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Tomas Rosenfeld

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quando a ficção encontra a realidade

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Imagem: iStock
Tomas Rosenfeld

Tomas é escritor, pesquisador e gestor, com mais de dez anos de experiência trabalhando no campo de inovação social. Formado em Relações Internacionais e mestre em Economia Internacional, Tomas é fellow da Fundação Alexander von Humboldt. Ao longo do último ano, atuou como pesquisador visitante no Impact Hub Berlim, estudando empreendedores sociais na capital alemã. Atualmente, como doutorando e research fellow da Ernst Ludwig Ehrlich Studienwerk, pesquisa formas de fazer a floresta Amazônica valer mais em pé do que derrubada. Como escritor, publicou dois romances – Para não dizer que não falei de Flora (7Letras, 2015) e Vão livre (Reformatório, 2019) – o primeiro, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

05/07/2022 06h00

Uma das coisas mais interessantes da ficção é que ela não tem qualquer pretensão de estar certa e, por isso, é livre.

Ela não é um manual de eletrodomésticos ou uma coluna no jornal, que se propõem a descrever detalhadamente o passo a passo para a instalação de uma máquina de lavar louças ou as estratégias geopolíticas empregadas em uma guerra.

Por não ter que se ocupar com o correto encaixe de peças ou o suprimento logístico em uma batalha, a ficção se vê livre para imaginar. E essa liberdade é um ótimo ponto de partida para se pensar o futuro.

Análises, artigos e estudos podem tentar prever o amanhã, mas a chance de acerto é baixa. Seguramente, existem algumas certezas que habitam nosso futuro - como, por exemplo, as mudanças climáticas. Mas o que será exatamente da vida nos próximos anos diante das alterações no clima é, em grande medida, difícil de prever.

Em função de sua natureza incerta, o futuro é um campo a ser desbravado pela imaginação. Uma vez que não se pode prevê-lo, o melhor que se pode fazer é imaginar diferentes possibilidades.

Sem dúvida, o exercício deve ser orientado por dados de realidade que tornem seus desfechos plausíveis. O cuidado, contudo, é não deixar que estatísticas e projeções limitem a imaginação.

Em um artigo recente na revista piauí, Vinícius Portella discute dois livros de ficção que narram as mudanças climáticas: o "Deus das Avencas", de Daniel Galera, e a "Extinção das Abelhas", de Natália Borges Polesso.

Segundo o crítico literário, "dificilmente um romance vai convencer multidões a respeito da realidade da crise climática, mas imaginar os futuros mutantes que brotarão das ruínas, mapear essa agonia e essa ansiedade aguda do nosso presente, tudo isso é um bom começo".

Concordo com Portella. Talvez a ideia não seja mesmo convencer multidões. Possivelmente, mapear o que existe hoje e pode existir amanhã seja a ação mais realista. Penso que a tarefa de elaborar cartografias de possibilidades seja de fato uma empreitada a ser assumida pela ficção.

Não necessariamente esses mapas tomariam a forma de livros, publicados por editoras e distribuídos em livrarias. Essa é uma possibilidade, mas não a única.

Elaborado de forma estruturada e colaborativa por um grupo diverso de pessoas, um conjunto de futuros imaginados, quando plausíveis e relevantes, ganha o nome de Cenários Transformadores.

Ao longo dos últimos anos, tive a oportunidade de acompanhar a elaboração de uma série desses cenários, trabalhando em uma empresa social chamada Reos Partners. Alguns deles tinham um recorte nacional, com foco em temas como a educação básica, a organização da sociedade civil ou a moda sustentável. Outros, eram de âmbito regional, lidando com a democracia latino-americana e o problema das drogas.

Precisamos de mais iniciativas como essas, que coloquem grupos diversos de pessoas para pensar o futuro. Como coloca Portella em seu artigo, talvez isso seja apenas "um bom começo". Pode ser verdade, mas sem ele, transformar o mundo complexo em que vivemos será cada vez mais difícil.