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Tony Marlon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Camila Ribeiro usa o design para transformar olhares e mundos

Designer Camilla Ribeiro começou a desenhar depois de encontrar caderno com desenhos da mãe - Ellen Melo
Designer Camilla Ribeiro começou a desenhar depois de encontrar caderno com desenhos da mãe Imagem: Ellen Melo

Tony Marlon

03/08/2021 06h00

"Minha avó é analfabeta e mesmo assim guarda todos os jornais que eu diagramo. Ela não entende as palavras, mas entende as imagens. Fica feliz porque sou eu que faço tudo aquilo". Aqui, a Camilla Ribeiro, 27, nascida no Jardim Leme, periferia da zona sul de São Paulo (SP), me contou que respondeu chorando. Não foi diferente comigo alguns dias depois, costurando essa história.

A neta da Francisca e filha do José me explicou que foi ainda na infância que brotou seu interesse pela arte, pelo mundo da criação visual. Encontrou sem querer um caderno antigo da mãe, Katia, daí que abriu uma avenida na sua imaginação. Nunca mais parou de achar que havia se encontrado no mundo.

Coluna Tony - Camila Ribeiro - Jessica Amorim - Jessica Amorim
Designer Camila Ribeiro, 27, é artista do Jardim Leme, São Paulo (SP)
Imagem: Jessica Amorim
"Ela desenhava mulheres, tipo uns croquis, e eu amei. Ficava tentando reproduzir as roupas. Como na época trabalhava num banco, passou a trazer folhas usadas de impressão de fax para mim e minha irmã desenharmos. Eu passava horas fazendo aquilo". E pronto, foi assim que tudo começou. Depois foi só seguir as pistas, conectar os pontos. E contar com uma importante rede de apoio, a mais poderosa de todas.

"O mundo diz para uma mulher negra que ela não pode fazer nada, ainda mais arte em um segmento tão elitizado", desabafa. "Mesmo assim, escolhi design gráfico, e com todo o incentivo e esforço dos meus pais eu pude realizar esse grande passo que foi me formar na faculdade". Camila foi a primeira da família a acessar o ensino superior, há seis anos.

Nós somos as pessoas por quem sempre esperamos

As mudanças acontecem primeiro na imaginação, o corpo acompanha é depois. E a nossa imaginação salta para não voltar quando, por exemplo, achamos um caderno antigo da nossa mãe. Quando a nossa existência encontra nosso destino e diz: é isso que eu vim fazer aqui.

Salto imaginativo é você conseguir se ver fazendo o que sonha, para o futuro, e depois só carregar seu corpo até essa terra prometida. Foi o que aconteceu com Camila. Mas nem sempre, e nem todo mundo, tem um horizonte para onde mirar. Ela me contou sobre isso, assim:

"Não tive nenhuma referência de alguém como eu trabalhando com arte até eu conseguir entrar na faculdade", explica. "E, mesmo assim, contando comigo, eram apenas 3 pessoas para uma sala de 50 alunos".

Coluna Tony - Camila Ribeiro - Camila Ribeiro - Camila Ribeiro
Imagem: Camila Ribeiro
Essa dor, e, sim, é uma dor e uma grande violência, a designer carregou para o seu trabalho, para o jeito de pensar e fazer do seu processo criativo. Ela virou quem sempre esperou, lá atrás, para quem ainda está vindo por aí, uma referência. E isso tem um impacto enorme, ela sabe disso.

"Eu trago pessoas como eu nas minhas artes, necessito me enxergar ali", começa contando. "Preciso pensar se algum jovem da periferia vai olhar e vai conseguir se ver também, seja no tom de pele das minhas ilustrações, na estética dos layouts. Eu sempre vou pelo caminho dos meus".

Eu sempre vou pelo caminho dos meus. Vale anotar isso para não se perder de si, viu.

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Imagem: Camila Ribeiro

Contar a história e o trabalho dessa designer paulista é um convite para expandir o repertório na hora dos convites, que vão sempre para as mesmas pessoas de sempre, que partem dos mesmos lugares de sempre. Os sociais e criativos. Querem resultados diferentes fazendo sempre a mesma coisa, a conta não fecha. Existe um mundo fora dos olhares condicionados.

"A arte vai para outro patamar", quando talentos feitos Camila ocupam os mais diversos lugares, "porque vai contar outras histórias, trazer outros repertórios e vivências. Ela vai mudar vidas", defende. E é mesmo, acompanhe o raciocínio.

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Imagem: Camila Ribeiro

"Imagina quantas jovens da periferia tem vontade de estudar arte mas não podem por falta de acesso? Mas ela vê uma outra jovem de um lugar parecido com o dela criando, postando seus desenhos no Instagram, isso a incentiva de alguma forma". É sobre um caminho coletivo tudo isso.

Criar e mudar as coisas a interessam mais

Camila faz muita coisa, trabalha em muitos lugares. Na aliança de organizações Em Movimento, Agência Solano Trindade, no Espaço Cultural CITA e no jornal Embarque no Direito. Ainda compõe o coletivo Pretas Ilustram, que você pode conhecer aqui. Mais jovem, a sua ideia era, na verdade, construir carreira numa revista ou agência.Os caminhos foram mudando, enquanto ela ampliava seu olhar sobre a função da arte no mundo.

Para ela, "não é só entender de design" que constrói um bom profissional, "mas compreender a importância que aquela comunicação visual tem". Foi pensando assim que seu caminho encontrou o dos movimentos sociais.

Coluna Tony - Camila Ribeiro - Camila Ribeiro - Camila Ribeiro
Imagem: Camila Ribeiro

"É preciso entender a causa, pensar sobre o público, o território, porque é a partir dela que muita coisa vai chegar nas pessoas", chama a atenção para a função do seu trabalho. Se vê nele por um tempo, quer se dedicar para trazer mais novidades: "estudar e me aprimorar ainda mais para poder continuar fazendo a comunicação visual dessas organizações com propósito, algo cada vez mais genuíno, bonito, alcançável, acessível e diverso".

Coluna Tony - Camila Ribeiro - Camila Ribeiro - Camila Ribeiro
Imagem: Camila Ribeiro
Especialmente nestes últimos tempos, a arte ocupou outros lugares dentro de nós. Sem a música preferida ou o livro inspirador, estaríamos emocionalmente mais ao fundo do que estamos agora. E já estamos ao fundo demais. A Camila explicou assim quando eu quis saber sobre como a arte a alcança:

"Ela causa em mim a coisa mais preciosa que eu tenho, a minha existência. Hoje eu não consigo me enxergar sendo outra pessoa sem ser artista. Então, em mim, ela causa do caos a plenitude. É tão minha quanto eu sou dela, e juntas somos uma coisa só".

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