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Tomas Rosenfeld

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como podemos unfuck a economia?

A equipe da empresa alemã Purpose - Reprodução/Purose
A equipe da empresa alemã Purpose Imagem: Reprodução/Purose
Tomas Rosenfeld

Tomas é escritor, pesquisador e gestor, com mais de dez anos de experiência trabalhando no campo de inovação social. Formado em Relações Internacionais e mestre em Economia Internacional, Tomas é fellow da Fundação Alexander von Humboldt. Ao longo do último ano, atuou como pesquisador visitante no Impact Hub Berlim, estudando empreendedores sociais na capital alemã. Atualmente, como doutorando e research fellow da Ernst Ludwig Ehrlich Studienwerk, pesquisa formas de fazer a floresta Amazônica valer mais em pé do que derrubada. Como escritor, publicou dois romances – Para não dizer que não falei de Flora (7Letras, 2015) e Vão livre (Reformatório, 2019) – o primeiro, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

08/06/2021 06h00

O título da coluna traduz parcialmente a pergunta que norteava o evento. Há mais de um ano, antes que tal situação se tornasse um atentado à saúde pública, estávamos no auditório lotado do Kino Internacional, um cinema com capacidade para seiscentas pessoas, na avenida Karl-Marx, em Berlim, Alemanha.

Era o terceiro evento da série "Unfuck the economy", que contava com apresentações de algumas empresas sociais, entre elas a Einhorn e Ecosia, temas das minhas últimas colunas. Se a pergunta que dava nome ao evento fosse respondida em poucas palavras pelos palestrantes daquela noite, provavelmente obteríamos a seguinte resposta: repensando o modelo de propriedade das empresas.

O anfitrião da noite era a Purpose, uma organização que apoia empresas e empreendedores em direção a um tipo específico de propriedade, chamado de "steward-ownership". Com essa ideia, buscam ir um passo além de Muhammad Yunus em sua intenção de moldar os incentivos dos empreendedores. Para o economista e Nobel da Paz Yunus, um dos pontos centrais do equilíbrio entre lucro e impacto é o veto à distribuição de dividendos para os proprietários das empresas.

De acordo com a Purpose, contudo, existe mais de uma maneira para extrair ganhos financeiros de uma companhia - além da distribuição de lucros, há o valor adquirido com uma eventual venda do empreendimento. Por isso, limitar a distribuição do lucro não é o bastante - é necessário olhar ainda para a estrutura de propriedade das organizações.

As empresas que se vinculam ao movimento liderado pela Purpose pertencem a si mesmas. Para isso, alteram seus contratos sociais com a intenção de separar os direitos econômicos e de controle. Assim, garantem que os lucros e os ativos sempre servirão ao propósito da organização e que o seu controle permanecerá com os stewards da empresa. De acordo com o dicionário de Cambridge, a palavra "stewards", em inglês, se refere a uma pessoa cujo trabalho é organizar um evento, fornecer um serviço ou cuidar de um lugar específico. Adaptando para o contexto usado pela Purpose, os fundadores e empreendedores atuariam como guardiões do propósito da empresa, focados em zelar por seus princípios e valores e não no aumento de patrimônio dos acionistas.

No site da Purpose, é possível baixar um livro publicado pela empresa onde se aprofundam as ideias sobre a relação entre propriedade e propósito. O material com 117 páginas inicia-se com a história do Império Romano e passa pela trajetória de empresas tradicionais como Zeiss e Bosch para argumentar que diferentes tipos de propriedade são possíveis.

Um dos pontos que o livro levanta é que, no mundo ocidental, apesar de grande parte das posições de liderança não serem herdadas, a propriedade é. Um CEO geralmente é escolhido por suas competências, enquanto as ações de uma empresa são transferidas aos herdeiros. Atualmente, o conceito de propriedade é amplo e nos permite fazer quase tudo o que quisermos com o que nos pertence. Contudo, como afirmam os autores da publicação Steward-ownership: rethinking ownership in the 21st century, a propriedade de uma empresa é uma responsabilidade - e não meramente um investimento financeiro - e deveria ser tratada como tal. Respondendo à pergunta inicial do evento, essa seria a chave para não foder a economia.

Sobre o palco em um cinema lotado, os fundadores da Purpose, Ecosia e Einhorn apresentam suas experiências pessoais na busca por modelos alternativos de propriedade, que mantenham o propósito das empresas que criaram. A empresa, segundo eles, não deveria ser vista como uma fonte de lucro pessoal, mas seus lucros encarados como uma semente para o futuro e, portanto, reinvestidos ao invés de privatizados.

Quando saí do evento naquela noite, andando pela monumental avenida construída na parte oriental de uma Berlim dividida, lembro de tentar imaginar como seria a vida quando todos aqueles simétricos edifícios foram erguidos. Hoje, ao voltar para esse momento, sinto um estranhamento parecido: a sensação de notar o contraste entre períodos tão distantes, solidificados na arquitetura ou na memória.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL