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Tomas Rosenfeld

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sangue de beterraba

Vertumnus (Imperador Rodolfo II), de Giuseppe Arcimboldo - Wikimedia Commons
Vertumnus (Imperador Rodolfo II), de Giuseppe Arcimboldo Imagem: Wikimedia Commons
Tomas Rosenfeld

Tomas é escritor, pesquisador e gestor, com mais de dez anos de experiência trabalhando no campo de inovação social. Formado em Relações Internacionais e mestre em Economia Internacional, Tomas é fellow da Fundação Alexander von Humboldt. Ao longo do último ano, atuou como pesquisador visitante no Impact Hub Berlim, estudando empreendedores sociais na capital alemã. Atualmente, como doutorando e research fellow da Ernst Ludwig Ehrlich Studienwerk, pesquisa formas de fazer a floresta Amazônica valer mais em pé do que derrubada. Como escritor, publicou dois romances – Para não dizer que não falei de Flora (7Letras, 2015) e Vão livre (Reformatório, 2019) – o primeiro, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

26/10/2021 06h00

Ontem comi pela primeira vez um hambúrguer feito de plantas. Há um mês havia experimentado uma maionese e no fim de semana o sorvete de baunilha. Os produtos eram todos da NotCo, foodtech chilena que produz alternativas à base de plantas para alimentos de origem animal.

No caso do hambúrguer, o sangue que vi escorrendo ao final de cada mordida era recriado a partir de suco de beterraba. Na receita da Amazonika, outra foodtech do ramo, o extrato de açaí é o responsável por simular o fluido bovino.

Como diversos estudos da psicologia já demonstraram, nossa capacidade de tomar boas decisões é limitada. A dificuldade cresce quando devemos escolher entre um prazer imediato e uma recompensa futura. No caso da alimentação, existe, além desse dilema temporal, um outro: entre os benefícios para nós mesmos e os para a sociedade. A opção por carne não é apenas uma escolha com efeitos sobre nossa saúde individual, mas também sobre o bem-estar coletivo.

Para tornar o peso dessas decisões compatível com uma simples ida ao supermercado ou à lanchonete, precisamos de ajuda. Ao caminharmos entre as gôndolas do mercado ou usarmos um aplicativo de entregas, um empurrãozinho nos ajuda a absorver o peso de decisões que afetarão nossa saúde futura e terão efeitos sobre a conservação dos ecossistemas globais.

Reconhecendo nossas limitações, diversas foodtechs têm crescido, procurando reproduzir o cheiro, sabor e textura dos alimentos de origem animal. A promessa é que os alimentos sejam não só mais saudáveis, mas também tenham menor impacto sobre o meio ambiente. Assim, empresas como a NotCo e Amazonika procuram nos trazer aos poucos, por um caminho sem grandes privações, para o universo dos alimentos feitos à base de plantas.

Assim como em outros problemas complexos, a busca pelo desmatamento zero de nossas florestas oferece diferentes caminhos. Uma solução é encontrar formas de fazer as florestas valerem mais em pé do que derrubadas, valorizando os produtos dela extraídos, como o cacau selvagem ou a castanha-do-Pará, óleos para a indústria cosmética ou plantas com propriedades medicinais para a indústria farmacêutica. Tenho estudado diariamente em meu doutorado essas iniciativas que buscam conciliar a conservação da floresta ao desenvolvimento social e econômico.

Outro grupo de respostas se encontra na redução das pressões sobre a floresta. Diante da necessidade de alimentar uma população global crescente, uma das soluções nesse sentido é a contínua intensificação da produção - ou seja, cultivando mais nas áreas já disponíveis.

Estudos recentes, contudo, indicam que mudanças nos hábitos alimentares seriam mais importantes do que a intensificação para atingirmos nossos objetivos climáticos em 2050. Nesse sentido, o consumo de carne no modelo atual é altamente questionável.

Procurando uma alternativa, a NotCo usa uma série de frutas, legumes e verduras, como abacaxi, coco, repolho, ervilha, bambu, beterraba, grão de bico e diversas sementes como ingredientes para os seus produtos. A combinação desses elementos é pensada por um algoritmo de Inteligência Artificial, apelidado de Giuseppe, em homenagem ao artista italiano Giuseppe Arcimboldo, e aperfeiçoada por humanos.

Um conjunto de soluções diversas geralmente é um bom caminho para resolver problemas complexos. Nesse sentido, a homenagem da NotCo ao pintor italiano, famoso por retratar fisionomias humanas a partir de objetos como frutas, flores e verduras, parece adequada. Os retratos do pintor podem ser às vezes um pouco perturbadores, mas a mensagem é fundamental: é possível desenhar um mundo a partir de vegetais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL