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Tony Marlon

Conheça a TodesPlay: o streaming por um cinema diverso

Na TodesPlay é possível encontrar animações, documentários e até séries, produzidas nos vários cantos do Brasil - Reprodução/Bia Desenha
Na TodesPlay é possível encontrar animações, documentários e até séries, produzidas nos vários cantos do Brasil Imagem: Reprodução/Bia Desenha
Tony Marlon

Formado em jornalismo pela Universidade Santo Amaro ? UNISA, Tony se reconhece antes como educador, feito todo mundo é. A partir do Campo Limpo, periferia da zona sul de São Paulo, trabalha por uma comunicação que mova positivamente corações, discursos, espaços e relações. Acredita que "Dislexicando" é a coisa mais bonita do mundo e quer o primeiro parágrafo de "O Livro dos Títulos" em sua lápide, lá no futuro. Anda falando por aí: "Não fosse o Sarau do Binho, até hoje eu não saberia que poeta é alguém que solta pipa na laje". É autor do podcast https://paisagemsonora.com

20/10/2020 04h00

Em "Enola Holmes", produção da Netflix, Edith (Susie Wokoma) responde dessa maneira a Sherlock Holmes (Henry Cavill): você não se interessa por política porque não tem o mínimo interesse em mudar um mundo que o favorece tanto.

Holmes questionava as motivações de Eudoria (Helena Bonham), sua mãe e de Enola, ter saído de casa para se engajar na luta em favor da Lei da Terceira Reforma, que traria profundas transformações à sociedade britânica.

Imagino que seja algo parecido com isso que inspire declarações como as do escritor Stephen King, dadas em janeiro. Em resposta às cobranças públicas pela falta de diversidade entre as indicações ao Oscar, King afirmou que qualidade é mais importante que diversidade. Em quase cem anos apenas 2% dos prêmios da academia foram para profissionais negros, para ficar em um exemplo.

Três horas mais tarde, com a publicação ganhando o mundo, King suavizou: "ninguém consegue ganhar prêmios se estiver excluído do jogo". Também escreveu um artigo no The Washington Post sobre o assunto.

Se você, feito eu e o Stephen King, é uma pessoa branca, será realmente difícil imaginar por qual motivo se preocupar tanto com representatividade nas telas, assim como com diversidade nas equipes que produzem os filmes que vemos. Mas essa conversa não é só necessária. É urgente e improrrogável. E tem a ver com todo mundo.

Pegue a frase de Edith, retire a palavra política e podemos ter uma pista de o porquê dessa dificuldade, às vezes, em trabalharmos todas e todos por pluralidade no mundo audiovisual, e em todos os campos: você não se interessa por diversidade porque não tem o mínimo interesse em mudar um mundo que o favorece tanto.

A EQUAÇÃO É SIMPLES

Somos você e eu, quase que o tempo todo, a nos enxergarmos nas novelas, séries e filmes. Super Homem, Batman, Mulher Maravilha. Friends. Quase todas as Helenas da novela das nove. São, na grande maioria, pessoas parecidas com você e comigo que protagonizam os espaços de representação e poder, povoando o imaginário coletivo. Especialmente são pessoas parecidas comigo: homens.

Percebe o motivo de tanta dor, choro e da importância que Chadwick Boseman, o Pantera Negra, deixou pelo caminho quando fez sua passagem, em agosto passado? Para uma multidão de crianças aquela foi a primeira vez que seus pais e mães pagaram ingresso para que se enxergassem do outro lado da tela feito um super herói daquele tamanho. Não é possível que isso seja tão complicado de se entender.

Mas a falta de diversidade no mercado audiovisual não é um problema exclusivo de Hollywood, especialmente entre as equipes de produção.

Em 2018, A Agência Nacional do Cinema - ANCINE, publicou um levantamento inédito traçando o perfil da indústria cinematográfica brasileira. Analisando 142 longas-metragens brasileiros lançados comercialmente em salas de exibição no ano de 2016, o estudo surpreendeu um total de zero pessoas mostrando que a grande maioria teve na direção pessoas brancas: 97,2%.

