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Tony Marlon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que é Ficção Social, conceito criado pelo Nobel da Paz Muhammad Yunus

O economista indiano, Muhammad Yunus que venceu o Prêmio Nobel da Paz ao defender a expansão do microcrédito e um capitalismo humanizado - Eduardo Anizelli/Folhapress
O economista indiano, Muhammad Yunus que venceu o Prêmio Nobel da Paz ao defender a expansão do microcrédito e um capitalismo humanizado Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress

Tony Marlon

17/06/2022 06h00

Prêmio Nobel da Paz, o Professor Muhammad Yunus ganhou a atenção do mundo com o Grameen Bank. Com pequenos empréstimos e sem as exigências dos bancos comerciais, ele mostrou que é possível construir uma economia que alimente a vida, não os mesmos bolsos de sempre. O banco movimenta 1,5 bilhões de dólares por ano, 97% do seu público são mulheres. Ficou conhecido como "O Banqueiro dos Pobres", sua experiência hoje inspira políticas públicas em dezenas de países.

Não foi apenas o conhecimento técnico em economia que deu ao professor Yunus o que precisava para fundar um banco diferente de tudo que existia até aquele momento, estamos falando de 1983. Foi preciso imaginar um mundo que ainda não existia, construir a imagem de um futuro desejável forte o suficiente a ponto de convencer mentes e corações que encontraria pelo caminho. Isso virou um conceito: Ficção Social.

Muhammad Yunus tem defendido que precisamos treinar gerações inteiras a imaginar e agir. Que este é um exercício como tantos outros que já fazemos, que precisa ser espalhado nas escolas, nas comunidades, em todos os cantos da vida. "Nós temos muita ficção científica. Nós deveríamos escrever ficção social. Imaginar o mundo que nós queremos e ir lá construí-lo".

Reprogramar a imaginação não em cima de uma esperança vazia e sem forma, mas justamente convidar e comprometer as pessoas a desenharem imagens coletivas de futuro. E trabalhar por elas.

Um bom exemplo de como isso é poderoso e pode funcionar é O Jornal do Futuro. Criado em dezembro de 2021, o perfil no Instagram publica manchetes fictícias sobre as questões ambientais. Anda meio parado, mas a ideia é poderosa. Ao invés de invocar o problema, ou fazer explicações técnicas que só serão compreendidas por um público, infelizmente ainda muito pequeno, a página oferece a quem segue uma imagem de futuro inspirada na realidade. E em meio a essa brincadeira entrega conhecimento. É o caso do biocombustível de algas marinhas.

O Brasil, há anos, tem construído conhecimento e desenvolvido tecnologias sobre o uso de algas para produção de combustíveis limpos e renováveis. Ou seja, não se trata de algo que está no campo das ideias, apenas. Neste exato momento centenas de profissionais ao redor do mundo trabalham para que essa manchete seja realidade antes de março de 2025, data da edição fictícia d’O Jornal do Futuro. E eu só soube disso tudo ao me encontrar com este perfil, me perguntar se é possível fazer um carro andar usando algas e, curioso, decidir por pesquisar sobre o assunto.

Apesar de saber que o mundo está em colapso e que precisamos mudar tudo, e agora, se quisermos continuar aqui por mais alguns séculos, eu ainda entendo o básico do básico sobre as questões ambientais. As discussões estão longe do meu dia a dia, da minha rotina. Mas quando eu leio uma manchete assim: "Cidade de São Paulo tem o ar mais limpo entre as metrópoles brasileiras", eu me sinto interessada em saber mais. Me sinto mobilizado, não pela discussão técnica em si, mas pelo futuro que está prometido naquela foto. Um futuro em que eu gostaria de estar. No mundo da disputa pelo tempo e a atenção, esse interesse das pessoas é ouro puro.

Yunus defende que se a gente consegue imaginar, a gente consegue fazer. Tem sido assim há décadas com a ficção científica, ele diz, em que os filmes plantam possibilidades e inquietações em mentes mundo afora sobre carros voadores e robôs com sentimentos e emoções. E onde estamos hoje: Tentando construir carros voadores e robôs com sentimentos e emoções. Se a gente consegue imaginar, a gente consegue fazer.

Então, mais que um simples exercício de futurologia, a Ficção Social é um jeito de apontar caminhos de solução; de encantar corações esperançosos e de reunir mentes dispostas a construírem futuros radicalmente melhores para todos os seres. De tão modo que O Jornal do Futuro precise trocar de nome, será O Jornal do Presente.