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Tony Marlon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O Nordeste Futurista na música de Luana Flores

Luana Flores - Nilton Neto/Divulgação
Luana Flores Imagem: Nilton Neto/Divulgação

Tony Marlon

28/09/2021 10h31

Quando Luana contou que o seu EP sairia com músicas que acompanham as fases de um pôr do sol, eu logo pensei que precisava registrar essa história. E ela aceitou. Indispensável reafirmar a importância da arte para nos salvar de nós mesmas, ou, no mínimo, para lembrar que existe um depois, alimentar a imaginação. Ela resume: "Acredito muito na arte enquanto ferramenta de transformação social".

Em tempos de um poder que pensa o mundo em linha reta, "Nordeste Futurista", nome de batismo do álbum parido há duas semanas, lembra que a vida é, antes de tudo, curvas, emaranhados, movimentos. Que as coisas e as pessoas se misturam para saírem o que são, do outro lado. Diferentes e complementares: "Fazer música também é uma forma de decolonizar", explica.

"A gente não veio do nada, a gente veio de algum lugar. Qual é a nossa história, de onde a gente parte? O que se perdeu no meio do caminho? Existe um movimento forte de buscar entender nossas raízes", explica, buscando situar a si mesma e toda uma multidão de talentos que, é possível, não toque em sua rádio favorita ou esteja na primeira página do seu jornal mais lido.

Como brota uma Luana

Cantora, compositora, beatmaker, DJ, percussionista, Luana andou por muitos lugares musicais até encontrar a sua identidade sonora, que ela diz ser bem maior que isso: é um discurso de mundo. "Já fui do hardcore, do reggae. Hoje me encontrei, parece mais eu, mais legítimo", explica. Sua história com a música começa como começa tudo na vida, só sendo, todos os pontos a gente conecta mesmo é lá na frente. Que no caso dela é agora.

"A gente criou a primeira banda só de mulheres, que era uma banda de rock, isso foi em 2007, que era a cena aqui. Passei seis anos com elas. Depois fui me aproximando da percussão, sempre misturando tudo com meu ativismo", conta. "Em 2016 comecei a construir a coletiva Cocô das Manas, que usava o coco de roda como ferramenta de empoderamento feminino. Foi ali que me conectei com a cultura popular".

A percussão, o feminino, o eletrônico, a cultura popular, seus territórios e lutas. Foi essa costura inspiracional que trouxe Luana até aqui, que fez nascer "Nordeste Futurista" no último dia 10. Boa parte dos recursos veio de uma campanha de financiamento coletivo.

"Falo muito da Paraíba em minhas letras. Então, botar Nordeste é uma demarcação que é geográfica, mas também é social. De dar protagonismo à minha região, que por uma série de motivos foi diminuída, esquecida".

Sobre isso, aliás, ela destaca, que "quando falam de música do nordeste é regional, mas quando é de São Paulo é paulista. Sempre existiu uma relação de poder muito forte entre as regiões brasileiras e a gente sempre esteve nela como uma região enfraquecida. Vários estigmas, preconceitos", explica. "Quando coloco o nome do som com o nome do meu território eu quero afirmar que estamos aqui, produzindo sons que estão aí em evidência na cena contemporânea".

Futuro ancestral

"Quando eu comecei a construir este trabalho autoral, em 2019, fiquei me perguntando como iria chamar o som que eu faço. Ele não se encaixa nos termos que eu escutava por aí", relembra. "Daí fiquei pensando que são ritmos que lembram a minha região e eu botei futurista para pensarmos como um som contemporâneo, um som moderno. Depois, eu comecei a construir uma identidade discursiva em volta disso", foi assim que resumiu conceitualmente sua fusão entre música eletrônica e ritmos populares nordestinos.

Para deixar num exemplo, Luana conta que dia desses produzia um beat, uma batida, a partir de alguns sambas de aboio, quando percebeu o quanto eles lembravam a música árabe. "Ou seja, este hibridismo já estava aí há algum tempo. O que a contemporaneidade está fazendo é nos provocar a experimentar mais outras formas de fazer estes sons tradicionais".

É todo este encontro de tantos elementos diferentes que dá nome ao álbum de estreia de Luana, uma espécie de manifesto sobre o que esperar de seu coração e mente: "Passei a brincar com o conceito pensando o 'Nordeste Futurista' como uma outra dimensão, sabe. Como se eu tivesse criado essa realidade para poder existir no mundo", começa.

"No presente, a gente estar construindo novos discursos pautados no passado, com a benção das mais velhas. De tudo que o meu povo passou para que eu esteja aqui. Mas tudo isso olhando para o futuro, trabalhando para que as próximas gerações possam existir em paz", sintetiza. E Luana esparramou cada vírgula dessa ideia, que começa na música, mas se expande, ao longo das seis músicas do álbum.

Escute como um pôr do sol

Luana disse que em sua Parahyba o sol se vai rápido demais, desatenta na hora certa você até perde o momento. "Quando imaginei este EP, a primeira coisa que eu pensei foi qual história eu gostaria de contar. E a primeira coisa que meio à cabeça foi uma cor, roxo. Daí fiquei pensando na subjetividade dessa cor", inicia a explicação. "O que ela causa, quais emoções. Pelo disco ser curtinho, pensei também que era como se fosse um pôr do sol, sabe. Diferentes tons. Então, veio a ordem das músicas de acordo com essa energia". Do início ao ápice, até a chegada da noite.

E como viver o fim de tarde em comunidade é ainda mais bonito, o EP traz muitas convidadas. A mestra cirandeira paraibana Vó Mera abrindo os caminhos. Outra mestra, essa do Coco, Ana Rodrigues, ali na faixa dois, e por aí vai. O auge do pôr do sol, aliás, é quando Luana se encontra com as rabecas de Letícia Coelho e as ideias sonoras de Chico Correa, que assina a coprodução musical da faixa 3. É a metade do álbum.

"Eu gosto de criar uma atmosfera, sabe. E aí a partir dela, quem escuta imagina o que quiser. A gente é muito acostumado na vida a ver as coisas muito no óbvio", explica ao dizer que a maioria de suas composições nasce de situações que vive, o que não impede que haja identificação por quem escute e não sentiu ou viu o mesmo que ela. "A música Vai Trovejar, por exemplo, nasceu a partir de um áudio da minha mãe".

Outros dias já vêm

"Suspendemos o Céu", uma poesia da artista visual Georgia Cardoso é a véspera do fim do EP, que se encerra com um recado: calejo, mas não sinto medo, como diz um dos versos de Lampejo de Encruza. Eu cantei como um recado arrumando a casa.

Se o convite era para se escutar Luana Flores com o pôr do sol, e isso eu fiz, a sua arte soa ainda mais mágica ao nos lembrar que a noite pode ser longa, mas não é eterna. Outro dia já vem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL