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Tomas Rosenfeld

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como seria a vida se não existíssemos?

Filme "A Felicidade Não Se Compra" - Divulgação
Filme "A Felicidade Não Se Compra" Imagem: Divulgação
Tomas Rosenfeld

Tomas é escritor, pesquisador e gestor, com mais de dez anos de experiência trabalhando no campo de inovação social. Formado em Relações Internacionais e mestre em Economia Internacional, Tomas é fellow da Fundação Alexander von Humboldt. Ao longo do último ano, atuou como pesquisador visitante no Impact Hub Berlim, estudando empreendedores sociais na capital alemã. Atualmente, como doutorando e research fellow da Ernst Ludwig Ehrlich Studienwerk, pesquisa formas de fazer a floresta Amazônica valer mais em pé do que derrubada. Como escritor, publicou dois romances – Para não dizer que não falei de Flora (7Letras, 2015) e Vão livre (Reformatório, 2019) – o primeiro, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

27/04/2021 06h00

No início do filme "A Felicidade não se compra", três pontos luminosos conversam sobre um fundo preto. As três figuras celestiais discutem a vida do protagonista do filme, George Bailey, interpretado por James Stewart. Na cena, um anjo procura compreender o desejo da morte e pergunta a Deus se o homem estaria doente, a que o chefe responde: "pior, ele perdeu as esperanças."

No filme de Frank Capra, um anjo da guarda é assim incumbido de nutrir o protagonista com novas perspectivas, mostrar a ele que as coisas podem ser diferentes no futuro e que poderiam ter tomado rumos muito distintos no passado.

Recentemente, reassisti ao filme e ao me ver refletindo sobre o propósito desta nova coluna, pensei em pelo menos dois pontos trazidos pela história. O primeiro deles, relacionado à possibilidade de mudança.

Globalmente, a percepção de que as coisas podem e devem ser diferentes encontra um marco no relatório Brundtland, publicado em 1987 como resultado de um trabalho da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU. O documento caracteriza o desenvolvimento sustentável como aquele que "encontra as necessidades atuais sem comprometer a habilidade das futuras gerações de atender suas próprias necessidades."

Depois de mais de uma década de debates em que crescimento econômico e recursos naturais compunham polos opostos e aparentemente incompatíveis no espectro de possibilidades de um mundo globalizado, o conceito buscava conciliá-los.

Ao longo de toda sua história, a humanidade se preocupou com sua descendência, a continuidade genética e cultural que apaziguavam a ansiedade efêmera de nossa existência. A industrialização dos últimos séculos, contudo, nos levou a um novo patamar de preocupações em que a viabilidade da espécie neste planeta foi posta em xeque.

Diante dos imensos desafios que enfrentamos, precisamos de lembretes periódicos de que as coisas podem ser diferentes. Com isso em mente, essa coluna procurará trazer casos e reflexões de iniciativas, especialmente empresariais, que buscam jogar luz sobre as possibilidades encontradas por pessoas que têm se dedicado a buscar soluções em direção ao desenvolvimento sustentável.

Contudo, sob o risco de criar lembretes vazios, procuraremos descrever não somente as ações desenvolvidas pelas empresas e organizações, mas também o resultado e impacto que estas tiveram sobre as demais partes interessadas envolvidas.

Como na segunda metade do filme de Capra, em que assistimos à história da comunidade de Bedford Falls sem a existência de George Bailey e acompanhamos o destino solitário e miserável de seus familiares e amigos. Este exercício proporcionado pelo anjo da guarda é também um teste útil para pensarmos no impacto das organizações: como seria o mundo sem elas, qual é real contribuição que trazem?

No último ano, não faltaram opiniões traçando paralelos entre a situação atual que vivemos com a da Segunda Guerra. O filme de Capra foi lançado em 1946, quando o conflito global já havia chegado ao fim. Ainda estamos longe de superar os tumultos do nosso tempo, mas assim mesmo essas provocações quanto a possibilidade e o impacto das mudanças parecem pertinentes. Ao longo das próximas colunas, procurarei trazer considerações sobre essa dupla reflexão colocada pelo filme.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL