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OPINIÃO

Caminhos amazônicos

Abelha Jataí, espécie sem ferrão nativa brasileira Imagem: Andre Matos/Abelha Animal
Tomas Rosenfeld

18/01/2022 06h00

João Meirelles gosta de percorrer caminhos. É um empreendedor social que produz literatura, um paulistano que foi viver em Belém e o fundador de uma organização cujo nome homenageia o caminho que um dia ligou o Atlântico ao Pacífico. Durante nossa conversa, ele transita entre a paixão pelo trabalho que vem desenvolvendo há mais de vinte anos na Amazônia com um profundo incômodo sobre a atual situação do bioma.

O Instituto Peabiru, fundado por João em 1988, desenvolve uma série de iniciativas na Amazônia, sendo seu projeto mais longevo o apoio à produção de mel de abelhas sem ferrão. "Essas abelhas estão muito mais bem adaptadas aos ecossistemas, pois estão por aqui há 4 milhões de anos e não há menos de duzentos como a Apis," diz João. O contraste entre os tempos se dá entre as abelhas nativas e aquelas trazidas por europeus durante o período colonial. Ao longo do tempo, as espécies originárias da Amazônia tiveram seu ferrão atrofiado, razão pela qual receberam seu nome. Uma das consequências é que elas não picam, o que permite que as colmeias sejam colocadas próximas das casas dos meliponicultores.

"Não inventamos nada, apenas colocamos na prateleira," conta João sobre o produto que agora pode ser encontrado em gôndolas de supermercado ou adquirido pela internet. Ao longo da conversa, ele não poupa referências "aos grandes mestres da meliponicultura", como Fernando Oliveira, gerente técnico do Programa de Abelhas da Amazônia do Instituto Peabiru, Warwick Kerr e Paulo Nogueira Neto.

Depois de ouvi-lo, é fácil perceber como o mel é um produto interessante, já que gera uma série de externalidades positivas, como diriam os economistas, ou, em outras palavras, coisas boas para o meio ambiente e sociedade. Além de aumentar a renda dos povos e comunidades tradicionais, contribui para a restauração e biodiversidade das florestas.

Como sabemos, as abelhas polinizam as plantas e, com isso, aumentam a produtividade de uma série de outros frutos amazônicos como o açaí, castanha e cupuaçu. Por não enfrentar a maior parte dos desafios encontrados por outros produtos florestais, um artigo recente de uma pesquisadora inglesa, Janet Lowore, classifica-o como um produto "quase perfeito." João brinca que é o único produto da humanidade que, caso fosse retirado de um sarcófago, poderia ainda ser consumido, em referência ao desafio da perecibilidade de diversos itens de origem florestal.

Quando pergunto sobre as iniciativas com potencial na região, João faz uma breve pausa e então diz, "é tudo ainda muito pequeno, faz trinta anos que é tudo projeto piloto." Para ele, deveríamos olhar para o que já existe, para onde está a demanda, e desenvolver cadeias mais sustentáveis para produtos como o açaí, madeira ou farinha de mandioca.

Segundo ele, "o açaí mostra como não deveria ser." Os problemas são diversos, como o trabalho infantil, ignorado pelas certificadoras, ou a criação de monoculturas, com impactos negativos sobre a biodiversidade. "O EPI (Equipamento de Proteção Individual) de quem colhe açaí é o calção... não tem nada para proteger."

Voltando ao Peabiru, o caminho que originalmente conectava Guaranis e Incas, vemos que uma das preocupações ao longo do trajeto de três mil quilômetros era a sinalização. Para que o caminho não fosse perdido com o tempo, uma espécie de gramínea, que crescia pouco e se regenera facilmente, era plantada ao longo do percurso. Para João, a chave do futuro para a Amazônia é saber ouvir. Estar atento às sinalizações, tanto aquelas comunicadas pelos povos tradicionais, como as colocadas pela demanda do mercado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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