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Tony Marlon

Elas usam jogos para explicar o sistema político brasileiro

Fast food da Política - Arquivo pessoal
Fast food da Política Imagem: Arquivo pessoal
Tony Marlon

Formado em jornalismo pela Universidade Santo Amaro ? UNISA, Tony se reconhece antes como educador, feito todo mundo é. A partir do Campo Limpo, periferia da zona sul de São Paulo, trabalha por uma comunicação que mova positivamente corações, discursos, espaços e relações. Acredita que "Dislexicando" é a coisa mais bonita do mundo e quer o primeiro parágrafo de "O Livro dos Títulos" em sua lápide, lá no futuro. Anda falando por aí: "Não fosse o Sarau do Binho, até hoje eu não saberia que poeta é alguém que solta pipa na laje". É autor do podcast https://paisagemsonora.com

07/11/2020 04h00

A frase que dá as boas-vindas a quem chega ao site da Fast Food da Política é uma boa síntese do que ela deseja entregar ao mundo. Diz assim: já pensou em aprender as regras do sistema político de um jeito rápido e criativo?

A iniciativa surgiu em 2015 durante uma viagem ao redor do Brasil em que estavam sendo criados e testados jogos sobre a política. Em uma das paradas, durante uma manifestação em Brasília, Júlia Carvalho e outras participantes resolveram aplicar alguns deles. "Fizemos um mutirão para explicar quais seriam as consequências práticas de um impeachment e o que de fato faz a chefe de governo e de estado", ela explica. "Terminado o jogo, não raro eram os casos em que manifestantes questionavam a própria manifestação".

De lá para cá, o que era uma intervenção de amigos e amigas virou uma organização premiada e reconhecida país afora, dedicada a descomplicar uma coisa que, para muitos e muitas, especialmente neste momento, chega perto do insuportável: a política brasileira.

Em entrevista à coluna, Julia, idealizadora do projeto, explica que não é uma coincidência a escolha por jogos, algo que está presente na imaginação e no dia a dia de crianças a adultos. Além de familiaridade, de ser algo que remete ao prazer, à diversão, eles funcionam também como mediadores para conversas difíceis. Mas que são necessárias na sociedade. "Com os jogos podemos aprofundar assuntos que são polêmicos de maneira que, questionar e dialogar sobre aquilo, não precise ser uma disputa e sim uma construção de um entendimento em grupo".

A Fast Food da Política já tem mais de 20 jogos em seu catálogo, com boa parte deles, inclusive, podendo ser conferidos pelo site, gratuitamente. Variam de formato, maneiras de jogar e até quantidade de participantes. São diferentes em temas, também.

Por exemplo, se você quiser entender melhor o sistema para garantia de direitos das mulheres, vale conhecer o Direitos e Silêncios. Mas se a ideia é aproveitar a proximidade das eleições para compreender o que está em jogo em um debate eleitoral, e como ele funciona na prática, a dica é o (De)Bate-Boca, em que os jogadores e jogadoras podem ser candidatas por um dia. E assim vai.
"Brincamos que se queremos resultados diferentes, não adianta mudar os personagens e manter as regras do jogo. Para além da discussão de partido, nos jogos as pessoas percebem rapidamente que além do poder de figuras específicas, existe também um grande arsenal institucional que mantém o mundo num lugar de reproduzir as desigualdades".

Além de Julia, que você poderá conferir no papo abaixo, completam a Fast Food da Política: Thays Esaú, Gabrielle Nascimento e Bruna Quirino. Saiba mais visitando o site.

Fast food da Política - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

O que você sente que é o grande impeditivo atualmente para conversarmos sobre política?

Oscilar entre o medo de quem pensa diferente de você, e o desprezo.

Por que usar jogos para conversar sobre política?

É que com jogos podemos aprofundar assuntos que são polêmicos de maneira que, questionar e dialogar sobre aquilo, não precise ser uma disputa e sim uma construção de um entendimento em grupo. Os jogos são também fotografias sociais que traduzem problemas sistêmicos, pedaços da nossa cultura e da violência que ainda está presente nela. Assim, eles também são ferramentas para rever preconceitos, analisar lógicas institucionais e políticas que ainda produzem desigualdades e pensar como modificar esses contextos.