As mulheres comandaram 19,7% dos filmes, enquanto os homens negros apenas 2,1%. Nenhum filme foi dirigido ou roteirizado por uma mulher negra no período do levantamento. Indígenas ou pessoas trans, então.

E é por isso que precisamos parir novos futuros desejáveis, como diz Lala Deheinzelin. Futuros em que o mundo, e as estruturas, sejam de fato suporte para a existência de todos e todas. Não impeditivas para parte delas. Um pouco deste futuro brotou no domingo (18), com o lançamento da TodesPlay.

O STREAMING DA DIVERSIDADE

Lançada no dia em que Grande Otelo faria 105 anos, a TodesPlay é gerida pela Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN) e vem ao mundo para, de um lado, expandir a conservação, memória e a preservação das narrativas identitárias. Mas quer também impulsionar economicamente realizadoras audiovisuais LGBTs, indígenas e negros, profissionais que são o foco do negócio.

Apesar de usar um modelo de negócio similar a gigantes como Amazon Prime e a própria Netflix, e se posicionar feito elas, uma plataforma de streaming, a TodesPlay tem propósito bem diferente.

"Ela pode ser essa primeira janela para os talentos diversos do audiovisual brasileiro", explicou Viviane Ferreira, CEO da plataforma e presidente da A.P.A.N, durante a live de lançamento. Por primeira janela, entende-se, ser o lugar em que os filmes possam começar a ser distribuídos, um dos grandes desafios hoje para realizadores independentes: fazer suas obras circularem, chegarem ao grande público.

Com produção na TodesPlay, o longa "Travessia", a cineasta Riane Nascimento sinalizou na mesa de abertura que "essa deve ser a primeira vez que muitos e muitas de nós consegue colocar o filme numa plataforma de grande alcance". Geralmente, completou, as produções ficam rodando pelos festivais, depois vão parar na internet, sem que os profissionais ganhem nada por isso.

"Muitas produtoras disponibilizam suas criações no Youtube e Vimeo. No entanto, essas plataformas faturam milhões e quem produz dificilmente tem retorno financeiro", explica Thais Scabio, Gestora de Desenvolvimento de Negócios da plataforma. "Na TodesPlay, além de fortalecer toda a rede de produção, os autores poderão lucrar com novas obras".

É sobre representatividade, sim. Diversidade, sim. Mas é também sobre uma revolução no mercado audiovisual brasileiro. No catálogo você irá encontrar animações, documentários e até séries, produzidas nos vários cantos do Brasil. Feito Bia Desenha e seu pé de azeitoca, que ilustra essa coluna.

COMO VAI SE SUSTENTAR

Os criadores e criadoras que tiverem suas obras selecionadas para o streaming serão remuneradas por meio de participação nos lucros revenue share. Ou seja: quanto mais views a obra tiver, mais o produtor ou produtora recebe.

Para manter o projeto de pé, a plataforma nasce com duas opções de acesso ao público. Na modalidade gratuita, assinantes receberão obras selecionadas, conteúdos de mostras e de festivais de parceiros. Já na versão paga, a TodesPlay disponibilizará materiais exclusivos de curtas, longas metragens e séries.

O objetivo é chegar a dezembro com ao menos 10 mil assinaturas. Com R$ 72, você acessa a TodesPlay por um ano. Pacotes mensais e trimestrais completam os planos.

Ana Caroline Brito, realizadora audiovisual de Brasília, é uma das profissionais que compõem o time de curadoria da plataforma. Escolhe os filmes que entrarão no catálogo. São dela as palavras que fecham essa coluna, mas esperançam o futuro que a gente precisa, um futuro para todo mundo.

"A TodesPlay é isso: a gente se vê na frente da tela, mas se encontrar também atrás dela, em quem está criando o cinema. Mais mulheres pretas, mais indígenas, mais LGBTS. Queremos que esteja aqui a nossa subjetividade sem estereotipagem, sem violência".

A expectativa da equipe criadora é que, em um ano, a TodesPlay possa produzir seus primeiros conteúdos originais, financiados pelo seu modelo de negócios.