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Tomas Rosenfeld

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sexo sustentável ou o oposto da saudade

Preservativo de látex da empresa alemã Einhorn - Reprodução
Preservativo de látex da empresa alemã Einhorn Imagem: Reprodução
Tomas Rosenfeld

Tomas é escritor, pesquisador e gestor, com mais de dez anos de experiência trabalhando no campo de inovação social. Formado em Relações Internacionais e mestre em Economia Internacional, Tomas é fellow da Fundação Alexander von Humboldt. Ao longo do último ano, atuou como pesquisador visitante no Impact Hub Berlim, estudando empreendedores sociais na capital alemã. Atualmente, como doutorando e research fellow da Ernst Ludwig Ehrlich Studienwerk, pesquisa formas de fazer a floresta Amazônica valer mais em pé do que derrubada. Como escritor, publicou dois romances – Para não dizer que não falei de Flora (7Letras, 2015) e Vão livre (Reformatório, 2019) – o primeiro, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

11/05/2021 06h00

Diz o senso comum que saudade é uma particularidade da língua portuguesa, mas provavelmente é seu antônimo que é uma exclusividade alemã. Na língua de Goethe, Fernweh, que pode ser traduzido como um "anseio pela distância", aponta para a direção oposta ao Heimweh, o sentimento de falta da casa ou pátria. Enquanto a saudade se foca em algo conhecido, o Fernweh se dispersa, apontando para o que está lá fora.

Não é de se estranhar, assim, que ofícios que almejam explorar territórios vastos e originais, como o de quem escreve ou empreende, toquem no Fernweh.

Karl Ove Knausgård, escritor best-seller norueguês, diz que sua primeira ideia para o título da série "Minha luta", composta por seis volumes, era o nome de um país para ele distante: a Argentina.

Christian Kroll, fundador da Ecosia, mecanismo de buscas alemão que financia o plantio de árvores, conta que a segunda sílaba do nome de sua empresa foi dada por uma associação fonética com a palavra fantasia e também Malásia (que em português, apesar da grafia quase idêntica, perde a rima). O país do sudeste asiático foi também uma das primeiras investidas da Einhorn, empresa sediada em Berlim, e que produz preservativos e produtos de higiene feminina veganos e sustentáveis.

Como sou também um escritor de ficção, a distância como artifício imaginativo me interessa. Como um profissional da área social, contudo, confesso que ela às vezes me deixa com um pé atrás.

Sem dúvida acredito na importância da cooperação internacional e da superação das fronteiras nacionais para enfrentar desafios de ordem global, que já as ignoram. Contudo, um dos riscos com a distância é acreditar que todos os problemas se encontram em terras estrangeiras. Como se ao criar uma dicotomia entre lá e cá, traçasse-se um paralelo imediato entre problema e solução. Nessa já desequilibrada relação entre norte e sul global, entre países tidos como ricos e pobres, o risco é adotar uma postura paternalista.

De forma irreverente, como toda a comunicação da empresa que criou, Waldemar Zeiler, da Einhorn, responde a primeira pergunta de uma entrevista, que o questiona sobre quem ele é, da seguinte maneira: homem branco, cis, privilegiado, do norte global que gostaria de "unfuck" a economia e agora finge ser um autor (em referência ao livro que lançou recentemente, "Unfuck the economy", ainda sem tradução para o português).

Para a Einhorn, o sul global aparece como uma parte fundamental da sua cadeia de valor. Afinal, a borracha das camisinhas e coletores menstruais produzidos pela empresa têm origem orgânica, na seiva das seringueiras. Por se tratar de uma espécie tropical, o látex da planta deve ser naturalmente buscado em outro continente.

O trabalho da Einhorn então tem sido contribuir para o desenvolvimento da cadeia de valor da borracha, tornando-a mais sustentável, por meio do incentivo ao manejo agroflorestal das seringueiras e o pagamento de salários justos aos trabalhadores. Seu preço nas gôndolas de supermercados alemães é um pouco superior ao dos concorrentes, mas nenhuma grande diferença, em um país onde os preservativos já são naturalmente caros.

Apesar das camisinhas terem sido o primeiro produto a ser lançado pela marca, em 2015, hoje elas representam uma fatia reduzida das vendas. Em 2019, foram comercializados quase 16 milhões de unidades de produtos relacionados ao ciclo menstrual (coletores e absorventes) e apenas 4,4 milhões de preservativos.

De acordo com sua etimologia, a palavra íntimo refere-se ao superlativo de interior. Assim, não deixa de ser irônico, em uma coluna dedicada à distância, falarmos sobre o mais interior dos produtos. Contudo, talvez a questão esteja justamente nessa tensão entre o que está dentro e fora, lá e cá.

Inserida no campo social, a distância é um campo fértil para o surgimento de fantasias, projeções e estereótipos. Evitá-los não é simples, mas certamente necessário e empresas com a Einhorn apresentam tentativas válidas de trabalhar a questão. Na próxima coluna, falaremos sobre a Ecosia, outra famosa empresa social alemã. Com ela, a distância será vencida e voltaremos ao Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL