500 ml de mel por ano. "Com três caixas, já dá para suprir o consumo de uma família", afirma o especialista.

No entanto, Menezes acredita que o poder de mudança que as abelhas podem promover na vida das pessoas, como ocorreu com Siri e o seu entorno, é a maior contribuição dessa criação.

A consciência ambiental que elas trazem nos faz enxergar a natureza de um jeito diferente, observar a arborização urbana, prestar atenção nas flores como alimento. Quem se envolve com abelhas, se torna mais engajado, usa menos água, produz menos lixo. Elas modificam toda a concepção ambiental das pessoas.

Cristiano Menezes, biólogo, especialista em abelhas sem ferrão e pesquisador da Embrapa

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