Como os jogos podem nos ajudar num momento de intensa polarização como agora?

Primeiro é um convite para se aproximar da política e notar que além de intrigante, ela pode ser sim um instrumento para escrever um futuro mais parecido com aquele que desejamos. Segundo, levando em consideração que estamos às vésperas de uma eleição, é perceber como podemos, ao invés de cair nos discursos de polêmicas e distorções, focar em como as competências que cabem realmente aos candidatos municipais podem se traduzir em um voto nas propostas que acreditamos contribuir para nossa cidade.

Como eles são pensados e construídos? Vocês fazem alguma pesquisa pública?

Para produzir sínteses e entendimento do que é estratégico sobre um tema, promovemos oficinas abertas, reuniões, e acompanhamento do projeto com lideranças, estudantes, cientistas nos temas, e outras pessoas que atuam nas áreas para nortear abordagens e que tipo de conhecimento não pode faltar no jogo. Para construir o conteúdo propriamente, os jogos passam por extensa pesquisa e gestão de conhecimento de fontes oficiais, jornais tradicionais, estudos sobre o tema, legislações, e estatísticas que influenciam na pauta. A partir disso nós buscamos reunir o que historicamente foi perpetuado no Brasil sobre aquele tema, o que hoje tem sido feito, fomentado, e como as atuais políticas públicas se comportam para manter o passado ou avançar a partir dele.

É possível que consigamos voltar a falar de política, sem colocar na frente escolhas partidárias?

Brincamos que se queremos resultados diferentes, não adianta mudar os personagens e manter as regras do jogo. Para além da discussão de partido, nos jogos as pessoas percebem rapidamente que além do poder de figuras específicas, existe também um grande arsenal institucional que mantém o mundo um lugar de reproduzir as desigualdades. Falando sobre essas legislações, políticas e processos que tem decidido nosso destino, percebemos também em um nível mais pessoal como contribuímos para cada fatalidade, seja no discurso ou na prática. É uma outra estratégia para poder falar sobre o que é difícil, está em tudo, e precisa urgentemente mudar.

Por onde os jogos têm circulado hoje, onde estão sendo jogados?

Em manifestações, praças, vias públicas, escolas, faculdades, aparelhos públicos, coletivos, casas de cultura. Em espaços de poder como câmaras, assembleias, secretarias, conselhos.

E onde eles deveriam estar, mas vocês ainda não conseguiram chegar?

Seria muito importante jogarmos também em espaços como Palácio do Planalto, colégio de líderes ou no Ministério da Educação. Também em escolas particulares, conglomerados econômicos, com membros do sistema de justiça, e outros contextos em que pessoas acabam tendo bastante poder em mãos, mas pouca reflexão sobre como aquilo precisa ser colocando em movimento de maneira crítica e não individualista.

Quais são os campos e áreas em que as pessoas menos entendem, a partir da experiência de vocês?

Funcionamento do judiciário. Entendimento sobre direitos básicos, como por exemplo, trabalhistas. Também o sistema tributário, a função dos poderes e dos cargos. O que pedir para cada cargo e o que ele de fato pode fazer ou não, sabe.

Para quais assuntos estão olhando pensando em jogos futuros?

Gostaríamos de ter mais jogos que abordassem temas como sistema econômico, sistema carcerário, tributário, reforma agrária, racismo, e outras questões estruturantes do nosso país.

Como fazer tudo isso chegar na maior quantidade possível de pessoas?

Além de formar uma rede de educadores permanente para atuar em diversos contextos, gostaríamos que esses jogos pudessem circular e trazer de volta histórias, dados, de como os brasileiros têm pensado e feito política no país institucionalmente também, mas para além da grande mídia.

Os jogos são pagos? Como faz para acessá-los?

Os jogos são abertos e podem ser reproduzidos por qualquer pessoa desde que não seja para fins comerciais. Abrimos justamente porque os entendemos como bens públicos que podem facilitar nosso processo para chegar em uma política que faz sentido. Enquanto política pública ele com certeza tem potencial, agora como, é um caminho para ainda se construir.