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OPINIÃO

Magic Johnson e os negócios de impacto

Magic Johnson, ex-jogador da NBA, na série "They Call Me Magic" da Apple TV Imagem: Reprodução/AppleTV
Tomas Rosenfeld

24/05/2022 06h00

Quando era criança, gostava de colecionar cards de basquete. Ao longo da minha carreira como colecionador, cheguei a acumular centenas desses cartões com fotos de astros do esporte.

Nesse período, durante a segunda metade dos anos noventa, os cards mais valiosos estampavam imagens de Michael Jordan. Víamos o astro passando a bola por debaixo das pernas, saltando para uma enterrada ou encarando seus oponentes, em fundos estilizados com cores vibrantes ou em preto e branco.

Eu gostava de assistir aos jogos, mas não chegava a ser um fanático do basquete. O que eu realmente gostava eram os cards. Assim, meu conhecimento sobre a história e o contexto do esporte e dos jogadores era bastante limitado.

No período em que minha coleção atingiu seu auge, Magic Johnson já havia se aposentado e acredito que tive um único card com sua foto. Em minha memória, sua imagem é distante e desfocada.

Lembrei-me dos meus cards enquanto assistia ao recente documentário sobre Magic Johnson, disponível no streaming da Apple. Enquanto assistia, pensei em uma expressão cada vez mais usada. Nela, compara-se uma fotografia a um filme, procurando expressar a necessidade de entender um fenômeno em seu contexto. Nessas últimas semanas, Magic deixou de ser para mim uma foto impressa em um card para se tornar um filme com nuances e história.

Nesse sentido, a série me trouxe um pequeno insight. Nos últimos anos, passei algum tempo estudando a ideia de negócios de impacto, que se refere a um tipo específico de empresa, que busca conciliar o lucro com um impacto social e ou ambiental positivo. Normalmente, diz-se que um negócio é ou não é social. Como exemplo, no ramo da construção, uma grande incorporadora não seria considerada uma empresa social; enquanto a Vivenda, que torna reformas habitacionais acessíveis para a população de baixa renda, seria. Assim, geralmente há apenas uma resposta à pergunta sobre um negócio de impacto - ele é ou não é.

Voltando à série sobre o Magic Johnson, ela mostra não somente a ascensão do jogador, do garoto pobre de Lansing ao astro da NBA, mas também sua vida após a aposentadoria no esporte. Em um dado momento, ele resolve se dedicar aos negócios, estuda o tema e conversa com diversos empresários sobre o rumo que teria que tomar.

Com dinheiro próprio, ele então ergue um complexo de salas de cinema em diferentes cidades norte-americanas. Em comum, elas tinham o fato de serem construídas em comunidades marginalizadas, compostas majoritariamente por populações afro-americanas e onde antes não existia qualquer sala de cinema.

Magic conta que adorava ir ao cinema quando jovem, mas se lembra de viajar cerca de quarenta minutos para chegar até a sala mais próxima. Ele conta ainda que quando construiu seu primeiro conjunto de salas todos estavam muito céticos com relação à potencial violência no entorno dos estabelecimentos.

Ele então se encontrou com os líderes da comunidade e gangues que dominavam a região, explicou o projeto, garantiu que os empregos seriam gerados localmente e que os cinemas seriam um espaço de lazer para a comunidade.

Em princípio, complexos de salas de cinema não seriam considerados por si só negócios de impacto. Vistos em seu contexto, contudo, acredito que sejam. Os empreendimentos criados por Magic Johnson são, assim, um convite para enxergar os negócios não na forma de estáticos cards, mas a partir das complexidades de um filme.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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