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Tony Marlon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como saber o tempo de parar

Logo no início do ano começou a febre da "Tazo Mania", a promoção dos pequenos discos colecionáveis que vinham nos salgadinhos da Elma Chips - Divulgação
Logo no início do ano começou a febre da "Tazo Mania", a promoção dos pequenos discos colecionáveis que vinham nos salgadinhos da Elma Chips Imagem: Divulgação

Tony Marlon

13/07/2021 06h00

Sem celulares para sequestrar a atenção, foram os Tazos que ajudaram uma grande maioria de nós a atravessar as tardes intermináveis da infância. No meu caso, eles ensinaram que parar tem a sua hora e a gente precisa estar atento aos sinais para quando este momento chegar.

Lançados no começo de 1997 no Brasil, os discos colecionáveis que traziam imagens de personagens de desenhos animados foram um sucesso tão grande que não deve existir uma professora do ensino fundamental da época que não tenha alguns perdidos nas gavetas de casa ainda hoje, frutos de confiscos intermináveis que aconteceram primeiro em sala de aula. Mas que com o avanço da gravidade da mania, alcançaram também a hora do recreio e, pasmem, o portão de entrada das escolas. Foi um Deus nos acuda.

Pode soar estranho hoje, mas parte considerável da nossa experiência de construção do comum acontecia no mundo analógico, não nas telas. Sem redes sociais ou joguinhos que distraiam a presença, era dessa maneira que as comunidades construíam suas relações por aqueles dias. E foi assim, ali no finzinho da infância, que eu descobri da forma mais dolorosa possível para uma criança que se a gente não aprende a hora de parar, a gente pode perder tudo que construiu.

Quatro da tarde. Duas à mão?

Batendo Tazos. Era assim que alguns e algumas de nós construíamos autoridade na escola ou na rua de casa. Seres mais ousados jogavam na véspera de começar a missa ou o culto, muita gente chamava isso de pecado.

O jogo era assim: você e seu oponente combinavam quanto valeria a rodada, digamos que três Tazos. Todos iam ao chão, ilustração virada pra baixo. O objetivo era simples: quantos você virasse com o desenho para cima eram seus, isso até o monte acabar. Para conseguir essa proeza, você batia com toda força um outro Tazo na pilha. Existia quem só jogasse com o seu disco da sorte, e eu era um desses, com três: Yakko, Wakko e Dot. Sem eles, sem chance.

E daí que teve um dia que encostou no portão um amigo que fazia questão de me levar embora até os Irmãos e a Irmã Warner. Ele com a mão cheia, ganhava da rua inteira. Era um sinal, eu não percebi. Sem muito mais o que fazer, e sem ter como comprar novos, o que, aliás, não era bem-visto pelas rodinhas de escola afora, aceitei o desafio.

Para minha surpresa, a sorte me carregou hora após hora até ele ter apenas dois em sua mão, e eu com uma felicidade que mal cabia em mim. Foi um desafio lançado por ele que mudou tudo: brincamos essa última, se ganhar de mim, entrego os dois. Aceitei sem pensar muito. Foi o começo do fim. E de um aprendizado que me ronda até hoje.

As palavras nunca voltam vazias

Já passava da Novela das Seis, quando eu entreguei o último Tazo. Lembro que foi a Dot, mas não posso confirmar. Fato é que ele conseguiu, numa mistura de sorte, destino e contando com uma ganância insuperável da minha parte, recuperar tudo. E ainda levou meus três discos da sorte.

Desceu a rua gargalhando, contando para todo mundo a virada épica que havia acontecido ali, e eu só conseguia pensar que poderia ter parado, mas não o fiz. Foram dias pensando por qual motivo eu não me levantei, fechei aquele portão e fiquei feliz uma semana inteira, no mínimo. Quando se é criança, a felicidade chega das maneiras mais simples, feito ganhar Tazos seminovos para levar para a escola no outro dia, as três primeiras aulas de Matemática. Não encontrei resposta no dia, mas acho que entendi o recado.

A gente é feito pra acabar

Isso vale para as relações, para o trabalho: tem um dia que chega, tem um dia que fim. E uma das maiores descobertas é aprender a ler os sinais sobre essa hora de parar, ou ao menos de quando este momento se aproxima. Ou você e eu corremos o risco de só ir embora quando já se é tarde demais, quando já perdeu o timing. Seguimos com o que sobrou, não com o que nos levou até ali, saindo com o gosto do destino na boca, não o da jornada.

A questão é que viver é um ato contínuo, que além daquele horizonte tem outro, e outro, e outro. Não é sobre chegar a um lugar, propriamente, é sobre ir, é sobre se colocar em movimento. E para estar em movimento não tem como, a gente vai ser convocado a renunciar a isso, àquilo, para começar um outro isso, um outro aquilo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL