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Tony Marlon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Paulo Freire e a educação que liberta corações e mentes

O educador Paulo Freire - Divulgação
O educador Paulo Freire Imagem: Divulgação

Tony Marlon

21/09/2021 06h00

Me lembrei que pouquíssimas pessoas resumiram o Patrono da Educação Brasileira tão bem quanto Frei Betto. Precisei de suas palavras emprestadas por algumas linhas, e seguem:

"Ivo aprendeu com Paulo que, mesmo sem ainda saber ler, ele não é uma pessoa ignorante. Antes de aprender as letras, Ivo sabia erguer uma casa, tijolo a tijolo. O médico, o advogado ou o dentista, com todo o seu estudo, não é capaz de construir como Ivo". E continua: "Paulo Freire ensinou a Ivo que não existe ninguém mais culto do que o outro, existem culturas paralelas, distintas, que se complementam na vida social".

Eu não sabia de nada disso naquela época, começo dos anos 2000, menos ainda que existia um jeito de pensar e fazer educação de baixo para cima, quando o Rafael Mesquita começou a falar do livro Pedagogia da Oprimido.

Os detalhes eu não lembro bem, mas o coração do que ele me disse plantou curiosidade e esperança na minha cabeça para nunca mais sair: então é possível uma educação que liberte corações e mentes, que considere quem aprende como sujeito produtor do conhecimento, ao invés dessa repetição infinita de coisas que não fazem qualquer sentido prático para nós? É. O método nasceu para alfabetização de adultos, mas floresceu pra todo canto.

Sendo simplista, e correndo o risco de ser injusto com sua obra, o que entendi de Paulo Freire foi que não existe um verdadeiro aprendizado sem a contextualização do conteúdo, ou sem a formação do olhar crítico de quem aprende, menos ainda sem considerar que todos os lados deste encontro tem algo a dizer sobre o mundo. E foi isso que mexeu profundamente comigo.

Até ali, apesar de eu não saber organizar em palavras, sentia que meu pai ou minha mãe, mesmo não sendo doutores por qualquer universidade; que minhas avós e avôs, mesmo não tenho permanecido por tantos dias na escola do povoado, a roça gritava presença; que a vizinhança que me rodeava, os amigos e amigas que caminhavam a vida comigo, que todas aquelas pessoas sabiam muita coisa que dava ao mundo o movimento que ele tem. Que ninguém sabe mais, as pessoas sabem diferente.

Mudou tudo. Apesar de eu já ter escutado aqui e ali, aquele foi o primeiro momento, ao menos que eu me lembre, que alguém me explicou as ideias por trás do nome daquele educador. E tudo fez tão sentido, não como uma cartilha a ser seguida, certeza de que ele ficaria nada feliz em saber que o seguem dogmaticamente, sem o questionar em ponto a ponto, mas como um jeito de pensar e agir educação, na realidade.

A gente não aprende, apenas, botando uma letra junto da outra. Por isso Paulo e Elza Freire, também educadora, que construiu tudo isso ao seu lado, junto, tinham uma ideia de alfabetização que partia de palavras e temas geradores. Do cotidiano de alunos e alunas.

E foi deste dia em diante que aquele velhinho, com aquela voz serena, que me lembrava o Papai Noel dos filmes da Sessão da Tarde, passou a impregnar de sentido tudo que passei a ler, ouvir, assistir e fazer. Esbarrei com Freire em todo canto. Não há nada que eu tenha participado, e ajudado a construir, desde então, que ele e suas ideias não tenham se feito presente.

Paulo Freire segue vivo nas Escrivências de Conceição Evaristo, nas letras do Emicida. No Telecurso 2000, que eu assistia de madrugada saindo para trabalhar no telemarketing. Nas colunas de Dona Jacira, numa roda de conversa com a Dona Vilani. No jornalismo feito pela Periferia em Movimento, pelo Embarque no Direito, também no Desenrola. No jeito de explicar as coisas para uma senhora recém demitida, que eu vi, da Luiza Batista, presidente da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas.

Escutando a Bel Santos Mayer, a Jayce Brasil. Lendo o André Baniwa, a Julie Dorrico. Sentado no banco da praça com o poeta Binho, com a jornalista Bianca Santana. Paulo Freire está em quase tudo que o GOG cantou, ali do DF e que a Mãe Beth de Oxum discursa, lá de Olinda. Nos artigos semanais do pastor Ronilso Pacheco aqui no UOL.

Em uma última entrevista, 16 dias antes de sua passagem deste plano, Paulo disse que "morreria feliz se eu visse o Brasil cheio, em seu tempo histórico, de marchas. Marcha dos que não têm escola, marcha dos reprovados, marcha dos que querem amar e não podem, marcha dos que se recusam a uma obediência servil, marcha dos que se rebelam, marcha dos que querem ser e estão proibidos de ser".

No fim, e no fundo, Paulo Freire é feito uma ideia que paira no ar, mas é também uma promessa de futuro. De uma educação e um país que converse com todo mundo, sobre todo mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL