PUBLICIDADE
Topo

Tomas Rosenfeld

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Regenerar conscientiza

Amenic181/iStock
Imagem: Amenic181/iStock
Tomas Rosenfeld

Tomas é escritor, pesquisador e gestor, com mais de dez anos de experiência trabalhando no campo de inovação social. Formado em Relações Internacionais e mestre em Economia Internacional, Tomas é fellow da Fundação Alexander von Humboldt. Ao longo do último ano, atuou como pesquisador visitante no Impact Hub Berlim, estudando empreendedores sociais na capital alemã. Atualmente, como doutorando e research fellow da Ernst Ludwig Ehrlich Studienwerk, pesquisa formas de fazer a floresta Amazônica valer mais em pé do que derrubada. Como escritor, publicou dois romances – Para não dizer que não falei de Flora (7Letras, 2015) e Vão livre (Reformatório, 2019) – o primeiro, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

23/11/2021 06h00

Durante uma conversa, geralmente não é muito difícil perceber as oscilações no ânimo do nosso interlocutor. Especialmente nos momentos em que se toca em um tema de especial interesse, quando o ritmo da fala se acelera ou os gestos se intensificam. Em uma entrevista com Graziella Comini, professora associada da FEA/USP e vice-presidente do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), houve pelo menos dois momentos em que isso aconteceu.

O primeiro deles ao falarmos em regeneração. Graziella tem estudado o tema há alguns anos e afirma gostar da ideia. "É um conceito forte", ela diz, "pois lembra do que não deu certo. Se é necessário regenerar, é porque estragamos." Assim, a regeneração se dá não somente na terra, por meio do cultivo, mas também em nossas mentes, por questionar certos paradigmas. A regeneração seria assim um convite para confrontar um modelo de desenvolvimento falho.

Graziella conta o caso da Cacauway, que produz chocolate na cidade de Medicilândia, no Pará. O local havia sido uma aposta, inserida no modelo de desenvolvimento do governo militar, de levar o cultivo da cana para a Amazônia. Diante do fracasso da iniciativa, o cacau é hoje uma forma de ampliar a cobertura vegetal em uma área degradada e, dessa forma, contribuir para a regeneração da floresta.

Durante a entrevista, o segundo momento em que os olhos de Graziella brilharam foi ao falar sobre a necessidade de fomentar o empreendedorismo. Ela conta da recém criada Rainforest Social Business School, a primeira escola de negócios da Amazônia. A iniciativa busca contribuir para o surgimento de negócios sustentáveis, que aproveitem das especificidades do contexto para criar diferenciais competitivos.

Graziella explica que a Amazônia demanda um pensamento em outra escala. "O que não dá é seguir com um modus operandi que não deu certo", ela diz e então complementa, "a ideia não é ter um unicórnio na Amazônia, mas que a somatória das iniciativas seja um unicórnio."

A questão da escala é também um lembrete para os riscos de iniciativas no contexto florestal. Em um artigo publicado recentemente, dois pesquisadores finlandeses, Ollinaho e Kröger, falam sobre três formas que as transições agroflorestais podem tomar: a boa, a ruim e a feia. Como os nomes sugerem, só há uma desejável: aquela em que uma composição diversa de espécies nativas seja cultivada por meio de modelos descentralizados de propriedade.

O risco é sermos seduzidos pela beleza das ideias e acabarmos com resultados que levam a sua pior feição. Como coloca Graziella, temos que manter o foco em um modelo de desenvolvimento de fato sustentável. Manter o equilíbrio entre os aspectos econômico, social e ambiental, contudo, raramente é simples.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL