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Tony Marlon

Já escolhi meu plano de governo: as letras do Emicida

Tony Marlon

Formado em jornalismo pela Universidade Santo Amaro ? UNISA, Tony se reconhece antes como educador, feito todo mundo é. A partir do Campo Limpo, periferia da zona sul de São Paulo, trabalha por uma comunicação que mova positivamente corações, discursos, espaços e relações. Acredita que "Dislexicando" é a coisa mais bonita do mundo e quer o primeiro parágrafo de "O Livro dos Títulos" em sua lápide, lá no futuro. Anda falando por aí: "Não fosse o Sarau do Binho, até hoje eu não saberia que poeta é alguém que solta pipa na laje". É autor do podcast https://paisagemsonora.com

17/10/2020 04h00

Em O Céu é o Limite, Emicida, sempre ele, diz que o triunfo, se não for coletivo, é do sistema. Antes da expressão establishment desembarcar por aqui, era assim que nós, os românticos do começo dos anos 2000, chamávamos as estruturas visíveis e invisíveis que sustentam e alimentam as violências e desigualdades do país: sistema.

Parece que estamos falando de uma outra vida, até.
Em outro mundo me parece que seja um consenso, nós realmente estamos.

Foi o rap, a aula de sociologia que nunca terminou, o responsável por me apresentar temas, debates e expressões que me ajudaram a vir até aqui, ao menos com um dos pés na conversa pública. Sem ele, acredito, continuaria, e continuaríamos, como o personagem de Fim de Semana no Parque. Capão Redondo, meados dos anos 1990: vendo tudo do lado de fora.

O Racionais MC’s, aliás, foi o primeiro coletivo de comunicação do qual me lembro. Depois eu conheci o Núcleo de Comunicação Alternativa, o NCA. Eles, e tantos outros, alfabetizaram meu olhar para o mundo. A gente não sabe que está na História até olhar para trás, a Gisele Brito que me ensinou. Desconfio, por isso, que em breve teremos uma presidente que suba a rampa do Congresso ao som das batidas do mestre KL Jay. Imaginou? Eu já.

Estamos no tempo da produtificação da vida, não sei se você concorda. Muitas pistas apontam que sim. Quase tudo: sentimentos, comportamentos e até relações chegando perto demais de um preço, passos longe demais de valor, o que é muito diferente. Outro dia eu escutei que se alguma coisa nos chega de graça, saibamos, o produto somos nós. Será mesmo?

Sem atenção na medida certa você e eu, por uma publicação que viralizou, seremos o mais novo produto em minutos pelas redes. E produto se consome depois se descarta, joga-se fora. Produto não tem humanidade, chega pronto para o consumo. Igual geladeira, fogão. Gente não, gente é outra coisa.

Para nos tornarmos gente precisamos de tempo, jornada, interações e algum espaço para o erro. Tudo que, em geral, a internet não nos oferece tanto e agora. Mas existem exceções.

O Dilemas, da Lua Barros e do Pedrinho Fonseca, por exemplo. AmarElo Prisma, da Laboratório Fantasma com o MM Izidoro, outro exemplo. O trabalho e as conversas impulsionadas pelo Instituto Procomum, ali em Santos, no litoral paulista. Leia tudo que for escrito pela Georgia Nicolau.

Essas são pessoas, projetos e organizações que estão comprometidas em construir espaços, conversas e vidas que nos carreguem para um futuro menos personalista, individual. Bem diferente de agora. Coletividade não é o contrário de individualidade, mas uma oposição ao individualismo.

Se a gente só existe na relação com outro, e só é assim que a gente existe mesmo, como muitos e muitas de nós ainda acredita que conquista é exclusivamente um mérito individual? Não entendo. A Tia Helenice, da 3ªB, é tão responsável pelo que você está lendo agora quanto eu que trouxe as ideias para a palavra.

E é aí que voltamos ao princípio dessa conversa. Quando o Emicida diz que o triunfo, se não for coletivo, é do sistema, eu entendi assim, mas posso estar errada. Na peneira que diz quem avança ou não, quem ocupa os lugares, espaços e posições, ou não, as coisas só mudam realmente quando nos tornamos multidão. O primeiro que entra puxa os outros, algo assim.

Ter apenas um ou uma de nós ao redor não diz nada sobre como as oportunidades são iguais para todo mundo, o que restaria a cada pessoa é o esforço. Mas explica bem o porquê tantas pessoas que se parecem entre si, e vindas de lugares que tanto se parecem, são a maioria em determinados lugares.

Você não está no lugar errado. O seu lugar é onde você quiser.

Seremos o país do futuro quando a nova política pública de transporte for sancionada pelas mãos de quem pega o ônibus lotado nas primeiras horas da manhã, todos os dias. Quando as periferias e favelas forem a nova maioria nos espaços de poder e decisão. O Plano de Governo para este momento está em construção. É só escutar o Emicida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.