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Tony Marlon

Em 2020, a morte nos alcançou como nunca

Imagem do cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, com valas preparadas para o sepultamento de vítimas da Covid - Nelson Almeida/AFP
Imagem do cemitério da Vila Formosa, em São Paulo, com valas preparadas para o sepultamento de vítimas da Covid Imagem: Nelson Almeida/AFP

Tony Marlon

05/12/2020 04h00

A morte alcança o corpo físico de quem faz a passagem, mas se expande feito onda abraçando quem anda ao lado. É assim que morrem famílias inteiras, mesmo quando apenas uma pessoa não continua por aqui.

Partem um pouco a mãe, a filha, o pai. O irmão mais novo ou a mais velha. Os amigos e amigas desde o colégio, ou antes. Aquele conhecido com o qual ela se encontrou uma vez no verão de 2012, e desde então passaram se seguir nas redes sociais. Foi por lá que soube de tudo.

Estar viva é um mistério, mas morrer o corpo a mim é ainda mais. Certo dia alguém existe, te manda uma mensagem de voz. Diz que você errou na última combinação de roupa, ou que com sorte, máscara, dois potes de álcool em gel e muito isolamento pois a pandemia não acabou, pode ser que vocês passem a virada de ano juntas numa casa longe de toda essa confusão.

Daí, no outro dia existe uma lembrança e uma falta enorme no peito. Já parou para pensar nisso: você sai com a certeza que vai encontrar alguém que "deixou" no mesmo lugar de sempre, daí você volta um dia e não, ela não está mais lá. Ela nunca mais estará mais lá

Sem mensagens, sem ligações, sem curtidas na foto com o mais novo meme engraçado que você encontrou e publicou. Aquela recomendação de filme que ela fez, e você não viu, pois estava trabalhando demais, é lida de novo na tela do celular quase como uma declaração de amor. E não deixa de ser.

Continuar andando por aqui ganha uma perspectiva diferente quando alguém muito perto de nós segue seu caminho. Uma amiga me disse que o sentido da vida ganha uma nova fundura em momentos como este, e eu precisei concordar. Foi assim que me doeu cada uma das doze vezes que me disseram que precisavam me contar uma coisa, sempre começa assim, e era sobre a morte de alguém importante demais para mim.

Deve ser algo sobre este período do ano que, dizem, a gente fica assim mesmo, repensativo, mas eu não sei se em algum outro momento do mundo eu, e uma multidão, percebeu e caminhou com a morte como nos últimos doze meses. Percepção ou consciência, eu não sei. Perceba, uma pessoa importante que se foi para cada mês, e isso me parece muita coisa para pessoas que mal podem se encontrar para produzir afeto, cuidado e outras memórias.

Gilberto Gil escreveu que não tem medo da morte, mas de morrer sim. E explicou a diferença cantando: é que a morte já é depois que eu deixar de respirar. Morrer ainda é aqui na vida, no sol, no ar.

Está chegando ao fim o ano em que muitos e muitas perderam entes queridos, amizades de toda uma vida. Por tantos motivos. De COVID 19, até aqui, dolorosas mais de 175 mil existências que se foram. De alguma maneira, estou pensando alto, não sei se concorda, todas e todos nós morremos um pouco neste 2020.