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Tony Marlon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sobre pandemia, urgências e doações: o pior nunca passou

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Imagem: iStock

Tony Marlon

13/03/2021 04h00

Me explicaram que é natural em situações como a que estamos vivendo existir uma primeira grande onda de solidariedade e mobilização social para doações. Depois estabiliza. É quando pipocam, em todo canto, grupos se organizando para entender as urgências e como podem agir. Isso acontece em situações extremas, grande comoção. O que estamos vivendo não tem nome.

Em julho do ano passado, a repórter Diana Carvalho já contava em ECOA que as doações diminuíam dia a dia, ao contrário da pandemia, que seguia firme. Nosso hoje é diferente, mas para pior.

Fora de controle, a pandemia cresce levando mais de 2 mil vidas por dia e sistemas inteiros de saúde ao colapso ou perto disso. Para piorar, seguimos sem uma ideia nacional de como nos tirar disso tudo. Quem não morre nas filas intermináveis dos hospitais, corre o mesmo risco pela falta de comida no prato.

As políticas públicas para socorrer e cuidar de quem mais precisa seguem sendo desarrumadas, longe da necessidade real dos brasileiros e brasileiras. Grupos políticos inteiros confirmam a tese de que existem duas realidades: a da população e a da classe política. Parte dela segue transformando vidas em moeda de troca. Ou em simples números para se contar na TV.

Cansada de tudo, o que é justo e humano, parte da sociedade vai se desmobilizando aos poucos, seja por entender que o pior já passou, o que não é verdade, seja porque não há quem sustente um ano inteiro de todos os dias dizer: tem gente com fome, tem gente com fome.

E há aqueles e aquelas que não têm direito ao cansaço ou à pausa. Estão no olho do furacão, no coração do problema. São grupos comunitários, coletivos de todo tipo, redes inteiras e projetos sociais que pensam onde os pés pisam, como diz o poeta. Essas pessoas e organizações continuam na linha de frente, arranjando maneiras de convencer quem pode ajudar, quem tem o poder econômico nas mãos, que a pandemia nunca acabou. E que a fome não respeita a virada de ano ou uma carta de boas intenções sobre os meses que virão.

Foram essas pessoas, de vários cantos do Brasil, com quem conversei ao longo da semana para chegar até aqui. Elas me contaram que nunca estivemos com tantas urgências, tantas necessidades. E que nunca estivemos, também, com tão poucas doações chegando na ponta, chegando em quem faz as coisas acontecerem na rua de terra, sem as burocracias intermináveis que ocupam as instituições e uma parte de nós. Tem gente passando fome.

E, sim, temos por aí políticas públicas sendo construídas, com muita demora, que seja dito. Mas se o que estamos vivendo não tem nome, não deveria ter também limite os nossos esforços para pensar maneiras de enfrentar este momento. Quem está na ponta precisa de mais. Nos últimos três dias, somente por aqui, foram cinco ligações ou mensagens que diziam: "Você conhece alguém, empresa ou pessoa que possa nos ajudar a comprar cestas básicas? Tem gente que não tem o que comer há dias aqui na nossa comunidade."

Tem gente que não tem o que comer há dias aqui na nossa comunidade.

Às fundações, aos institutos, às grandes empresas, às pessoas físicas com seus milhões de ativos, aos clubes de futebol, aos fundos de investimento de todo tipo, a quem estiver lendo essa mensagem e puder ajudar com o que tiver, por favor, faça isso. Procure alguém ou algum projeto social que você confie e faça isso. Não é sobre muito, é sobre alguma coisa.

Ou a gente recupera aquela mobilização dos primeiros dias e entende que estamos no auge do pior, ou o futuro será uma palavra sem gente dentro. Volte a doar, se puder. Continue doando, se puder.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL