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Tony Marlon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ativismo é a arte de agir sobre inegociável

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Imagem: iStock

Tony Marlon

29/06/2021 06h00

Tudo em disputa. O sentido das palavras, a grafia das palavras. O horário nobre da TV. O jornal, a novela, o livro escrito tem 100 anos. O personagem principal do livro escrito tem 100 anos. Desconfio, nunca tivemos na história tantas vozes poderosas disputando o presente e o que será do futuro. É que sabemos, quem nomeia detém poder. E ele já ficou demais nas mãos dos mesmos. Desse jeito, assim, no masculino.

E até aqui nos trouxeram as mesmas vozes vindas dos mesmos lugares, herdeiras dos mesmos privilégios, sejam eles simbólicos ou materiais. Uma mistura de um cem número de motivos nos carregou até hoje, que vão de pessoas que nunca se calaram a outras que pagaram com a própria vida defender suas ideias e ideais. Existimos agora por quem veio antes.

Essas pessoas tensionaram os espaços, problematizaram os debates, incomodaram aqueles que estavam sentados em cima do poder. Fizeram perguntas incômodas, deram respostas ainda mais. Elas não desistiram do que viam ali frente, menos ainda fingiram que não era também sobre elas o presente que habitavam. Se existia dor para um, para uma, lá estavam e estão suas vozes dizendo que isso não pode acontecer. Que não existe hierarquia no direito à uma vida digna, sabe? Isso de uns primeiro, depois uma multidão disputando o que sobrar dos direitos, da terra, da saúde, do que comer. Não, isso não pode acontecer.

Como a gente sente necessidade de nomear tudo, para organizar a vida, botaram ali um nome nessas pessoas inconformadas, naquelas que não silenciam a voz quando as violências encontram alguém, mesmo que seja um rosto distante que eu nem conheço: nomearam de ativistas.

Imagina assim um ativista, o senso comum propagado: uma pessoa que está na rua disputando na força física o direito a permanecer nela; aquela pessoa que apareceu no telejornal da noite sendo carregada e presa por algum motivo que envolve não derrubar as florestas, a gente vai tudo morrer com essa atitude; alguém que fala termos, palavras e expressões que a maioria de nós nunca escutou, não faz ideia do que significa; estava protestando em frente a autoridades.

E a partir disso criaram um amontoado de estereótipos ao redor do termo ativismo. Tudo em disputa, lembra o começo dessa conversa? Que são pessoas pagas para fingirem indignação com as violências de todos os tipos, nem ligam de verdade; que são grupos que, no fim e no fundo, só tem interesses de poder, existências partidárias. Não poderiam estar mais longe da verdade.

A onda de retrocessos que varre o mundo nos últimos anos criou e manipulou direitinho um medo em cima da palavra ativista. Distorceu seu sentido, buscou todos os dias descontextualizar seu uso. Por exemplo, não é ativista quem luta contra a democracia. Ou contra qualquer coisa que seja um futuro em que caiba e sejam acolhidas e respeitadas todas as formas de existir.

No fim, ativista é toda pessoa que decide agir sobre o inegociável. E muitas coisas são inegociáveis a quem tem um mínimo de humanidade correndo no corpo, veja: todo mundo podendo amar quem quiser, existir como quiser; todo mundo com direito a um número suficiente de pratos de comida todos os dias, ter o que comer; todo mundo com direito a plantar e colher em sua terra ou a ter um teto para si e sua família. E por aí vai.

Deixo aqui o convite para que continue listando o que é inegociável para você. O que é isso que nos ajudará a atravessar este momento doloroso e entristecido da história para fundar um futuro de todos e todas nós. O que é isso que te faz querer tensionar os espaços, problematizar os debates, incomodar aqueles que estão sentados em cima do poder. Fazer as perguntas que ninguém quer fazer na reunião de fim de semana, em família.

Não sinta medo da palavra ativismo, mas sim de pessoas que acreditam que algumas vidas são menos vida que outras. Menos importantes ao mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL