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Tony Marlon

O Brasil se acostumou com uma realidade doente

Supermercado da rede Carrefour, em Porto Alegre (RS), onde um João Alberto foi espancado e morto por dois homens brancos - Gustavo Aguirre/TheNews2/Estadão Conteúdo
Supermercado da rede Carrefour, em Porto Alegre (RS), onde um João Alberto foi espancado e morto por dois homens brancos Imagem: Gustavo Aguirre/TheNews2/Estadão Conteúdo
Tony Marlon

Formado em jornalismo pela Universidade Santo Amaro ? UNISA, Tony se reconhece antes como educador, feito todo mundo é. A partir do Campo Limpo, periferia da zona sul de São Paulo, trabalha por uma comunicação que mova positivamente corações, discursos, espaços e relações. Acredita que "Dislexicando" é a coisa mais bonita do mundo e quer o primeiro parágrafo de "O Livro dos Títulos" em sua lápide, lá no futuro. Anda falando por aí: "Não fosse o Sarau do Binho, até hoje eu não saberia que poeta é alguém que solta pipa na laje". É autor do podcast https://paisagemsonora.com

21/11/2020 04h00

O antropólogo e psicólogo Roberto Crema, no filme Eu Maior, diz que "uma pessoa normótica é aquela que se adapta a uma realidade doente". Naturaliza absurdos.

Normose, ele conceitua, "é uma doença típica de momentos em que nós convivemos num contexto em que predomina a violência, a falta de escuta, de cuidado e de responsabilidade". É isso: o Brasil não é o país do futuro. O Brasil é uma nação normótica.

Na quinta-feira à noite, às vésperas do feriado da Consciência Negra, João Alberto Silveira Freitas morreu após ser agredido no supermercado Carrefour, na zona norte de Porto Alegre. João era um homem negro, enquanto seus agressores eram homens brancos.

O vídeo do assassinato ganhou as redes sociais. Nele é possível ver uma pessoa que trabalha no mercado tentando impedir a gravação: "Não faz isso que eu vou te queimar na loja". Alguém espancado até a morte não motiva uma intervenção, mas o celular registrando tudo para denunciar, sim. Normose.

Em agosto, no Recife (PE), em loja da mesma rede, a morte de um homem não impediu que o local continuasse funcionando. O corpo do representante de vendas Moisés Santos foi cercado por caixas de papelão e engradados de cerveja. Coberto por guarda-sóis ficou isolado com uma fita amarela e preta enquanto clientes continuavam as compras. Normose.

Há seis anos Claudia Silva Ferreira foi arrastada por uma viatura da PM carioca por 350 metros. Morreu logo depois. Um dos policiais envolvidos no caso foi nomeado na última terça-feira para um importante cargo no governo estadual. Procurados, disseram que ele responde a processo, mas que não existe nenhuma condenação ainda. Normose.

Entre 2008 e 2018, segundos dados recentes do Atlas da Violência, o número de homicídios de pessoas negras no país aumentou 11,5%. Já entre pessoas não negras caiu 12,9%. Logo após saber do assassinato de João Alberto, o vice presidente Hamilton Mourão declarou: "Para mim, no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar aqui para o Brasil. Isso não existe aqui".

A normose brasileira não é simplesmente uma patologia, cada vez mais se mostra como um projeto. Ao acostumar os olhos e a opinião com a barbárie, com o absurdo, parte da sociedade lava as mãos e responsabiliza o espírito do tempo pela dormência ética e de humanidade que carrega no peito.

Enquanto isso, a outra parte de nós segue contando os corpos, as rodas de luto e o número de vezes em que se levanta para tentar garantir o mínimo: a vida. Isso é inacreditável.