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Tony Marlon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como o rap trouxe Cassiano até a nossa geração

Cassiano na capa do álbum "Apresentamos Nosso Cassiano", de 1973 - Reprodução
Cassiano na capa do álbum "Apresentamos Nosso Cassiano", de 1973 Imagem: Reprodução

Tony Marlon

11/05/2021 06h00

Há 15 dias dedico parte do meu tempo a pesquisar a história do sample, que é traduzido para o português como "amostra". Samplear uma música é retirar um trecho dela, grande ou pequeno, todos os instrumentos ou apenas alguns deles, e construir algo a partir dali. Geralmente uma música nova. Surgiu de longe, mas se popularizou mesmo com o movimento Hip Hop na década de 1970. A colagem de sons é uma de suas características.

Apaixonado pelo som e por querer saber a história das coisas, minha ideia era mostrar que se não fosse o rap nacional, muitas e muitos de nós passariam pelo mundo sem conhecer artistas que, um dia, a gente para e pensa num domingo à tarde: como eu vivi até hoje sem escutar essa pessoa?

Uma delas fez sua passagem na última sexta-feira (7). Foi pelas mãos dos Racionais MC's e tantos outros grupos que a existência e o talento de Cassiano foram carregados até aqui. Poucos artistas tiveram obras tão sampleadas quanto ele.

O artigo não ficou pronto a tempo, e isso fica como dor para mim. Queria poder celebrá-lo em vida. Que se reforce, então, com este, que Cassiano existiu e foi um dos gigantes. E que sem ele, talvez, não estivéssemos aqui, musicalmente falando. E como o Hip Hop salva vidas, eu iria além: fisicamente, também.

"Pra mim é, tipo assim, fenomenal: saber que ele é também Genival"

Nascido Genival Cassiano dos Santos, veio ao mundo por Campina Grande, na Paraíba, e lançou apenas quatro discos, sem contar os álbuns com Os Diagonais. Pouco, mas obras tão a frente do seu tempo, com tantas pistas de futuro, que ajudaram a fundar a soul music brasileira. Cassiano está em muita coisa que escutamos, apesar de nem sabermos. A memória nacional não é apenas curta, como se diz. Ela é seletiva também.

Sem saber, possível que você tenha cantado Cassiano aos quatro ventos quando Ivete Sangalo, surgindo na Banda Eva, regravou "Coleção", por exemplo, em 1995.

Ou que tenha empilhado as dores das paixões de juventude com o grupo Pixote em "A Lua e Eu", também de Cassiano, do álbum "Cuban Soul: 18 Kilates", seu terceiro lançado sozinho, de 1976. Sua carreira solo ganhou o mundo depois que assinou quatro das 12 faixas do álbum de estreia de Tim Maia, ao lado de Paulo Zdanowski. Todos sucessos que atravessam o tempo feito "Eu Amo Você. Feito "Primavera".

"Benção, mãe. Estamos iniciando nossas transmissões"

Cassiano alcançou grande parte da nossa geração sampleado na faixa que abre o icônico "Nada Como Um Dia Após o Outro Dia", álbum lançado em 2002 pelos Racionais MC's. É da sua "Uma Lágrima", canção de 40 anos antes, que veio a batida certeira que sustenta a voz de Mano Brown na faixa "Eu Sou + Você", convidando periferias e favelas a ousarem sonhar e realizar. Mas avisando: não será tarefa fácil, como de fato não tem sido.

É também de Cassiano o sample da faixa que fecha o álbum. "Onda" é a música de fundo para os abraços mandados no começo de "Da Ponte Pra Cá". E engana-se quem acha que sua memória ficou restrita à cidade de São Paulo. Outro Genival, o GOG, de Brasília, a usou em "Foi Somente (Onda)", música que reivindica o direito ao descanso. E lembra que tão bom quanto os pés na areia é manter os pés no chão.

Li no fim de semana: "talentoso, Cassiano morreu esquecido pelo seu público". Quem escreve coisas assim talvez não tenha vindo de periferia ou favela, imagino. Ou saberia que em muitas delas, é a voz dele que inaugura as tardes de sábado.

A outra hipótese é que essa pessoa nunca tenha escutado rap nacional. Ou saberia que Cassiano, quando não se faz presente sampleado, aparece para nomear um tempo: "Na vitrola rolava muito som Black: Tim Maia, Cassiano, entre outros flashback". Não importando o jeito, o rap segue eternizando Cassiano, que já nasceu imortal.

E a conversa continua

Entenda o sample no Brasil nessa exposição de KL Jay: http://klmusica.com.br/exposicao/

Escute mais de 80 horas de músicas sampleadas no rap nacional: https://open.spotify.com/playlist/70KbEZSbuRRgLYWwtY9I08?si=6d654b7ea9bd4f88

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL