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OPINIÃO

Entre o medo e a esperança, na triste destruição

Vista aérea de desmatamento na Amazônia para expansão da pecuária, em Lábrea (AM) Imagem: Victor Moriyama/Amazônia em Chamas
Tomas Rosenfeld

29/03/2022 06h00

Acabo de voltar de uma viagem de três semanas pela Amazônia. Foram quatro estados diferentes, três deles no Brasil e um na Bolívia. Uma breve jornada nesse imenso bioma que cobre nove estados brasileiros, além de regiões em outros oito países. Tudo na Amazônia é grande - as distâncias, a sociobiodiversidade, o estrago.

Percorri centenas de quilômetros, em uma região que integra o atual arco do desmatamento, no encontro entre o Amazonas, Acre e Rondônia. Como resultado do avanço da degradação, a área ganhou o nome de AMACRO, um acrônimo com as iniciais de cada um dos estados. Ao percorrer as estradas que conectam a região, vemos pastos. Vastas áreas de vegetação utilizadas exclusivamente para a alimentação do gado. Uma imensidão rala que manteve de pé apenas as belas e dispersas castanheiras.

Se o pasto constituiu a paisagem mais frequente da viagem, a ilha foi a metáfora mais utilizada. Ao visitar iniciativas que têm como objetivo conciliar desenvolvimento humano e conservação florestal, ouvi com frequência de seus líderes e gestores que era esse o elemento da geografia que melhor os caracterizava. Cercados pela degradação ambiental, encontram-se em ilhas capazes de conservar a floresta em pé.

Não bastasse a aflição da imagem, um dos entrevistados adicionou à metáfora um elemento dinâmico. Não se trata de uma mera fotografia, em que a porção de terra cercada por água se mantém estática e constante ao longo do tempo. Trata-se, na verdade, de um filme, em que o aumento do nível do mar leva a uma redução progressiva da área disponível.

Como se dá normalmente em experiências densas, navegamos entre o medo e a esperança. Um alento ver associações, cooperativas e projetos em diferentes estágios lutando para conservar a floresta e elevar a qualidade de vida das populações locais. Infelizmente, talvez a palavra chave nesse caso seja resistência. Nadando contra a tendência do desmatamento, da grilagem e da produção de commodities.

No regresso de cada visita, no caminho de volta entre a sede de uma organização e o hotel na capital, a esperança vai se perdendo. Ao longo das estradas, a visão constante das vastas áreas desmatadas entristece. Pior, depois de algumas horas, quase me acostumo à paisagem, naturalizando a destruição. Interromper esse estado sonolento de quem, como eu, vive longe da floresta é um desafio.

Nas próximas colunas, falarei mais sobre essas porções de terra que resistem ao avanço da destruição.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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