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Tomas Rosenfeld

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Impacto é uma palavra de impacto

Cena de "Armageddon", de Michael Bay - Reprodução/IMDb
Cena de "Armageddon", de Michael Bay Imagem: Reprodução/IMDb
Tomas Rosenfeld

Tomas é escritor, pesquisador e gestor, com mais de dez anos de experiência trabalhando no campo de inovação social. Formado em Relações Internacionais e mestre em Economia Internacional, Tomas é fellow da Fundação Alexander von Humboldt. Ao longo do último ano, atuou como pesquisador visitante no Impact Hub Berlim, estudando empreendedores sociais na capital alemã. Atualmente, como doutorando e research fellow da Ernst Ludwig Ehrlich Studienwerk, pesquisa formas de fazer a floresta Amazônica valer mais em pé do que derrubada. Como escritor, publicou dois romances – Para não dizer que não falei de Flora (7Letras, 2015) e Vão livre (Reformatório, 2019) – o primeiro, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

12/10/2021 06h00

Tenho lidado profissionalmente com o conceito de impacto há alguns anos. Mesmo assim, a primeira imagem que me vem à mente ao ouvir a palavra impacto, ainda hoje, é um trecho do filme "Armageddon", lançado em meados dos anos 90. Por alguns instantes, vejo a superfície árida e irregular de um planeta distante, sentindo-me tenso diante da ameaça de colisão entre os corpos celestes. Assisto mentalmente os passos lentos de um Bruce Willis em trajes espaciais, mesclando-se ao som de um hit romântico da época. Opondo-se à distância, contudo, a ideia de impacto deveria nos remeter ao momento atual do nosso próprio planeta.

Para discutir o tema, entrevistei um dos maiores especialistas brasileiros no assunto, Daniel Brandão, diretor de impacto da Vox Capital. Quando pergunto como ele entende o conceito central por trás da área que lidera, ele responde enfatizando a força da palavra: "ela esquenta a cadeira, faz a gente querer se movimentar: impacto é uma palavra de impacto."

Daniel tem uma longa trajetória no setor social, iniciada nos anos 90 na Fundação Kellogg e passando pela criação de organizações como o Instituto Fonte e Move Social. Atualmente, ele vive uma transição, deixando a empresa que liderou por mais de uma década para assumir uma diretoria na Vox Capital, a principal gestora de investimentos de impacto do Brasil.

Ao definir impacto, Daniel diz que a ideia se refere às mudanças de natureza estrutural: "é uma cultura, uma atitude que muda." Ele cita como exemplos os resultados obtidos com as legislações que proibiram o cigarro em lugares fechados ou que obrigaram o uso do cinto de segurança. Tais ações tiveram um impacto na forma como vivemos.

Para ilustrar seu entendimento, Daniel conta de uma situação em um encontro realizado anos antes. Após uma longa discussão, uma líder comunitária pediu a palavra para definir o conceito na sua perspectiva: "impacto é um montão de resultados", ela disse. Ao contar o episódio, Daniel conclui: "adorei essa definição."

A discussão fica um pouco mais complicada quando queremos medir o impacto. Uma citação famosa, atribuída ao físico William Thomson, diz que "aquilo que não se pode medir, não se pode melhorar". Ao discutirmos mudanças sociais e de ordem estrutural, contudo, são vários os desafios para realizar medições.

Quando comecei o mestrado, usando a palavra impacto a torto e a direito, fui logo instruído a fazer uma escolha: abandonar o conceito ou me render à econometria. Um mantra que aprendi à época é que "correlação não implica causalidade" - ou seja, o simples fato de duas coisas caminharem juntas não nos permite dizer que uma é a causa da outra. Para evitar esse erro lógico, a única metodologia disponível seria a econometria.

Ao contar a história para Daniel, ele comenta que essa restrição no universo acadêmico é uma violência: "sequestraram a ideia de impacto, querendo atribuir a ela uma única forma de medir. Mas claro que não são todos", ele complementa, "sem dúvida existem pesquisadores que respeitam outros tipos de abordagem."

No caso da Vox, a definição do que é impacto passa pela intencionalidade do empreendedor. Se o negócio tem um propósito, uma intenção de provocar mudanças estruturais em uma população, território ou cultura, será considerado de impacto.

De fato, para negócios relativamente pequenos e em fase inicial de maturação, seria difícil empregar métodos mais rigorosos para atribuir impacto. No site da Vox, vemos o impactômetro, instrumento que mostra como o rigor com a mensuração de impacto aumenta à medida que os negócios se tornam mais maduros.

Uma conclusão possível é que existe um gradiente na forma de definir e medir o impacto. De um lado, veremos os estudos acadêmicos tradicionais e, do outro, o universo de negócios de impacto. Ambos se cruzam em diferentes circunstâncias, mas revelam necessidades e objetivos diversos.

Sem dúvida, uma perspectiva mais branda tem o mérito de estimular. Encoraja os empreendedores a aderirem às causas e pensar no impacto de suas ações em termos sociais e ambientais. O risco, contudo, é esgarçar o conceito, desgastá-lo até o momento em que signifique pouco ou quase nada.

Voltando ao "Armageddon", precisamos de iniciativas para evitar que nosso mundo se transforme em uma terra devastada pelas ameaças que atualmente vivemos. Encontrar o equilíbrio em um conceito de impacto que consiga nos empurrar para a ação, sem deixar de lado seu propósito original, é um desafio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL